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OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.


IMPRENSA E CONHECIMENTO
Fabulação em lugar de reportagens

Ulisses Capozoli (*)

A função da imprensa é informar corretamente seus leitores, embora esta frase possa parecer óbvia e ingênua ao mesmo tempo. Jornalistas, no exercício da profissão, não podem comportar-se como uma assistência de futebol, torcendo freneticamente por um dos lados. É preciso liberar-se da ligação com o imediatismo e enxergar a história (do passado e do futuro) para localizar-se e, então, mergulhar na tarefa de oferecer uma inteligibilidade possível para o mundo. Esta não é uma utopia, mas uma sólida obrigação profissional.

Pode parecer luxo utilizar a inteligência, a ciência, a literatura e mesmo a religião (como um dos componentes da cultura) para analisar os acontecimentos e com eles tecer uma narrativa com o esforço de alguma inteligibilidade. Mas se isso fizer sentido, mais que nunca a imprensa brasileira mostra uma enorme carência do que se pode chamar de fundamentos de antropologia, mitologia, história, entre outros conhecimentos, para executar minimamente sua tarefa de informar.

A guerra no Afeganistão, ou a "América contra-ataca", como prefere a Folha de S.Paulo numa abordagem que lembra as aventuras de histórias em quadrinhos – os "comics", onde providenciais super-homens, homens-aranha, homens-de-ferro, príncipes-submarinos, surfistas-prateados ou capitães-américa surgem providencialmente para resolver uma parada dura – é a melhor prova disso.

Na edição de sexta-feira [12/10], o âncora do Jornal da Record Boris Casoy ironizou a idéia de que terroristas-suicidas muçulmanos estejam dispostos a morrer com facilidade por acreditarem que, em seguida, vão para o paraíso onde esperam por eles nada menos que 70 virgens. A piada já foi exaustivamente repetida em outros meios de comunicação.

Para não haver dúvida, é bom reafirmar que a violência é sempre condenável, venha de onde vier, e este deve ser um princípio – e não uma justificativa ocasional – para quem é capaz de se deparar com os mistérios do Cosmo e a presença de uma humanidade na superfície de um mundo como a Terra.

Reafirmado este princípio contra a violência, é preciso lembrar que as falas religiosas são construídas com a linguagem metafórica, as alegorias. Nenhum livro sagrado é – nem poderia ser, como ocorre com toda a literatura clássica – uma fala pontual, localizada, precisa. A razão disso é que devem ter abertura para a interpretação e a interpretação é um processo que se altera com o tempo e o espaço. Assim, a idéia das 70 virgens, traduz "uma promessa de felicidade", como diria Stendhal, e não tem qualquer significado em si.

Condição humana

A interpretação de metáforas ao pé da letra conduz a conclusões absurdas, enquanto a leitura alegórica é uma rica fonte de informação, como ensina J. Bernal em seu Ciência na História, quando fala da expulsão de Adão e Eva do Paraíso. O que a Bíblia chama de "expulsão do Paraíso", interpreta Bernal, não é outra coisa senão o registro alegórico da fundação da agricultura, há 12 mil anos, quando a coleta e a caça foram substituídos pela semeadura dos alimentos. O mesmo procedimento, ao menos em princípio, poderia ser aplicado a outros relatos como o dilúvio e a abertura do mar por Moisés. No lugar do mágico, do desconhecido e do improvável, a leitura alegórica destes fatos faz nascer uma inteligibilidade possível.

Em linguagem falada, Casoy fez, com seu bom-humor de sempre, o que a última edição da revista Veja (nº 1.722, 17/10/01) levou, duplamente, ao pé da letra. O título de abertura de sua matéria de capa, "O míssil e o barbudo", dá uma idéia do que vem a seguir. Frases como: "... na primeira semana do confronto entre o míssil Tomahawk e o fundamentalismo islâmico, os barbudos estavam tomando uma tremenda surra...".

Já vi colegas de profissão judeus terem orgasmo por alguma desgraça no mundo árabe, ou fracassos no que se chamava de "mundo socialista", como o fiasco no lançamento de um foguete chinês. Foram as oportunidades que julgo ter tido para não me deixar levar pela irracionalidade que acompanha certas partidas de futebol, mesmo sendo um são-paulino apaixonado. É possível que jornalistas árabes tenham a mesma reação, em relação a Israel, ainda que árabes sejam menos freqüentes que judeus nas redações dos grandes jornais brasileiros.

