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OFJOR CIΚNCIA
OfJor Ciência 2000 Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.
SBPC
Os próximos passos
Carlos Vogt
De 9 a 14 de julho realizou-se em Brasília a 52ͺ Reunião Anual da SBPC. Os temas debatidos em conferências, em mesas redondas e workshops refletem os pontos que, em linhas gerais, têm atraído a atenção dos agentes da produção científica e tecnológica no Brasil.
Vários desses temas estão ligados às questões de política científica e tecnológica e da ausência de uma política clara para o setor; outros ligam-se à situação crítica das universidades públicas e à necessidade de sua preservação e expansão qualificadas; outros tantos prendem-se a aspectos substantivos da pesquisa científica nas diferentes áreas do conhecimento, com grande ênfase para os trabalhos em genômica e em biodiversidade, ficando a novidade, enfim, para vários debates dedicados à discussão das relações entre o setor empresarial e o setor acadêmico e o papel dessas relações no processo de desenvolvimento científico, tecnológico e de seus reflexos sociais, econômicos e culturais.
No contexto desses debates chama a atenção também o conjunto de atividades voltadas para o papel da imprensa na mediação entre ciência e sociedade e a importância crescente no Brasil do jornalismo de divulgação científica.
Nesse sentido, como havíamos anunciado no número anterior do Observatório da Imprensa, a revista ComCiência, de jornalismo científico, na sua nova fase, produzida em parceria com a SBPC, com o apoio da Fapesp e do CNPq, foi apresentada ao Conselho Deliberativo da Sociedade e, aprovada, por unanimidade e com entusiasmo, pelos conselheiros.
A revista, que já está no ar, traz como tema principal o Programa Genoma no Brasil. O endereço da ComCiência é <www.comciencia.br>.
Na cerimônia de abertura da reunião, no dia 9 de julho, presente o ministro Ronaldo Sardenberg, da Ciência e Tecnologia, seu discurso focou as mudanças planejadas em sua pasta para o sistema de C&T no país, em especial aquelas que podem decorrer da criação e implantação dos Fundos Setoriais que devem, se efetivamente em funcionamento, multiplicar por várias vezes a capacidade de investimento das agências de fomento nacionais.
O reitor Lauro Morhy, da UnB, hospedeira da Reunião, apresentou um relato instigante da maratona que coordenou pelo país para motivar as diferentes regiões a uma participação mais ativa na SBPC e para recolher as prioridades regionais para uma ação programática integrada da Sociedade.
O discurso da presidente da SBPC, professora Glaci Zancan, cuja íntegra vem a seguir, soube sintetizar, com objetividade, sob a forma de desafios pontuados, as questões maiores que atraem hoje a atenção da comunidade acadêmica, questões para as quais é preciso, urgentemente, orientar as ações integradas da sociedade e dos órgãos governamentais responsáveis pelo setor. Nesse sentido, vale a pena transcrever aqui a relação desses desafios e acompanhar criticamente, no discurso da presidente, a premência do que fazer, com a articulação de como fazê-lo e com a indagação sistemática dos mecanismos e instrumentos para sua efetiva superação.
Discurso de abertura da 52ͺ reunião anual da SBPC
Glaci Zancan
O tema desta reunião anual da SBPC não poderia ser mais apropriado e oportuno: "O Brasil na sociedade do conhecimento, desafios para o século 21".
Falar em século 21 pode dar a impressão de um futuro ainda distante. Mas estamos falando também e principalmente de desafios para ontem.
Ou seja: ainda não entramos no século 21 e o que não faltam são desafios.
Desafio de apoiar um ministro da ciência e tecnologia que vem realizando um grande esforço no sentido de recuperar o tempo perdido, mas que defronta com dificuldades e resistências dentro do próprio governo.
Desafio de convencer o governo a honrar e dar continuidade às suas próprias iniciativas.
Desafio de formular com clareza e implementar com firmeza uma política nacional de ciência e tecnologia nadando contra a corrente. Corrente que adotou a tesoura como principal instrumento de trabalho e, ao mesmo tempo, aponta mais para o marketing que para o CNPq.
Desafio de fazer funcionar para valer o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, especialmente na formulação e execução do orçamento, considerando que as atividades de ciência e tecnologia, permeiam todos dos ministérios.
Desafio de retomar efetivamente o fomento do CNPq, apoiando, por exemplo, a demanda qualificada de projetos que requerem recursos de aproximadamente 200 milhões de reais, quando se têm previstos apenas os 15 milhões anunciados no edital.
Desafio de apoiar os fundos setoriais como fontes adicionais (eu disse ADICIONAIS), para financiamento da ciência e tecnologia, quando esses fundos ainda nem bem começaram a funcionar e estão substituindo recursos do Tesouro, ao contrário do que foi solenemente prometido e combinado.
Desafio de tratar a questão dos transgênicos de forma humanamente, socialmente e ambientalmente responsável, com o máximo de estímulo possível à pesquisa científica nesta área plena de incógnitas, contra a pressa comercial, freqüentemente leviana, inconseqüente, imediatista e por isso mesmo perigos.
Desafio de enfrentar o caos que acaba de ser instaurado pela Medida Provisória 2.052 com a pretensão de regulamentar o acesso a recursos genéticos, quando já existem quatro projetos sobre o mesmo assunto no Congresso, um deles do Executivo e outro aprovado pelo Senado. Sem falar que esse tema vem sendo discutido há cinco anos, tanto no Parlamento como em audiências públicas por vários Estados.
