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JORNALISMO CIENTÍFICO
O achado no deserto e a condição humana
Ulisses Capozzoli (*)
Depois de completar sua histórica viagem no Beagle, um veleiro de 240 toneladas, entre 1831 e 1836, o naturalista inglês Charles Darwin esperou até 1859 para publicar seu Origem das Espécies. O maior temor de Darwin era implodir sua época, ao refutar a visão religiosa sobre a origem dos seres vivos que, segundo a versão bíblica, foram todos gerados por Deus no estágio final da criação.
Darwin só tomou a decisão de publicar o trabalho depois de ter recebido uma carta de um naturalista seu conterrâneo, Alfred Russel Wallace. As questões envolviam a seleção natural, o pressuposto da obra de Darwin. A correspondência que Darwin manteve com sua esposa, a propósito de seus temores, revela a tensão entre o cientista fascinado pela descoberta e o cidadão, temeroso de que, com ela, se estilhaçassem os valores de uma época.
A caminho de Galápagos, sob o comando do controvertido capitão Robert Fitzroy, Darwin passou pelo Brasil. Encantou-se com a natureza e aterrorizou-se com as cenas que viu numa fazenda de café movimentada por braços escravos nas proximidades do Rio de Janeiro. As cenas de horror e espanto quanto à precariedade de uma hospedaria onde se deteve, a caminho da fazenda, estão relatados em Viagens de um Naturalista ao Redor do Mundo.
Wallace também esteve no Brasil, entre 1848 e 1852, na companhia de outro naturalista inglês, Henry Walter Bates. Walter Bates só retornou à Inglaterra em 1859, depois de coletar, na Amazônia, 14.712 novas espécies, a maioria formada por insetos e 8 mil desconhecidas até então.
Observada numa retrospectiva histórica, é tentador pensar que à época de Darwin aconteceram grandes revoluções na ciência, mas esses tempos de turbulências foram vencidos e o que se tem agora, e daqui por diante, é quase um refinamento dessas grandes descobertas.
Mais de uma vez houve quem pensasse assim. Aristóteles, uma das inteligências mais brilhantes da antigüidade grega, foi um dos que defendeu este ponto de vista. Mais recentemente, Lorde Kelvin (William Thomson), inventor, engenheiro físico, matemático e uma das mais respeitáveis cabeças entre os séculos 19 e 20, também considerou as coisas dessa maneira.
Frações de existência
Ao longo desta última semana, a imprensa agitou-se com uma notícia publicada na prestigiosa revista britânica Nature (que, na verdade, não é mais inglesa e pertence a um grupo alemão) sobre um achado que remete à infância do homem e, novamente, retoma o trabalho de Charles Darwin. A descoberta é um crânio mineralizado, praticamente um pequeno bloco rochoso, desenterrado no norte do Chade, junto ao deserto do Saara, na África Central. A conquista é de um grupo de pesquisadores liderados pelos paleontólogos franceses Michel Brunet e Patrick Vignaud, da Universidade de Poitiers.
O crânio, de uma criatura batizada cientificamente de Sahelanthropus tchadensis, mas apelidado de "Toumai" ("esperança de vida"), nome local dado às crianças que nascem às vésperas das épocas das grandes secas, foi encontrado há mais de um ano e mantido em segredo enquanto era analisado por especialistas internacionais. Com o crânio foram recuperados alguns dentes e fragmentos de uma mandíbula.
Há um certo consenso de que estes restos pertenceram a um ancestral do homem moderno, o Homo sapiens, como chamamos a nós próprios.
A datação da peça indica que ela tem uma idade em torno de 7 milhões de anos, praticamente o dobro da pequena "Lucy", os restos de um hominídeo encontrado na Etiópia, em 1974, com a mais antiga caixa craniana já localizada pela ciência.
O relato publicado pela Nature diz que o fóssil encontrado pelos paleontólogos franceses tem características só identificadas em ancestrais humanos muito mais recentes, caso do Homo habilis, que podia construir ferramentas, há uns 2,5 milhões de anos.