A questão aqui é que, acima de árabes e judeus, são criaturas humanas e um jornalista com algum talento deve tirar partido desta situação para expor o que muitos filósofos, como Nietzsche, chamam de "condição humana". Aí está o drama, ou, se quiserem, a tragédia, já que a tragédia, tal como foi tratada pelos gregos, é o horror de existir – algo de que, aparentemente, só os humanos têm consciência.

Horário de verão

Há uma história desconhecida quanto ao início e o fim do Universo e, no meio dela, estamos nós, os humanos, empenhados numa luta feroz de destruição. E há uma torcida, como a que costuma acompanhar trocas de socos entre adolescentes e, em casos mais dramáticos, de ajuntamentos que animam um suicida a se atirar do alto de um edifício com berros de "pula.. pula... pula!". E muita gente ainda se escandaliza com Nietzsche e seu anúncio de que "Deus está morto". Se o filósofo está errado e Deus ainda não morreu, está agonizante pela falta de uma compaixão mínima – a que nos faz sentir a todos os humanos como humanos. E desta morte participa, de alguma maneira, uma imprensa insensível, estúpida, ignorante e arrogante, projetando para fora das redações o ódio, as disputas e a impotência que sente dentro de si mesma.

Se há alguma esperança, certamente ela está na cultura – a constelação de valores que, acima da biologia, fez nascer a humanidade. Este é o sentido profundo das pinturas de touros e manadas de cavalos selvagens nos interiores de cavernas como Lascaux e Altamira, na França e Espanha, feitas há milhares de anos: uma ruptura com o tempo para comunicar uma impressão do mundo entre homens de diferentes idades. A cultura, como a vida, tem apreço pela diversidade, pelo múltiplo, pelo distinto, pelo oposto, pela afirmação e pela negação. Neste sentido, a cobertura, especialmente de Veja (um espelho nítido de boa parte da imprensa brasileira), é um caso tanto de desinformação, que pode ser chamado de estranhamento cultural, quanto de expressão de sua própria condição, o que o doutor Freud cunhou como "ato falho".

Se é preciso condenar um atentado violento como o que aconteceu em Nova York não se pode também aceitar um ataque covarde a cidades já miseráveis, destruídas por guerras anteriores, onde velhos, crianças e adultos já olham a vida com a indiferença dos condenados à morte.

Com a continuidade da guerra ocorrem os desdobramentos esperados, entre eles a possibilidade de ataques com agentes químicos e biológicos, nos Estados Unidos e entre seus aliados no Ocidente. O antraz, segundo sugerem as primeiras análises, deve integrar este pacote de horrores.

O supreendente, aqui, é a falta de referência por parte da imprensa quanto ao uso deste arsenal químico/biológico em confrontos anteriores. Os Estados Unidos, por exemplo, utilizaram o desfolhante "agente laranja" à vontade no Vietnã. E o que sobrou, em parte, foi vendido, sorrateiramente, a fazendeiros brasileiros que utilizaram a droga na Amazônia para abrir pastagens na floresta e assim caracterizar a posse histórica da terra num país com as características típicas de atraso social.

Poderia ser lembrado, ainda, o caso do Japão, que pretendia provocar uma epidemia mundial com o recrudescimento da peste que assolou muitas vezes o mundo durante a Idade Média. A estratégia do Japão esteve concentrada no desenvolvimento de pulgas, um exército quase infinito de pulgas voltadas para a destruição de vidas humanas.

Quem disser que as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki impediram que o intento japonês se concretizasse, certamente não passa de um cínico – o que não significa qualquer proximidade com Diógenes, o filósofo, também conhecido como "o cínico". Diógenes foi um cético e nisto aproximou-se dos sofistas, de gente como Protágoras, sem bem que sofista, hoje, também seja, sintomaticamente, um termo controvertido.

Se a imprensa é visivelmente incompetente em sua maioria (o que não significa na sua totalidade) para tratar de questões internacionais como os atentados a Nova York e Washington e a reação que se segue, pode-se pensar que ao menos dá alguma conta das dificuldades domésticas. E aí uma outra decepção, em torno de uma questão aparentemente tão banal quanto o horário de verão.

Alfabetização científica

Alguns estados do Norte/Nordeste recorreram à Justiça, em vão, para ficarem livres desta burocracia autoritária que se repete a cada ano. A imprensa se limita a informar que a da zero hora de domingo (14/10) começa mais um horário de verão, quando os relógios devem ser adiantados de uma hora.