Desafio de impedir o completo desmantelamento das universidades públicas, mantendo e ampliando cada vez mais o trabalho educador e científico dessas instituições, que certamente têm muitos defeitos e deficiências, mas que são, inquestionavelmente, a única garantia que o país tem hoje de um ensino e uma pesquisa de qualidade referencial indispensável.
Sem universidades públicas este país não tem futuro.
Desafio de implementar devidamente a Lei de Diretrizes e Bases da educação, acompanhado de treinamento de todo o corpo de professores de norte a sul deste país.
Desafio de iniciar a superação das desigualdades regionais com a descentralização do desenvolvimento científico-tecnológico, estimulando grupos de pesquisa em regiões que têm recebido menor atenção.
Desafio de transformar essa maravilhosa Maratona Nacional de Debates sobre Educação, Ciência e Tecnologia em realidade permanente, contribuindo a cada passo para a solução das questões essenciais para o progresso brasileiro.
Enfim, o desafio dos desafios: utilizar a ciência e tecnologia para romper o ciclo da miséria e injustiça social, incorporando à cidadania 70 milhões de brasileiros hoje marginalizados (caldo de cultura para enfermidades, mortes e violência descontrolada).
Desafio de vencer a desesperança.
A 52ͺ Reunião da SBPC, pelos temas discutidos, pelos encontros científicos e sobre política científica e tecnológica que abrigou, já no evento começou a responder aos desafios pontuados no discurso de sua presidente dando mostras de que vem se fortalecendo a cada ano e recuperando, nestes novos tempos, pelo caminho do debate da ciência e de seu papel social nos destinos do país, o lugar que, legitimamente, sempre foi seu: o de ser o fórum mais importante para apresentação de idéias, para o contraditório das convicções acadêmicas e para a exposição do conhecimento às tensões de seus contrários.
TRANSGÊNICOS
A polêmica precisa avançar
Bruno Buys (*)
Os últimos dias têm sido pródigos em fatos e notícias sobre transgênicos [este Observatório começou a tratar do assunto em setembro de 1998 veja remissões abaixo]. A tradicional batalha entre EUA com seus transgênicos e Europa e seus naturais (algumas vezes incorretamente chamados de "orgânicos") teve um novo round: estudo (publicado recentemente no Estado de S.Paulo) mostra que não há como impedir a entrada de grãos geneticamente modificados na Europa, desde que esta compre grãos americanos. Uma porcentagem que pode chegar a 5% dos grãos em um lote é de sementes transgênicas. Uma vez plantados eles fazem o que sabem fazer: crescer e se multiplicar.
Mas a polêmica não pára aí. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor recentemente divulgou para as principais entidades mundiais de proteção ao consumidor que o Brasil liberou o uso de milho transgênico para a alimentação de frango. Isso é grave, uma vez que o Brasil é um dos maiores exportadores mundiais de frango. O consumidor deve ter acesso à informação completa sobre o produto que está comprando, ainda mais quando se trata de alimento. E alguma vez você comprou um frango em cuja embalagem constasse a dieta com que foi criado o galináceo?
O problema é que toda esta cobertura jornalística ainda não foi suficiente para fazer avançar a discussão no Brasil. Emperramos na questão do sim ou não, e o que é pior: alimentada mais por declarações emocionais e inflamadas do que por informação técnica e racional.
Danos possíveis
A briga segue. O Correio Popular de quarta feira, 12 de julho, noticia que a empresa Monsanto, unidade Barão Geraldo, Campinas, sofreu vazamento de um microorganismo transgênico. Isso significa que este microorganismo foi liberado em ambiente natural, com conseqüências, até o presente, imprevisíveis (imprevisível também significa que pode não ter conseqüência alguma). A Monsanto perdeu o direito ao Certificado de Qualidade em Biossegurança (CQB), expedido pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CNTBio), sem o qual não pode operar.
Mas qual é, exatamente, o motivo para tanto alarde? Será que os transgênicos representam risco tão profundo? A questão pode ser analisada em etapas: inicialmente parece haver uma noção de que transgênicos representam risco à saúde do consumidor. Não há, quanto a isso, estudo conclusivo, nem mesmo exploratório. Do ponto de vista da fisiologia humana, as proteínas contidas num organismo que é ingerido como alimento passam todas elas pelo mesmo processo de digestão, sem discriminação das que são codificadas por um gene exótico ou não. A digestão não pratica racismos.
Uma outra idéia mais realista é a de que pode haver dano ao ambiente. É uma possibilidade teórica, conhecida de especialistas. Raramente documentada em situações reais. O gene que confere resistência a um herbicida pode, em tese, ser transferido da cultura transgênica para uma erva daninha que cresça na mesma região. Um vírus fitopatogênico pode atuar como vetor. Teríamos então, uma super-erva-daninha.
Questões a esclarecer
A última controvérsia parece ser pessoal e de foro íntimo: o organismo modificado possui, de fato, um gene estranho ao seu pool genético. Isso o torna duvidoso como alimento? Se uma pessoa resolve não comer um certo tipo de feijão porque este feijão tem um gene que não é de feijão não há como censurá-la por isto. Questões de foro íntimo são assim.