Assim, o achado deve ser mais um elo na longa corrente que nos prende ao passado, quando nossos ancestrais, de alguma maneira, se libertaram de um tronco comum a outras espécies para dar origem ao que somos hoje: criaturas capazes de mandar uma nave para fora de nosso sistema solar, com habilidades para forjar equações físico-matemáticas e representar as primeiras frações de existência do Universo, ainda que nosso lado obscuro oculte comportamentos nada compatíveis com o que se entende, convencionalmente, por racionalidade e inteligência.
Mito de Sísifo
Bernard Wood, antropólogo da Universidade George Washington, nos Estados Unidos, comentou a descoberta para Nature <www.nature.com>. Brunet disse, em entrevista no Chade, tratar-se de "uma descoberta maravilhosa". Justificou que "este é o mais antigo hominídeo e, com a idade de 7 milhões de anos, deve remeter a uma divergência ainda mais antiga entre humanos e chimpanzés" – os nossos aparentados mais próximos, do ponto de vista genético.
Para Wood, que teve suas declarações reproduzidas na Folha de S. Paulo (11/7, pág. A17), "Toumai mais complica que explica". A razão disso, segundo ele, é que "a criatura combina traços muito antigos – um cérebro provavelmente igual ao de um chimpanzé de hoje – com outros teoricamente à frente de seu tempo, como a mandíbula pouco proeminente, menor que a dos hominídeos posteriores, os australopitecos – até agora considerados os ancestrais diretos do homem".
"Ele simplesmente não é o que nós esperávamos", diz Wood.
Dan Lieberman, antropólogo da Universidade de Harvard, que também teve suas opiniões reproduzidas pela Folha, vai mais longe: "Na verdade, acho que isso pode significar que toda a linhagem de australopitecos era um ramo lateral da evolução dos hominídeos, enquanto o Sahelanthropus representaria o grupo que realmente deu origem ao homem".
É Lieberman quem, um tanto divertido, previne que "você nunca vai achar o primeiro hominídeo", argumentando que "o aparecimento de traços parecidos em espécies não relacionadas deve ter sido muito grande, o que impede você de dizer ‘ah, este é o nosso ancestral".
Mas a verdade é que as questões não param no ponto indicado por Lieberman, se a discussão extrapolar o debate específico sobre o fóssil do deserto. Uma infinidade de perguntas esperam para ser iluminadas pela investigação científica na direção da origem da vida na Terra e não só da origem dos humanos.
A teoria clássica, de Opárin-Haldane, ainda não pode explicar satisfatoriamente como a matéria inorgânica passou à matéria orgânica, ou seja, como a matéria não viva deu origem à matéria viva.
Há ainda outra questão fascinante envolvendo a panspermia, a idéia de que a vida não surgiu na Terra, mas chegou aqui vinda de outras regiões do espaço, transportada pela pressão de radiação das estrelas, como um vento que leva sementes de uma para outra região da Terra e, sob ambientes distintos, têm adaptações as mais imprevisíveis.
A versão original da panspermia foi desenvolvida pelo físico-químico e Prêmio Nobel sueco Svant Arrhenius, por volta de 1908, e posteriormente ampliada pelo cosmólogo e astrofísico inglês Fred Hoyle, morto recentemente.
Os primeiros críticos da teoria alegavam que o vazio interestelar tem uma densidade tão baixa de matéria que seria praticamente impossível considerar essa possibilidade.
Mas o desenvolvimento da radioastronomia, após a Segunda Guerra Mundial, mostrou que isso não é verdade. Moléculas altamente complexas, em número superior a duas centenas, já foram localizadas no gélido e agressivo ambiente interestelar.
Se a panspermia vier a se consolidar com novas investigações, a possibilidade é de que os trabalhos de Darwin possam ser profundamente reformulados e, mais uma vez, o que parecia ser o fim das grandes revoluções científicas terá se mostrado um conceito a ser repensado.
