A FOME E A MÍDIA
Transgênicos e responsabilidade social
Ulisses Capozzoli
No melhor estilo da novela das oito, o destino da soja transgênica continua indefinido. No último capítulo, no início do mês (5/9), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu uma decisão "científica" aos produtores gaúchos que concentram a produção nacional utilizando sementes modificadas contrabandeadas da Argentina.
Quem é a favor e contra os organismos geneticamente modificados (OGMs) popularizados como transgênicos?
No encontro com os produtores gaúchos, em discurso de abertura da feira Expointer, em Esteio (RS), o presidente disse que não quer o assunto tratado com orientação ideológica e assegurou que a definição será "científica".
Nas proximidades do palanque, segundo relato da mídia, a divergência tomou forma em faixas onde se podia ler : "Sou PT e sou transgênico".
No Rio Grande do Sul, especialmente, as categorias de trabalhadores agrícolas estão divididas quanto à soja transgênica. A Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag) é favorável aos transgênicos, enquanto o Movimento dos Sem Terra (MST) e entidades ligadas à Via Campesina são contra.
Mas a soja, cultura voltada para a exportação, e por isso mesmo cultivo com perfil de grandes propriedades agrícolas, é apenas um caso envolvendo a transgenia.
Colocar-se como favorável ou contrário ao cultivo de transgênicos sem um enfoque "científico", como quer o presidente, de fato é um posicionamento simplista. Os transgênicos têm raízes numa longa história que, mais uma vez, está a ponto de uma transformação radical. E, certamente, não será o amparo ideológico, frágil por natureza, que ajudará a encaminhar a melhor solução.
Desconhecimento elementar
Os OGMs não são organismos artificiais – "comida de Frankenstein", como tem sido rotulado pela mídia. São animais ou plantas que receberam genes de outros organismos para expressar características que originalmente não têm. Essas características podem ser as mais variadas e, por isso mesmo, os transgênicos representam uma promessa de completa reformulação na produção mundial de alimentos e recuperação ambiental.
A resistência ideológica aos transgênicos, ainda que isso possa irritar profundamente a maior parte de seus críticos, sem dúvida tem relação com sentimentos de natureza religiosa. E valores religiosos e científicos nem sempre conviveram bem – ainda que também isso não seja impossível – no interior de considerações mais sofisticadas.
Lamentavelmente, não é o que ocorre na abordagem da mídia. Repórteres invariavelmente, ouvem "o outro lado", o simplismo jornalístico que virou regra geral num noticiário superficial no qual, com freqüência, textos legendas são precariamente redigidos.
Evidentemente que "ouvir o outro lado" está longe de uma solução razoável. Mas burocraticamente evita problemas, ao menos para os meios de comunicação, e com isso se quer fazer acreditar que a situação está resolvida.
Na verdade, a situação dos transgênicos exige que jornalistas, como trabalhadores intelectuais, se posicionem não de forma ideológica, como vem acontecendo, mas com um mínimo de conteúdo científico para se formarem e assim informarem corretamente seus leitores.
Transgênicos, como outros temas científicos da atualidade, são um enorme desafio ao jornalismo preguiçoso e burocrático estimulado ao longo das duas últimas décadas com ares de pretensa responsabilidade e agilidade.
O recente acidente envolvendo o incêndio do foguete brasileiro (VLS) foi mais uma evidência da quantidade de besteira que a falta de uma formação mais ampla pode produzir. Sem falar nas repetidas ameaças de asteróides/cometas anunciadas como sérias ameaças à Terra num futuro ainda distante. Como se fosse natural que esperássemos, passivamente, pela tragédia. Esse é um desconhecimento elementar da natureza humana, o que significa um completo desconhecimento da História.
Fundo religioso
O discurso algo monótono dos críticos dos transgênicos quase sempre remete à multinacional Monsanto e às sementes e pesticidas que a empresa desenvolveu nessa área, vistos como uma ameaça aos produtores agrícolas pelo controle monopolista.
As multinacionais, especialmente nesta fase de neoliberalismo (anunciada por Francis Fukuyama com uma tolice chamada de "fim da história", que a mídia brasileira festejou como um acontecimento revolucionário, evidência do despreparo de muita gente que pretende ser levada a sério), não são nenhum anjo da guarda, para deixarmos a questão por aqui. Mas restringir a dimensão dos OGMs ao caso da Monsanto é de uma simplificação desesperadora.
Na verdade, com a questão colocada dessa forma, produz-se o melhor argumento para a defesa da pesquisa dos transgênicos por parte de empresas nacionais de tradição. A Embrapa, por exemplo, que redesenhou a produção agrícola no Brasil, deve ter, não apenas o direito, mas a obrigação de se envolver com a pesquisa de OGMs.
A dificuldade da abordagem ideológica – e não "científica", como quer o presidente da República – é que a ideologia tem por base conceitos gerais (que a ciência de alguma maneira também tem) incapazes de refletir sobre casos específicos. Mas a ciência, por sua própria natureza, pode ir muito além desses limites.
A lógica fácil da ideologia apenas desestimula o raciocínio em benefício de um agir automatizado e um comportamento de grupos de afinidade. Gritar palavras de ordem certamente é mais cômodo que enfrentar as dúvidas e envolver-se diretamente com os desafios.