Por fim, seria interessante (e não sem tempo) que começássemos a discutir o assunto em outros dois contextos. Primeiro e mais importante: a transgenia pode ajudar a reduzir a fome e a carência social no Brasil. Se isto é verdade, vale a pena rejeitarmos esta tecnologia em nome de uma segurança contra o que ainda não ameaçou ninguém? Segundo: a polêmica do sim ou não que ora domina o assunto no Brasil poderia dar lugar à polêmica do como fazer, que ainda não começou. É possível produzir transgênicos mais resistentes a herbicidas. Mas também é possível produzir transgênicos com maiores teores de certos nutrientes, de acordo com a demanda. A insulina humana, tão necessária ao tratamento do diabetes, é purificada a partir de plantações em que a espécie vegetal teve o gene da insulina adicionado ao seu genoma. Repare: o gene da insulina é um gene humano, e foi inserido em espécies vegetais para produção de insulina. É possível produzir vários outros insumos nutritivos e fármacos da mesma maneira, através da transgenia. Estas aplicações são indiscutivelmente necessárias no Brasil atual.
A última questão, que foge ao âmbito técnico do assunto, é a da política envolvida na transferência de tecnologia. Como o Brasil entra nesta era? A Monsanto será a única fornecedora? A Embrapa terá condição de pesquisar competitivamente em transgênicos? Apesar deste ambiente privatizante da era FHC, onde escasseiam recursos públicos para pesquisa científica? Ficam no ar algumas perguntas que o jornalismo científico brasileiro pode ajudar a esclarecer. Seria uma grande ajuda ao entendimento público e ao avanço desta controvérsia, que estacionou no sim ou não.
(*) Biólogo; e-mail: bbuys@unicamp.br
SUPERCONDUTORES
Muito além dos trens levitáveis
Roberto Belisário (*)
Já estão no mercado os primeiros frutos tecnológicos da revolucionária descoberta dos supercondutores de alta temperatura (ou HTC), ocorrida há 13 anos. Em 1987 havia sido obtido o primeiro material cerâmico que alcança a supercondutividade em temperaturas altas o suficiente (cerca de -190°C) para aumentar drasticamente a viabilidade econômica de suas aplicações [ver abaixo retranca explicativa "Resistência zero"]. Desde então, a divulgação tem focalizado quase toda a atenção nos espetaculares trens levitáveis, uma das aplicações mais importantes da nova área.
Nesse meio-tempo, diminutos artefatos eletrônicos com supercondutores HTC (os "SQUIDs") evoluíram mais rapidamente, e já conquistaram seu lugar no comércio. Um de seus usos mais próximos do leitor é a telefonia móvel. Essa evolução passou ao largo de boa parte da divulgação não-especializada, e o leitor pouco acesso teve a ela. Neste artigo, pretende-se chamar a atenção para esta falha.
A mídia teve uma oportunidade para reparar a falha com a notícia de uma conferência internacional sobre o assunto no Rio de Janeiro, entre 11 e 15 de junho. O evento, International Cryogenic Materials Conference (Conferência Internacional sobre Materiais Criogênicos, ou ICMC2000), teve como tema "supercondutores para aplicações, propriedades de materiais e dispositivos". Mais informações no site do evento, <www..icmc2000.org.br>. Entretanto, os trens levitáveis monopolizaram novamente a atenção.
O físico Oscar Ferreira de Lima, professor do Instituto de Física da Unicamp e um dos editores dos Anais da conferência do Rio, deu entrevista ao Observatório da Imprensa sobre o evento. O professor Lima é chefe do Departamento de Física da Matéria Condensada do Instituto de Física Gleb Wataghin, da Unicamp, e um dos nomes mais conhecidos no Brasil na área da supercondutividade. Já trabalhou em parceria com indústrias em projetos de aplicações de supercondutores e sua atividade atual é a pesquisa básica. Porém, está disponível para assessorar empresas que queiram desenvolver projetos conjuntos com a universidade e faz questão de ressaltar que é "desejoso de dar todo o suporte que for solicitado, pedido por qualquer pessoa de fora da universidade, da maneira mais disponível, humilde e paciente."
À margem da notícia
Lima conta que na conferência foi evidenciado "um claro avanço na qualidade dos materiais supercondutores, na finalidade das aplicações, principalmente na forma de fios, e mais ainda na forma das pastilhas". Para ele, a "grande novidade" apresentada no evento foi a possibilidade de se imantar supercondutores e transformá-los em ímãs permanentes. Até então, usava-se eletroímãs para conseguir campos magnéticos com supercondutores. Os ímãs permanentes supercondutores são potencialmente mais interessantes, porque são bem mais compactos e não precisam estar ligados a uma fonte de corrente elétrica como os eletroímãs.
Segundo Lima, "a área chamada eletrônica supercondutora é a que talvez esteja mais próxima da comercialização. Na verdade, já existem alguns itens em catálogo disponíveis". Entre esses itens ele cita os SQUIDs, sensores de campos magnéticos de altíssima precisão, e já bastante usados em laboratórios. Menciona também a possibilidade de se utilizar SQUIDs comercialmente em sensores de campos magnéticos usados em prospecção de campo (detecção de minerais, lençóis petrolíferos ou mesmo de água). Próximos de aparecer em lojas também estão filtros para telefonia móvel, que poderiam reduzir bastante os ruídos e as interferências, e até mesmo melhorar o desempenho das conexões com a internet.
A transmissão de eletricidade por longas distâncias também costuma ser citada como aplicação dos supercondutores HTC. Porém, segundo Lima, isso parece estar longe da comercialização. Citando um trabalho de Paul Grant, ele prevê que, seguindo a tendência atual, só "por volta do ano 2030 o custo vai cair abaixo da faixa de 10 dólares por quiloampère por metro de fio, que é o que os industriais consideram factível comercialmente." Para ilustrar a dificuldade, Lima conta que, na conferência do Rio, "o grupo do professor Freyhardt (da Universidade de Göttingen, Alemanha), ligado à Siemens, mostrou resultados que considera extremamente bons, conseguindo taxa de alguns milímetros por dia" na produção de fitas supercondutoras. "Aí se vê a distância para se ter um mercado que necessita de quilômetros de fitas supercondutoras."