A derrota dos estados rebeldes na Justiça já é uma prova mais que evidente de que a federação brasileira não passa de uma ficção mal costurada. O consumo de energia e, portanto, sua oferta, é uma das referências clássicas da economia para aferir o grau de desenvolvimento de uma sociedade – ao menos em termos de produção e consumo de bens. Se o Brasil – a nação mais rica do planeta em termos de estoques de água doce, o que significa enormes e diversificadas bacias hidrográficas – não consegue gerar a quantidade de energia de que necessita, é preciso saber por que isto ocorre. O jornalismo econômico, a não ser na exceção, em regra não faz isso. É um jornalismo altamente ideologizado, comprometido, em muitos casos com pequenas causas como a manutenção de um emprego. O saque da poupança, no início do governo Collor, certamente é um bom exemplo do despreparo da grande maioria do jornalismo econômico que disfarça sua omissão social com uma pretensa responsabilidade acima de qualquer suspeita.

O horário de verão, um expediente nascido nos anos 50 do século passado, quando o Brasil era uma nação majoritariamente rural, e o resto do mundo desenvolvido se recuperava da destruição da Segunda Guerra Mundial, não se justifica mais. A não ser no Brasil, onde o presidente da República, depois de apontar diversos culpados, que não ele próprio, disse, ao final que "desconhecia" a crise energética anunciada.

No Brasil, e isto integra o que Joaquim Nabuco chama de "entulhos do escravismo", o impacto de decisões burocráticas sobre a população não pesa nada na balança do poder, historicamente despótica, ainda que recheado de filigranas democráticas. Nas grandes cidades, como São Paulo, milhares e milhares de trabalhadores deixam suas casas em bairros inseguros e mal iluminados para garantir a sobrevivência de cada dia. Com o horário de verão, saem na noite ainda mais escura e caminham mais tempo sob as sombras. Qual o impacto disso tudo no caso, por exemplo, nas mulheres? Ninguém sabe, ninguém investiga, ninguém quer saber.

E quanto, de fato, o horário de verão economiza em consumo de energia? Não é mais produtivo, eficiente, moderno e socialmente útil terminar usinas não concluídas, aproveitar inúmeras quedas d’água para gerar energia local, estimular o uso de geradores eólicos ao longo de um litoral de mais de 6 mil quilômetros, diminuir impostos e estimular a produção de energia solar do que simplesmente forçar a queda no consumo, com expedientes autoritários de sobretaxas (seguidos de aumentos para compensar a queda forçada no consumo, o que não deixa saída para qualquer racionalidade) e horários de verão?

Quantos milhões de crianças e adolescentes, além de trabalhadores e professores, vão ainda sonolentos para suas salas de aula e locais de trabalho para compensar uma incompetência pela qual não são responsáveis? Por que os jornais, em vez de simplesmente registrarem a decisão autoritária do governo central, não vão a campo avaliar o impacto de uma medida tão dispensável quanto improdutiva como o horário de verão? A menos que existam razões mais sólidas para isso, a resposta é que a imprensa não quer desagradar ao poder e, em vez da postura crítica que deveria ter, fica satisfeita, às vezes exultante, em ser uma força coadjuvante. A pergunta a ser feita é que conseqüências pode se esperar deste comportamento.

Um outro assunto da semana, que não pode ficar de fora de uma coluna ocupada com o jornalismo científico, é a premiação do Nobel. Como acontece com o Oscar, também no Nobel, guardadas as proporções entre cinema e ciência, há um certo corre-corre na imprensa. É quase obrigatório conseguir retirar, em contatos telefônicos com os agraciados, ao menos meia dúzia de palavras, às vezes menos do que isso, para se dar conta do recado. Qual o significado desta meia dúzia, ou menos, de palavras publicadas? Praticamente nenhum já que a compreensão da aplicação das descobertas, ou demonstração de descobertas teóricas anteriores, dependem de um processo histórico maior e que pode ser resumido em alfabetização científica.

Os jornais brasileiros não dão o espaço devido para a produção científica em suplementos semanais que existem em todos os jornais dos países desenvolvidos. Na falta deste espaço necessário é pouco produtivo fazer trapezismo em ocasiões especiais, como na época do anúncio da premiação do Nobel. É pura "fabulação", para usar uma palavra cara ao professor Milton Santos. Mas, em essência, é isto: pura fabulação.

(*) Jornalista especializado em divulgação de ciência, é mestre e doutorando em ciências pela Universidade de São Paulo e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC).



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