Por isso mesmo, o mito de Sísifo parece traduzir, mais fielmente que qualquer outra metáfora, o trabalho da ciência: conduzir uma pedra até o cume da montanha, de onde ela rola para ser, novamente, reconduzida ao cume. Essa é a tarefa da interpretação, incessante, impossível de ser definitiva.
Há um momento em que a pedra está no cume. Há um outro em que ela desliza, para ser reconduzida ao cume.
Elo perdido
Observar uma noite estrelada, fora da agitação nervosa das grandes cidades, talvez ainda seja uma das maneiras mais emocionantes de se refletir sobre a presença do homem no Universo. Não como o ápice da criação, como queria a religião ao tempo de Darwin. Mas como intérprete de uma possibilidade, que chamamos de realidade, capaz de ser tratada cientificamente, com base em leis.
A visão aristotélica, propondo a existência de uma esfera fixa girando em torno da Terra, que permanecia fixa no centro, não levava em conta a "economia de energia". Sob este aspecto, seria muito mais interessante aceitar o movimento da Terra do que o deslocamento de toda a esfera terrestre que a envolveria. Da mesma forma, é uma completa falta de senso estético pensar que apenas um, dos 200 bilhões de sóis da Galáxia, abrigue a vida em sua órbita. Em benefício da estética, vale a pena considerar que o físico-matemático inglês Paul Dirac propõe que um dos critérios para uma teoria ser avaliada é a sua beleza – no sentido de sua harmonia intrínseca.
Como a vida pode apresentar-se em outros mundos é uma perspectiva recente da ciência, materializada pela exobiologia ou astrobiologia, área de pesquisa que consolidou-se nos anos 60 com trabalhos do radioastrônomo norte-americano Frank Drake.
Drake foi o primeiro a apontar um radiotelescópio para estrelas próximas e parecidas com nosso Sol em busca de sinais capazes de evidenciar a existência de possíveis outras civilizações. Não teve sucesso, o que não é de surpreender, em função da tecnologia e exiguidade do tempo de que dispôs. Mas quatro décadas depois de sua escuta pioneira, os radiotelescópios ainda não recolheram nada de promissor do que até hoje é um grande vazio de sinais interpretáveis como de origem inteligente.
Neste ponto, mesmo os pessimistas (singularistas) em relação à possibilidade de outras inteligências, galáticas ou extra-galáticas, têm um encontro inevitável com os otimistas (pluralistas).
Se o homem está só, entre as fogueiras noturnas das estrelas, por que continua incapaz de avaliar a sua condição de "órfão cósmico", para usar a expressão de Loren Eisley?
Por que corremos febris, atrás do dinheiro, como se um papel-moeda nos desse alguma garantia sob a imensidão de tempo e espaço da noite escura?
Por que permanecemos aferrados a algumas idéias superadas e insistimos em não mudar, quando deveríamos fazê-lo, em benefício de uma visão mais ampla sobre o sentido da vida?
Por que invocamos princípios frágeis, irracionais e humanamente indefensáveis, como a supremacia do mercado, para manter situações que precisam ser profundamente transformadas?
Por que nos recusamos, com determinação e com base em justificativas injustificáveis, ouvir o humano que sobrevive em nós?
Certamente, como previne Dan Lieberman, nunca viremos a topar com o primeiro homem – embora possamos tocar seus restos fossilizados, sem saber de quem se trata.
Talvez o primeiro homem não passe de pura ficção. Como a palavra homem é uma ficção para se referir a cada um dos homens da Terra, segundo a crítica de Bronowski.
Talvez os 7 milhões de anos após a queda do crânio no Chade não tenham sido o bastante para compreendermos o significado do que entendemos como a natureza humana. Por isso procuramos, em vão, pelo elo perdido.
(*) Jornalista, mestre em ciências pela USP, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) e editor de Scientific American Brasil
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