Divulgação monotemática
Apesar de todas essas aplicações, a divulgação na mídia tem se centrado quase sempre nos trens levitáveis. Por exemplo, todos os artigos sobre supercondutividade da revista Superinteressante até 1997 tinham esses artefatos como tema principal (cf. CD-ROM da Superinteressante). Há que se notar, porém, exceções como algumas reportagens da Folha de S. Paulo (exemplos: 22/5/94, pág. 6-16; 7/12/97, caderno Mais!, pág. 16) e do Estado de S. Paulo (exemplo: 19/10/97). Grande parte da cobertura jornalística do evento no Rio ou quase toda teve esse viés (cf., por exemplo, O Estado de S. Paulo, 10/6/00).
Isso se deve em parte ao fato de que é muito mais fácil fazer uma demonstração vistosa com levitação magnética do que com os pequeninos SQUIDs. Assim, por exemplo, durante a conferência, em frente ao Posto 6 da Praia de Copacabana, pessoas esperavam em fila para subir sobre uma plataforma girante que levitava vários centímetros acima do chão, sustentada pela repulsão magnética entre imãs permanentes (comerciais) e pastilhas supercondutoras, refrigeradas com nitrogênio líquido a 196ΊC. Perto dali, um protótipo de trem levitável flutuava sobre um trilho de cerca de cinco metros de comprimento. A própria conferência foi conhecida popularmente como "Levita Rio".
Além disso, no Brasil está sendo desenvolvido um protótipo de trem levitável por um grupo liderado pelo físico Roberto Nicolsky (ver coordenada Resistência zero), o que catalisa (justificadamente) a atenção da imprensa.
Tudo isso explica só parcialmente a falta de menção a outras aplicações já comercializadas (e não a justifica), inclusive porque nem todos os fenômenos de levitação referem-se aos tais trens. Uma distorção freqüente na divulgação não-especializada, apontada pelo professor Lima, é justamente a associação dos trens levitáveis à conhecida imagem de ímãs levitando sobre pastilhas supercondutoras (o chamado "efeito Meissner"). O efeito Meissner corresponde a uma "rejeição" do campo magnético aplicado no supercondutor o campo que nele penetra é muito menor que o campo aplicado; para certos materiais, a penetração sequer existe. Isso resulta em uma força repulsiva entre o supercondutor e qualquer ímã próximo.
O princípio de funcionamento dos trens levitáveis, diferentemente, vem do movimento do trem sobre os trilhos (ver Resistência zero). Segundo palestra do professor Lima dada no dia 1Ί/6 no Auditório do Instituto de Física da Unicamp, esse efeito pode ser verificado passando-se rapidamente um imã forte próximo a uma chapa de alumínio. Sente-se uma força repulsiva, que é análoga à força que levita o trem supercondutor.
Confusões da imprensa
Os novos supercondutores imantáveis poderiam, em princípio, transformar esse engano em realidade, pois campos muito intensos poderiam produzir forças repulsivas em teoria suficientes para levitar os trens, mesmo estando parados. Porém, as pesquisas e a necessidade de viabilidade econômica parecem apontar para a outra direção, da levitação em movimento. "Eu, particularmente, sou muito cético com relação a essa linha", diz Lima. "O melhor caminho talvez seja o outro, do efeito dinâmico."
Lima aponta outras distorções presentes na divulgação: "A imprensa às vezes faz a confusão de que os supercondutores substituirão tudo o que usa eletricidade, que as fiações serão substituídas por supercondutores." Exemplifica: "Eu me lembro de ter lido um artigo numa revista passando a idéia de que, com o advento dessas novas pastilhas supercondutoras, estaria resolvido o problema do transporte de energia sem perda de potência. Lembro-me de que achei muito engraçado citarem como exemplo os motores de liqüidificadores, enceradeiras, eletrodomésticos em geral o que é um exagero, primeiro porque esses eletrodomésticos consomem muito pouco, e depois porque não dá para se imaginar um reservatoriozinho onde se colocaria o nitrogênio líquido do lado de um liquidificador ou de qualquer outro eletrodoméstico."
Tais abordagens podem ser encontradas, por exemplo, em artigos da revista Superinteressante da época da euforia pós-1987 (exemplo: "Fio Maravilha", Superinteressante nΊ 1, ano 1, outubro de 1987).
"Outra coisa que eu acho cômica", continua Lima, "é pensarem que todas as aplicações da eletricidade seriam beneficiadas com a ausência de resistência elétrica. Eu brinco dizendo que eu vou continuar querendo que o meu chuveiro e o meu ferro de passar roupa sejam feitos com fios resistivos." O que faz chuveiros e ferros de passar serem aquecidos é justamente a resistência elétrica, que não existe em supercondutores.
Recentes menções a uma ligação entre a levitação por supercondutores e efeitos gravitacionais também são descartadas pelo professor. Quando interpelado sobre o assunto, explicou, por e-mail: "A levitação magnética consiste apenas de uma força magnética se contrapondo à força da gravidade, levando a uma situação de equilíbrio mecânico. Não há nada estabelecido na área de supercondutividade sobre a interferência deste fenômeno na interação gravitacional."
Resistência zero
R. B.
A supercondutividade é um estado físico da matéria caracterizado principalmente pela ausência de resistência elétrica. É obtido resfriando-se certos materiais abaixo de uma temperatura chamada "temperatura crítica", que depende do material.
