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OFJOR CIÊNCIA GENE DA LINGUAGEM Rodrigo Cunha (*)Em 4 de outubro passado a revista Nature publicou um artigo de pesquisadores britânicos que anunciavam a descoberta de um gene ligado a distúrbios de fala e de linguagem. Eles pesquisaram três gerações de uma família, denominada KE, na qual um distúrbio conhecido por dispraxia verbal de desenvolvimento é transmitido geneticamente. Esse distúrbio provoca dificuldade de articulação e percepção dos sons da fala. Em trabalho anterior, os pesquisadores haviam levantado a hipótese de que o distúrbio pudesse ser causado por um gene dominante ou um conjunto de genes localizados em determinada região do cromossomo 7, um autossomo (cromossomo não-sexual). Eles identificaram um indivíduo CS, não ligado à família KE, que também apresentava problemas de fala e linguagem associados ao mesmo intervalo do cromossomo 7, chamado de SPCH1. O estudo atual aponta para um gene específico dessa região, denominado FOXP2, com um ponto de mutação que interfere em circuitos cerebrais tanto no indivíduo CS quanto nos membros afetados da família KE. Segundo os pesquisadores, "todos os diferentes estudos concordam que o gene danificado na família KE parece ser importante em mecanismos neurais de mediação do desenvolvimento da fala e da linguagem". Eles afirmam que essas investigações "têm sido centrais para as discussões sobre aspectos inatos da habilidade de linguagem". A idéia do inatismo da linguagem, ou seja, da faculdade de linguagem herdada geneticamente, foi lançada pelo lingüista norte-americano Noam Chomsky no início dos anos 60. Chomsky propôs, primeiramente, a hipótese de que todo ser humano já nasceria com uma gramática universal, e por isso as crianças teriam a capacidade de rápida aquisição da complexa linguagem humana. Mais tarde, a teoria inatista foi revisada com a proposta de que a herança genética envolveria princípios universais para todas as línguas e parâmetros específicos, fixados no contato do falante com a sua língua materna. Nos anos 90, quando foram anunciados os primeiros estudos sobre a família KE, a imprensa internacional se referiu ao SPCH1, trecho do cromossomo 7, como o "gene da gramática". Em 4 de outubro, quando os pesquisadores britânicos anunciaram a descoberta do FOXP2, os jornais foram mais cautelosos. The New York Times diz que cientistas "afirmam ter encontrado um gene que está na base da fala e da linguagem, o primeiro a ser ligado a essa faculdade unicamente humana". O Estado de São Paulo, em pequena nota baseada em informação da agência Reuters, também se refere a um "primeiro gene relacionado à linguagem". Marcelo Leite, editor de ciência da Folha de S.Paulo, escreveu extenso artigo sobre o assunto, cujo título diz que foi descoberto apenas "um dos genes da linguagem". Esse artigo faz uma boa explanação geral sobre a descoberta, situando-a dentro do Projeto Genoma Humano. Marcelo Leite comete um deslize, no entanto, quando diz que "o trecho [do cromossomo 7] que se encontra alterado na família [KE] chegou a ser batizado de ‘gene da gramática’ porque os KEs tropeçam em tarefas como completar o exercício ‘Todo dia eu jogo. Ontem eu …’". O exemplo apresentado na verdade seria "Every day I plam; yesterday I _______". A palavra "plam" não faz parte do léxico da língua inglesa, e é uma das palavras inventadas – chamadas de logatomas, em lingüística – para os fins da pesquisa. O lingüista Steven Pinker, do Massachussets Institute of Technology (MIT), escreveu um artigo sobre a descoberta naquela mesma edição da Nature, no qual destaca a dificuldade que os membros afetados da família KE têm com tarefas para completar sentenças envolvendo palavras non sense (sem sentido). Segundo os lingüistas Sírio Possenti e Maria Irma Hadler-Coudry, da Unicamp, "são numerosos os estudos, em mais de uma área, que mostram a fragilidade dos testes metalinguísticos de avaliação de linguagem, seja para falantes normais, seja para cérebro-lesados". Eles afirmam que testes como esses "tornam os sujeitos muito mais ‘deficientes’ (afásicos, dispráxicos) do que na realidade são". Maria Irma Hardler-Coudry é pesquisadora do Laboratório de Neurolingüística e do Centro de Convivência de Afásicos, ambos do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Unicamp. Sírio Possenti, também do IEL, é um crítico contundente da noção de "erro" gramatical usada pelo senso comum. Segundo esses pesquisadores, nos testes aplicados com a família KE, "pode muito bem ocorrer que se imagine estar testando sintaxe e a resposta do sujeito seja a que é por razões pragmáticas". A resposta esperada para um teste como "Every day I plam; yesterday I _______" é algo do tipo "plamed". Mas o fato de os sujeitos se recusarem a completar a sentença pode significar não um desconhecimento da função sintática da palavra que falta ou a flexão a ser dada a ela, mas uma reação de desentendimento diante de uma frase sem sentido. Como foi dito, a palavra "plam" não pertence ao léxico do inglês. Para o sintaticista Jairo Morais Nunes, também da Unicamp, as descobertas dos pesquisadores britânicos estão no caminho correto. Segundo ele, não se pode dizer que há um único gene específico para a linguagem; seria "como dizer que há um gene para a cor dos olhos, e sabemos que na verdade é uma combinação de fatores que determina essa característica". Jairo Morais Nunes, no período em que fez seu doutorado na Universidade de Maryland, nos EUA, por dois semestres, assistiu aulas de Chomsky como ouvinte, no MIT. Seguidor da sintaxe gerativa chomskyana, ele afirma acreditar que pesquisas futuras do genoma humano podem chegar à gramática universal sugerida por Chomsky. O pesquisador diz que, apesar de os dados sobre a família KE apontarem para problemas gerais de cognição, "tem coisas que são puramente do domínio linguístico". Ele dá como exemplo outro caso verificado na Inglaterra, onde um sujeito adulto, com idade mental de criança e dificuldade com tarefas como amarrar o cadarço do sapato, não apresenta problema na aquisição de novas línguas. Jairo Morais Nunes afirma que uma contribuição para essas investigações seria a pesquisa sobre a eventual ocorrência de dispraxia também em linguagem de sinais. Segundo ele, "a língua de sinais é tão articulada quanto a falada", e os distúrbios dariam resultados semelhantes. Eleonora Cavalcante Albano, pesquisadora do Laboratório de Fonética e Psicolingüística (Lafape) da Unicamp, diz que "os testes [com a família KE] são muito simples" e que "faltou testar a habilidade manual desses sujeitos". Segundo ela, além das dificuldades na articulação da fala, os membros afetados da família KE poderiam apresentar problemas motores com as mãos. A posição do Lafape, segundo ela, é a de que "o achado dos pesquisadores britânicos é ótimo", mas as leituras sobre a descoberta são precipitadas. A pesquisadora diz que na evolução das espécies, "o gene que traz uma inovação altera uma série de condutas". Para ela, seria "um salto grande demais" se a faculdade de linguagem humana estivesse restrita a um único gene. Eleonora Albano afirma que pesquisas comprovam a existência de uma protolíngua em chimpanzés. Segundo essas pesquisas, os chimpanzés também possuem uma área do cérebro ligada à linguagem. Eles não possuem, no entanto, um trato vocal em formato de L, como os humanos, e suas capacidades articulatórias e perceptivas são distintas das nossas. (*) Lingüista e editor-adjunto da revista Com Ciência | ||