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CHARLATANISMO EM XEQUE
Ceticismo em excesso
é uma forma de crendice
Ulisses Capozoli*
Na edição de 9 de janeiro, Veja festejou nas páginas amarelas, dedicadas a entrevistas, o psicólogo norte-americano Michael Shermer, identificado como um defensor do "pensamento científico" e um combatente de "superstições, crendices e mitos". Diretor da Sociedade dos Céticos, Shermer, que ultimamente escreve uma coluna na revista Scientific American, tem, entre seus livros, Fronteiras da Ciência: Onde o que faz e o que não faz sentido se encontram. Segundo o texto de Veja, "quando não está debatendo com crédulos de todos os matizes, ou escrevendo livros", Sherman diverte-se como os outros mortais em atividades como pedalar numa corrida de bicicleta que cruza os Estados Unidos.
Não é a primeira e, certamente, não será a última, que alguém aparece com uma receita bem comportada para dizer o que está certo e o que está errado no mundo da ciência. O surpreendente é que as pessoas continuem acreditando que seja possível fazer isso com a facilidade pretendida, mesmo depois de tantos absurdos ditos em nome da ciência.
Cientistas bem humorados criaram o Prêmio Ignobel para refutar idéias tolas, apresentadas por pesquisadores científicos, baseada em metodologia científica, mas que não passam de puro absurdo. A razão disso é que a ciência é uma atividade humana e não supra-humana como um ceticismo rasteiro sugere. Por isso mesmo, em última instância, não há garantia de nada, apesar de todo o esforço para se garantir do erro.
Em 1994, o jornalista francês Jean-Pierre Lentin escreveu um livro (Je pense donc je me trompe) que não mereceu, na imprensa, o mesmo destaque dado à cruzada de Shermer. A razão para isso é, aparentemente, simples. Boa parte dos jornalistas cultiva uma arrogância acima do tolerável para disfarçar uma formação abaixo do aceitável. É essa carência de formação que os leva a defender posições como a que chamam de ceticismo quando seria necessário, antes de qualquer coisa, esclarecer do que exatamente está se falando. Em resumo, por trás disso, há uma visão reducionista do mundo e uma pretensão tola de ser o dono da verdade.
Charlatanismo
Antes que algum apressado conclua que fazer estas observações equivale a defender astrologia ou ufologia como atividades dignas de preocupação científica, é preciso dizer que charlatanismo é o que não falta no mundo. Mas o problema maior é esse: nem mesmo a ciência está livre dessa praga. E um tipo bem pouco disfarçado de charlatanismo é levar as pessoas a acreditar que, em ciência, (ou fora dela) se possa fazer uma distinção tão cristalina entre o que é e o que não é. Se isso fosse possível, ao menos em princípio, um único sujeito objetivo teria como fazer uma descrição definitiva do mundo. O que conhecemos como sendo o mundo é resultado da interpretação humana, uma tarefa que não cessa e transforma a própria ciência. É da interpretação incessante que vem a idéia de "progresso" em ciência, e não de uma instância sobre-humana, como defende um internalismo superado.
Para voltar ao livro de Lentin, certamente vale a pena reproduzir alguns exemplos do que a edição brasileira (Penso logo me engano) acrescentou como subtítulo: breve história do besteirol científico. A começar por alguns casos que Lentin não colecionou.
Foi o que aconteceu com monsieur Lavoisier que, numa reunião, em 15 de abril de 1769, na Academia de Ciências da França, sustentou, referindo-se aos meteoritos, que "pedras que caem do céu não existem". Como resultado do que Lavoisier classificou de "crendice", "mito", ou pura "ignorância humana", o mineralogista austríaco Ignaz von Born, ao assumir o cargo de conservador da coleção imperial de Viena, retirou de lá todos os meteoritos. Na visão de Lavoisier e seu discípulo, exemplos de céticos irredutíveis, um corpo tão metálico quando o Bendengó, o mais famoso meteorito encontrado no Brasil (junto ao rio Vaza Barris, em Canudos), não passaria de ignorância popular.
Outro exemplo do discernimento dos chamados "céticos", levou, em 1912, a uma condenação praticamente unânime o meteorologista alemão Alfred Wegener (1880-1930) quando ele propôs que a superfície da Terra está quebrada em placas e elas se movimentam, umas em relação a outras, gerando, entre outros fenômenos, sismos e vulcanismo. Os céticos preferiam um mundo bem sólido e imóvel sob seus pés, mas tiveram que se render, definitivamente, no começo dos anos 60, quando a teoria se mostrou acertada. Até então Wegener fora chamado especialmente de "charlatão".
Em 1654, o bispo irlandês James Ussher publicou um trabalho sustentando que o mundo fora criado no dia 26 de outubro de 4004 antes de Cristo, exatamente às 9 horas da manhã. Fazer ciência baseada na Bíblia nunca foi uma receita confiável. Mas o surpreendente é que, como mostra Lentin, houve controvérsia. O grande Johannes Kepler (1572-1630), por exemplo, preferiu o 27 de abril de 4977 antes de Cristo. Já o astrônomo polonês Johannes Hevelius (1611-1687), um dos grandes nomes do século 17, ficou com o 24 de abril de 3963 antes de Cristo, às 18 horas.