Teoricamente, o uso de supercondutores no lugar dos fios de cobre usuais levaria a uma grande economia de energia, pois, sem a resistência elétrica, o aquecimento em aparelhos e outras aplicações seria drasticamente reduzido. Porém, até 1987 só se conhecia materiais que se tornam supercondutores em temperaturas menores do que 243°C. Para mantê-los nessas temperaturas, é necessário refrigerá-los com hélio líquido, um material proibitivamente caro.
Desenvolvimentos experimentais em 1986 e 1987 levaram à obtenção de um material cerâmico que se torna supercondutor a 183ΊC. Nesta temperatura, pode-se manter o material resfriado com nitrogênio líquido, que é baratíssimo. A viabilidade econômica da aplicação industrial dos supercondutores tornou-se subitamente uma possibilidade concreta. Seguiu-se uma grande euforia entre os cientistas e na divulgação não-especializada, e a descoberta de várias outras cerâmicas supercondutoras.
Uma das aplicações mais alardeadas dos novos materiais (chamados "supercondutores de alta temperatura, ou HTC") é o trem levitável. O princípio de funcionamento desses trens envolve um efeito eletromagnético conhecido há muito tempo. Quando um ímã é movimentado próximo a um material condutor, o campo magnético induz correntes elétricas; estas, por sua vez, geram campos magnéticos opostos ao campo original do ímã. Os dois campos interagem e o resultado é uma repulsão entre o ímã e o condutor. Com supercondutores, esse efeito é muito mais pronunciado o suficiente para se pensar em trens levitáveis, que correriam flutuando a centímetros do solo, sem encostar nos trilhos. A força de atrito seria assim tremendamente reduzida, e seriam possíveis velocidades muito maiores.
Já existem protótipos de trens levitáveis funcionando no Japão (o Maglev). O grupo liderado pelo físico Roberto Nicolsky, da UFRJ, está trabalhando na construção de um modelo brasileiro (o TLM Trem Levitável Magnético). Segundo depoimento do ministro da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardenberg, ao jornal O Estado de S. Paulo (10/6/00), em 10 anos o país já deverá ter desenvolvido a tecnologia necessária.
Outras aplicações menos divulgadas já entraram no circuito comercial (ver texto principal).
Ainda não se tem uma teoria conclusiva sobre o comportamento dos supercondutores HTC. Uma teoria de sucesso pode resultar no quinto prêmio Nobel dedicado à área da supercondutividade.
O leitor que quiser se aprofundar sobre a supercondutividade e suas aplicações pode consultar o ótimo site Superconductors <http://superconductors.org> (em inglês), de autoria de Joe Eck. Um bom texto em português está em Ciência Hoje nΊ 122, pág. 6 (1996), de autoria de Mauro M. Doria.
(*) Físico; e-mail: rbdiniz@terra.com.br
BIOTECNOLOGIA
A ciência de ponta e o
caráter de seus benefícios
Telma Domingues da Silva (*)
Ultimamente, ao que parece, a imprensa brasileira tem olhado um pouco mais para a ciência produzida nas instituições do país. Isto, é claro, no que diz respeito a determinadas áreas que se mostram como áreas de interesse. Que áreas? Que interesses?
No Brasil, acostumados que estamos a nos reconhecer sempre no atraso científico e tecnológico, surpreende hoje o reconhecimento internacional de um trabalho científico desenvolvido no país, por pesquisadores brasileiros. Falo do seqüenciamento do genoma da Xyllela fastidiosa. Publicado na revista científica de maior divulgação, a Nature, a pesquisa tem repercutido grandemente na imprensa brasileira, tornando-se com isso um símbolo da introdução do Brasil na ciência de ponta [veja "Projeto Genoma a ciência de ponta no Brasil", revista Com Ciência <www.epub.br/comciencia>].
Assim, o seqüenciamento completo do genoma da Xylella fastidiosa significa o Brasil na produção da Ciência, e produz notícia. Para o público brasileiro, o tema da biotecnologia, já por si um tema de destaque hoje internacionalmente, assume importância também porque nele o Brasil está representado pela ciência desenvolvida aqui no país.
O poder do mercado
Mas, além da divulgação do feito científico, acredito que a imprensa possa também contribuir para um questionamento sobre os rumos da produção científica e tecnológica na sociedade. Dentro disso, o caso da biotecnologia, hoje a grande representante da chamada ciência de ponta, e o seqüenciamento da Xyllela fastidiosa, como feito científico nacional de destaque internacional, possam se constituir em uma motivação.
Muitos resultados de pesquisa circulam em esferas mais circunscritas de interesses científicos. O que faz com que sejam divulgados mais amplamente é ou sua aplicação ou um apelo sensacionalista. Este é justamente o caso do seqüenciamento do genoma humano, dadas as suas implicações éticas, religiosas: todo ser vivo é sagrado, mas principalmente o ser humano... Por outro lado, não se trata de reconhecer na repercussão do seqüenciamento de um genoma um sensacionalismo por parte da imprensa.
Na medida em que se verifica um controle crescente das atividades industriais por empresas transnacionais, o processo de globalização gera um mercado altamente competitivo em determinados setores, que se mostram mais lucrativos. E é assim que o seqüenciamento do genoma de uma planta economicamente importante no Brasil e em outros países aponta na realidade para um inegável sentido prático, útil. A biotecnologia essa informática da vida parece render na imprensa pelo que poderá render em um futuro próximo ou distante: a produção de remédios, de defensivos agrícolas, de sementes e de uma infinidade ainda impensável de produtos...