As organizações não-governamentais também estão divididas quanto aos OGMs, mas, aparentemente, a maioria é contrária a essas produções.
O problema, novamente aqui, reflete a posição de boa parte do ambientalismo, apoiado sobre bases religiosas (origem e manipulação da vida) ainda que deneguem enfaticamente esta condição. É um desses casos que divertiriam pensadores como Sigmund Freud e Joseph Campbell, para se tirar partido da psicanálise e da mitologia.
Sem dúvida que o fundo religioso em questões como transgenia e clonagem não pode nem deve ser desconsiderado. Mas é preciso identificá-los como de natureza religiosa e não semear uma confusão anunciando algo como o fim dos tempos. Essa é uma posição algo fanática, que não ajuda e, por isso mesmo, atrapalha.
Controle oficial
Há, digamos, uma certa melancolia em se considerar que de alguma forma nos afastamos da Natureza, no sentido do ritmo e das opções da Natureza, para a elaboração da vida. Mas esse primeiro passo foi dado há mais de 12 mil anos, quando nos voltamos para a fundação da agricultura, substituindo a caça e coleta de alimentos – o que a Bíblia narra, com a linguagem metafórica dos livros religiosos, como "a expulsão do paraíso".
Ao longo desses milhares de anos, a humanidade domesticou plantas e animais e com isso os transformou profundamente. Sem a agricultura, que durante milênios concentrou a maior parte do conhecimento científico (incluindo o desenvolvimento do calendário, o que significa recorrer à astronomia para antever as condições de tempo e obter as melhores safras), não estaríamos aqui.
Em harmonia com a base religiosa, a crítica ideologizada dispensa o pensar sistemático valendo-se de frases feitas, meias-verdades e de ameaças catastróficas.
No caso da soja transgênica, a posição da ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, é de testes em ambientes tropicais. A soja transgênica foi inicialmente desenvolvida em países temperados, com condições ambientais inteiramente distintas das tropicais. Ao defender esses estudos, na realidade a ministra não faz mais que acatar a legislação.
A soja, originária da China, não tem parentes selvagens no Brasil. Mas isso, na avaliação de pesquisadores respeitados, não deve levar a nenhuma subestimação de natureza ambiental. O problema adicional, neste caso, é que também as referências legais estão envolvidas numa guerra de desgaste. A CTNbio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança), criada na década passada, em princípio deveria ter autonomia para encaminhamento e solução de problemas dessa natureza. Mas não tem, devido a restrições a que está submetida.
Na prática, no entanto, podemos estar consumindo os transgênicos (e certamente estamos) por falta de controle oficial, numa experiência parecida à dos medicamentos inócuos/danosos, combustível adulterado e dinheiro falsificado.
Nova era
A produção e comercialização da soja transgênica permanece proibida, mas o governo ignora completamente o destino do produto transgênico excepcionalmente liberado para o comércio este ano, resultado de culturas baseadas nas sementes contrabandeadas da Argentina.
Como um efeito-dominó, a burocracia legal/funcional faz com que direitos inegáveis, como a escolha que o consumidor pode fazer entre transgênicos ou não, estejam sendo desconsiderados inteiramente.
Um certo ambientalismo e o discurso ideológico baseados em palavras de ordem sustentam que o problema nacional e planetário envolvendo a fome não depende da produção de alimentos, mas de uma distribuição mais justa da riqueza.
Não há como negar que isso seja verdade. O desafio, neste caso, está em como furar o bloqueio do sistema de poder concentrador de riqueza. Devemos nos concentrar nesta batalha enquanto milhões de pessoas, diariamente, se ressentem da desnutrição/subnutrição?
Para ambientalistas bem-intencionados e de barriga cheia é fácil a crítica aos transgênicos. Para observadores sensibilizados pela fome, que além de mortes e doenças produzem seqüelas irreparáveis, certamente a questão é um tanto diferente. Como diziam nossas avós, "de boa intenção o inferno está cheio".
Primeiro porque é perfeitamente possível desenvolver transgênicos para a pequena produção agrícola, como já ocorreu com o chamado arroz dourado (golden rice), capaz de sintetizar a vitamina A e eliminar a cegueira freqüente em países subdesenvolvidos. Mas mesmo este caso dramático de solução científico/humanista tem merecido a condenação de ambientalistas bem nutridos.
O ex-presidente americano Jimmy Carter, Prêmio Nobel da Paz e um plantador de algodão e amendoim, defendeu há duas semanas, em Tóquio, a adoção de transgênicos para amenizar a fome na África e outras regiões do planeta assoladas por esse atentado à integridade e dignidade humana.
Para Carter, "com mais pessoas adequadamente alimentadas haveria menos disparidades entre ricos e pobres. Essa disparidade está na raiz da maioria dos problemas não resolvidos do mundo".
Os transgênicos, além de minimizar a fome, podem ajudar na recuperação de áreas degradadas, no aproveitamento de solos não-favoráveis às culturas tradicionais, possibilitar a recuperação de florestas, amenizar a demanda de água e, com tudo isso, abrir uma nova era para a Humanidade – como ocorreu com a fundação da agricultura, há 12 mil anos.
A mídia tem obrigação de deixar a ideologia de lado e se enfrentar com a realidade do mundo.