E mesmo Kepler não escapou de críticas, exatamente quando estava na direção que se mostrou acertada. Ao falar de forças agindo à distância, referindo-se ao que Newton chamou de gravitação universal, Kepler recebeu um sorriso de desdém de outro gigante: Galileu Galilei (1564-1642). Para Galileu, forças agindo à distância eram uma herança da magia, algo que não combinava com os novos tempos. E também Galilei, como é do conhecimento geral, foi combatido. Christophorus Clavius (1537-1612) encarregado pelo papa Gregório XIII da reforma do calendário, este mesmo calendário que ainda hoje continua em vigor, assegurou que as irregularidades observadas por Galilei na superfície da Lua não eram outra coisa senão ilusão de óptica. Como bom cético, Clavius sustentou que a Lua estava encoberta por uma camada transparente que a fazia tão lisa como uma bola de bilhar.
Os casos de disparates e trapaças cometidos em nome da ciência vão longe e incluem tanto nomes controvertidos, como Auguste Comte e Denissovith Lyssenko, quanto figuras consagradas, caso de John Dalton, Gregor Mendel e Robert Millikan, sem falar de embusteiros como o parapsicólogo inglês Samuel G. Soal.
Para encerrar por aqui a história, essa foi a razão pela qual a obra de Nicolau Copérnico (1473-1543) só saiu como autor em seu leito de morte. Copérnico temia os céticos de seu tempo. E eles teriam, naquela momento, um argumento aparentemente muito sólido para brandir aos olhos de seus interlocutores: "Vocês não estão vendo que de manhã o Sol está baixo no horizonte Leste, ao meio-dia está alto no céu e, ao final da tarde, novamente baixo no horizonte Oeste? Então, que idéia mais idiota esta, de que é a Terra que gira em torno do Sol?"
Brasil na Antártida
Jornalistas convidados pela Secretaria da Convenção Interministerial para os Recursos do Mar (Secirm) para visitar as instalações do Brasil na Antártida quase sempre voltam de lá deslumbrados. O resultado disso são textos que apenas repetem o que ouviram, sem nenhum conteúdo crítico. Cláudio Angelo, da Folha de S. Paulo, (Caderno Mais, 13/01, págs. 5/11) mostrou um outro lado do que viu: ou o Brasil muda o rumo dos trabalhos que faz no continente (na verdade continuamos com uma base numa ilha, a Rei George, nas Shetland do Sul), ou mesmo o que já se fez fica comprometido.
No Brasil, como acontece desde a chegada da corte portuguesa, em 1808, que autorizou, depois de mais de 300 anos de veto, a pesquisa científica, o improviso ainda está na base das decisões. Para ter voto como membro consultivo do Tratado Antártico, reaberto em 1991, o Brasil comprou um navio polar usado, o Barão de Teffé, e o governo justificou para a sociedade que estava em busca de alimentos (krill, pequeno crustáceo) nas águas geladas do Sul. Até hoje o país não tem uma base continental, ao contrário da Argentina e do Chile, e nem mesmo um quebra-gelos, que permitiria o aprofundamento das pesquisas. O resultado disso é o apontado por Angelo: ou avançamos ou nem ficamos estacionados, mas recuamos.
Pesquisadores estrangeiros
O Estado de S. Paulo, com seu jornalismo de bajulação ao governo FHC, não perde nenhuma oportunidade de elogiar como se essa fosse a solução para os problemas. "Os pesquisadores que o Brasil conquistou" (OESP, 13/01,pág. A 14) vai nesta linha. Matéria mostra que Brasil atrai pelo menos 2.105 cientistas estrangeiros. Em primeiro lugar estão os argentinos, por razões óbvias e que não são exatamente novas. Um trabalho deste tipo, para ser representativo, precisaria citar, entre outros dados, quantos brasileiros estão fora e o que os levou a sair daqui. O Brasil forma, atualmente, quase 6 mil doutores/ano e o problema é que eles não têm emprego aqui.
Heisenberg sem remorso
Material produzido pelo New York Times com base em noticiário do The Times, inglês, e reproduzido pelos jornais brasileiros joga alguma luz sobre o famoso encontro entre o físico alemão Werner Heisenberg e o físico dinamarquês Nils Bohr, em setembro de 1941. Mas a reunião que separou os dois físicos, ambos premiados com o Nobel, ainda é um dos mistérios do universo da ciência. Segundo o relato do The Times, tendo como fonte Finn Aaserud, diretor do Arquivo Nils Bohr, de Copenhague, Heisenberg, ao contrário do que diz a versão clássica, não teria tido nenhuma intenção de sabotar uma bomba atômica nazista. O temor de que a Alemanha nazista construísse a bomba levou o físico de origem alemã, Albert Einstein, a recomendar ao governo dos Estados Unidos que desenvolvesse a arma.
* Ulisses Capozoli, jornalista especializado em divulgação científica é mestre e doutorando em ciências pela USP e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo científico (ABJC)
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