Justamente, numa economia de mercado os resultados da Ciência adquirem rapidamente essa perspectiva mercadológica, muito embora a realização do lucro possivelmente ainda seja distante. E isso é às vezes "tão lógico", ou seja, que é o mercado que incentiva a pesquisa científica, que nem precisa ser considerado. Do meu ponto de vista, é importante um questionamento da tecnologia que está sendo desenvolvida, em seu poder de definição pelo mercado, sobretudo no momento atual de transnacionalização da economia.
Ética humanitária
O que significa a publicação das pesquisas? E a disponibilização de dados que elas remetem? Que dados são produzidos, por quais instituições (públicas/ privadas)? Quais instituições disponibilizarão os dados e que instituições vão capitalizá-los? Talvez possamos resumir perguntando, em um questionamento que deve ser feito diante de qualquer empreendimento científico e tecnológico, de maneira geral, sobre quem está investindo na pesquisa, quem vai poder desenvolver a tecnologia e o que e quem vai ganhar com esse produto científico e tecnológico.
Ao mexer diretamente com o que hoje significa a origem da vida, o DNA, a biotecnologia mexe com o imaginário do poder do homem sobre a sua produção. Nesse instante, a produção do homem é identificada à produção da vida como algo divino.
Diz Andrew Simpson, coordenador do Projeto Genoma do Câncer, que "não saberemos tudo sobre o ser humano", mas "saberemos o que é tudo, onde estão os limites do universo de complexidade e variabilidade humana" (Biologia agora passa a ser ciência exata, Folha de S. Paulo, 27 de junho). Que discussões vão envolver a produção dessa tecnologia nova, que parece não ter limites em relação ao que pode produzir de remédios e evitar de doenças? Simpson acredita que a imortalidade será possível. (Veja entrevista na revista Com Ciência, citada acima. )
Discute-se sobre seus limites, ou seja, discute-se a necessidade de definições legais, que regulem a nova ciência, em um momento em que não se tem ainda muita clareza quanto às práticas e produtos que serão introduzidos. Nesse momento, em geral são superestimados para o mal ou para o bem os efeitos das descobertas científicas e da tecnologia por elas gerada. Para além desse imaginário sobre o poder da nova tecnologia são efetivamente transformadas as relações sociais, sobretudo as relações de trabalho. Essas discussões podem se configurar em uma ética humanitária, como um questionamento sobre as formas de intervenção do Homem na Natureza. Ou podem se configurar em uma ética social.
Em busca de respostas
Não sabemos se o homem vai ou não ser imortal, em um futuro, seja ele distante ou próximo. Mas a biotecnologia vem acenar para a possibilidade de uma nova constituição de patrimônio, pela informação genética. É isto está sendo hoje produzido socialmente. A codificação do DNA dos organismos vivos produz bancos de dados, sobre os quais políticas estão já incidindo, internacionalmente, definindo os contornos dessa nova tecnologia em seus benefícios sociais. E, em relação a isso, eu sinto um total despreparo da imprensa, e/ou um desinteresse mesmo, para o desenvolvimento de uma discussão que possa ser socialmente mais determinante.
Que instrumentos legais os diferentes países estão produzindo, entre a garantia de uma ética social em relação aos resultados científicos e a garantia de pagamento dos royalties? Parece que a transnacionalização do mercado requer uma avaliação mais ampla do funcionamento nacional do instrumento legal. Não basta dizer, sobre o Brasil, se ele deve ou não deve acompanhar a legislação dos países desenvolvidos. Não basta dizer, sobre as patentes, se devemos ou não possibilitar o patenteamento do gene. Algo que me parece mais definidor aqui é a concessão ou não da chamada patente ampla sobre o gene, ou seja, uma patente que assegure direitos sobre o DNA seqüenciado, sem exigir a especificação das propriedades da seqüência (de)codificada.
De qualquer forma, parece que a desinformação geral sobre a questão e a morosidade da legislação em relação aos direitos (concessões e interdições) à codificação e ao acesso às informações genéticas funciona de mãos dadas com a rapidez do investimento das empresas de biotecnologia. Creio que a grande imprensa teria um papel importante nessa discussão. Para tal, não pode continuar a ignorar publicações como as da SBPC (Ciência Hoje, Jornal da Ciência) e da Fapesp (Pesquisa Fapesp), como referências, voltando-se apenas para as revistas internacionais.
A natureza que interessa
Outra consideração importante a ser feita é que, com o destaque da biotecnologia, está sendo dado um determinado rumo à produção científica e tecnológica, determinado por uma política de mercado, uma política transnacional, dado o processo de globalização. Ou seja, a partir desse momento, em termos de pesquisa científica, tudo que possa canalizar para esse fim (a biotecnologia) vai interessar à "Ciência", na medida em que a aplicação social está sendo anunciada como possibilidade, inclusive, de lucro.
Eu não acredito em ciência desinteressada. Em entrevista ao Observatório da Imprensa (ver nesta edição a matéria Além dos trens levitáveis), o professor Oscar Ferreira de Lima, físico, menciona, com relação a sua área, um maior interesse pelas pesquisas com os chamados semicondutores do que as pesquisas com os supercondutores, também por uma questão de mercado, pelo grande investimento que o setor das telecomunicações representa.
Esta é realmente a era da informação, da comunicação. Instrumentalizamo-nos para uma comunicação fácil com todos, com qualquer um, via internet, para um acesso fácil às informações, imaginadas todas disponíveis na rede. Instrumentalizamo-nos também, através dessa mesma tecnologia, a informática, para uma abordagem objetiva da natureza. Com a possibilidade da "leitura" do DNA, compreendido como a origem da vida, a natureza que interessa hoje à ciência é essa imagem gráfica na tela, que representa o ideal de uma determinada estabilidade para o acaso da vida (da sociedade, isto sim!), em sua diversidade.
(*) Lingüista, professora de Metodologia Científica na Faculdade Senac de Turismo e Hotelaria de Águas de São Pedro
RECURSOS HÍDRICOS
Falta água e gerenciamento
Anna Paula Sotero (*)
Desde o advento do capitalismo e da era industrial, a humanidade tem se valido dos recursos da Terra e quase nunca buscando manter um equilíbrio na fauna e na flora. Hoje estamos sendo cobrados por esses longos e longos anos de agressões. De norte a sul são evidentes, por exemplo, os problemas com abastecimento de água.
Imagens de reservatórios em São Paulo mostram que a seca nas áreas urbanas é uma ameaça muito mais do que concreta. Além dos reservatórios, também o nível de diversos rios em todo o país já não é suficiente para servir aos sistemas de abastecimento. O desmatamento nas proximidades de rios e nascentes vem colaborar para este cenário. Na agricultura vemos o solo excessivamente seco impossibilitando o plantio.
Para agravar ainda mais a situação criada por nós, estamos vivendo um período de escassez de chuvas. É evidente que isso também é conseqüência de todo desequilíbrio ecológico criado por nós. A falta de chuvas e a carência hídrica do solo levarão produtores rurais a grandes prejuízos na safra do ano 2001. Essa projeção, para o interior de São Paulo, incide sobre as culturas chamadas perenes, como da laranja, do café e da cana-de-açúcar lavouras responsáveis por grande parte da economia rural da região. Segundo o Sindicato Rural de Rio Claro, em declaração ao Correio Popular (em 26/6/2000), a safra atual de cana-de-açúcar já está reduzida em cerca de 30% devido aos reflexos imediatos da seca.
Falta esforço
A solução para um futuro mais promissor seria transferir o foco de atenção do suprimento para a maneira como a água é utilizada. O problema é sério e requer mudanças profundas. O desperdício de água começa dentro de casa: torneiras abertas enquanto escovamos os dentes ou ensaboamos as mãos, válvulas de descarga desreguladas. Temos uma cultura de desperdício, e o fato de possuirmos as maiores reservas hídricas do mundo não pode justificar isso. O gerenciamento de água e o estabelecimento de uma cultura voltada para a educação ambiental tornou-se vital.
Em 1977, a água entrou na pauta de discussões internacionais e originou grupos como o Conselho Mundial da Água, efetivado em 1996, em Marselha, França. O Conselho conta com profissionais da área de Recursos Hídricos de todo o planeta e tem o intuito de discutir e estabelecer metas para o desenvolvimento e o gerenciamento dos recursos hídricos no mundo.
Na semana de 26 a 28 de junho de 2000, no Ceará, o Encontro Nacional de Comitês de Bacias Hidrográficas possibilitou a discussão das questões hídricas de forma prática, promovendo debates no sentido de uma melhor gestão das águas no Brasil. Entre os temas abordados estavam o combate ao desperdício, a educação ambiental, os planos de bacias, a formação de Comitês e as tarifas de água. A função dos Comitês de Bacias é deliberar sobre as questões hídricas, influenciando nas ações dos gestores das políticas públicas.
Ao que parece, as soluções existem. Basta um esforço conjunto para implementá-las.
Água ou luz?
No mês de junho um pool de jornais do Nordeste lançou o primeiro número do chamado Cadernos do Nordeste <www2.uol.com.br/jc/cadernosdonordeste>, a serem distribuídos regularmente nos estados de Pernambuco, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Alagoas. Como tema desta iniciativa pioneira foi escolhido a água.
Um dos assuntos tratados no caderno é a transposição das águas do Rio São Francisco para as bacias dos rios intermitentes do Semi-Árido Setentorial. Os defensores da transposição se propõem a captar as águas do rio somente no período de chuvas, que coincide com a seca no Nordeste. Segundo o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, em declaração a Cadernos do Nordeste (junho/2000), a transposição é voltada para usos múltiplos das águas do São Francisco, e beneficiará 8 milhões de pessoas em 268 cidades. Para ele, a transposição não vai acabar com a seca mas, em 25 anos, o governo terá um retorno de R$ 11 bilhões, considerando os benefícios diretos e a redução de gastos com as frentes de emergência nos períodos de estiagem. O projeto básico de engenharia sobre a transposição deverá estar concluído até o fim de julho.
A transposição das águas do São Francisco é um assunto polêmico, e a matéria dos Cadernos do Nordeste deixa em aberto questões como o orçamento das águas como determinar o volume de água a ser utilizado pela população e a época de retirada desse volume do rio sem um prognóstico sobre a transposição?
Vale lembrar que a exploração do potencial de geração do São Francisco pela Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf), com mais de 10 mil MW de energia, está no limite. A questão é matematicamente simples. Segundo dados levantados pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) www.fundaj.gov.br>, entidade vinculada ao Ministério da Educação e Cultura, o São Francisco já está com suas águas comprometidas na geração de energia e na irrigação. Do volume de água utilizado pela Chesf na geração de energia restam 700 m3/seg de vazão para o rio. O potencial de áreas irrigáveis do São Francisco é de 3.000.000 ha, sendo necessário disponibilizar 1.500m3 para essa irrigação. Com a vazão restante de 700 m3/seg só seria possível irrigar 1.400.000 ha. Fato é que o Rio São Francisco não tem água para gerar energia, irrigar e abastecer as cidades nordestinas como se está pretendendo. Um impasse: teremos que escolher entre água e luz.
O Grupo Especial de Proteção dos Recursos Hídricos criou, em junho deste ano, uma comissão para desenvolver ações integradas de preservação e estudo da Bacia do São Francisco. Existem algumas medidas básicas anteriores a questão da transposição que são: a recuperação das águas com o reflorestamento das matas ciliares destruídas e a construção de estações de tratamento de esgoto para impedir a poluição das águas do São Francisco.
Os Cadernos do Nordeste deveriam ser distribuídos por todo o Brasil. A transposição das águas do Rio São Francisco não é uma verdade e uma suposta solução apenas para o Nordeste, mas para todo o Brasil, e deveria ser analisada por todos com todos os fatos e implicações expostos.
(*) Física
ASPAS
Barulho em torno do câncer (*)
Arthur Allen
(*) Copyright Salon <www.salon.com>, 14/7/00
Teriam o New York Times e o Washington Post publicado matérias sobre o mesmo artigo do New England Journal of Medicine? A reportagem publicada no Journal no dia 13 de julho revelou que: a) genes são mais importante do que se imagina na causa do câncer; ou b) genes são menos importantes do que se imagina na causa do câncer? Resposta correta: c) mais importante se você ler o New York Times, menos importante se você ler o Washington Post.
De acordo com o lide do Post, "a grande maioria dos cânceres não é causada por defeitos inerentes aos genes das pessoas, como muitos crêem nesta era da genética, mas por fatores ambientais e comportamentais". O Times cobriu o estudo a partir de material da Associated Press e afirma que "genes podem causar mais de 1/4 dos três principais tipos de câncer, mais que o previsto anteriormente, diz um grupo de pesquisadores."
A razão para a confusão é simples. O artigo do Journal, baseado em vasto estudo sobre gêmeos, afirmou, essencialmente, o que já se sabe: genes e ambiente têm suas funções no câncer, assim como em qualquer outra manifestação humana.
Baseado no incrível número de gêmeos analisados 44.788 pares escandinavos , o artigo não apresenta revelações mais surpreendentes. Mais que tudo, atenta para o fato de que estudos com gêmeos devem ser melhor aproveitados.
Apesar de terem examinado um total de 10.803 pessoas com câncer, só houve dados estatisticamente relevantes em quatro tipos da doença: câncer de mama, pulmão, próstata e colorretal. Ainda assim, os autores reconheceram margem de erro superior a 50%. O estudo também omite dados de tipos específicos de exposições ambientais que podem ter contribuido para os cânceres.
"O estudo tem muitos dados sólidos, mas suas fraquezas ilustram as dificuldades de usar dados de gêmeos em estudos do câncer", escreveu Robert Hoover, diretor de epidemiologia e bioestatística do Intituto Nacional do Câncer (NCI). "Delinear o ambiente específico e os componentes genéticos que aumentam riscos de câncer é como depender da geração nova e emergente de estudos epidemiológicos sobre moléculas grandes, em lugar de estudar gêmeos."
A idéia básica de estudos com gêmeos é obter dados a partir de numerosos pares de gêmeos idênticos e fraternos (bivitelinos) e comparar as semelhanças dos dois sujeitos em manifestações como câncer, asma, esquizofrenia e fenótipo canhoto.
Gêmeos idênticos apresentam os mesmos genes, enquanto os fraternos são diferentes geneticamente, compartilhando semelhanças, em média, de 50% do DNA. Estudos com gêmeos que tentaram atribuir o componente genético a manifestações como inteligência e agressão têm sido uma "batata quente" política, por razões óbvias. Mas cientistas que conduzem essas pesquisas são unânimes em afirmar que genes e ambiente influenciam simutaneamente o comportamento.
Os autores do artigo do Journal, liderados por Paul Lichtenstein, do instituto Karolinska, em Estocolmo, estimaram que 42% do risco de câncer de próstata provêm de fatores hereditários, da mesma forma que 35% do risco de câncer colorretal e 27% do risco de câncer de mama vêm dos genes. Esses números mostram que o irmão gêmeo idêntico de alguém com câncer colorretal, de próstata ou de mama, apresentam 13%, 11% e 18% de chance, respectivamente, de pegar a mesma doença; o que significa que genes são significantes para as doenças, mas não determinantes.
Isso revela que o lide do Post está próximo da verdade. "O fatalismo do público geral sobre a inevitabilidade de efeitos genéticos deveria ser facilmente dissipado com esses dados", escreveram os autores. Não precisamos, no entanto, de um estudo com gêmeos para que isso se revele. Diversos estudos de câncer mostraram um significativo componente genético.
Mesmo não podendo provar que genes estão envolvidos com várias doenças, gêmeos idênticos ainda podem contribuir para a ciência por meio de estudo de suas diferenças. Por exemplo, um par de gêmeos idênticos em que um deles adquire câncer de mama e o outro não, oferece a pesquisadores a chance de descobrir elementos ambientais que contribuem para o câncer, examinando diferentes exposições ao meio externo de ambos.
"Assim, observa-se genes e ambiente como fatores mais importantes no desenvolvimento das experiências de vida de cada um", afirma Nancy L. Segal, psicóloga do Fullerton, sediado na Califórnia. "Mas creio que, no futuro, veremos mais estudo controversos sobre gêmeos. [tradução de Beatriz Singer]"
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