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OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.


ASPAS

RELATÓRIO DA ONU
Carlos Vogt

"Tecnologia, ou como transformar conhecimento em riqueza", copyright Jornal do Brasil, 11/7/01

"A recente classificação do Brasil em 43º lugar, entre 70 países elencados pela ONU em seu Relatório 2001 sobre os indicadores de qualidade de vida, desta vez medida pelas conquistas tecnológicas desses países, faz pensar no que é que nos falta para gozarmos de uma posição um pouco menos crítica no cenário do desenvolvimento contemporâneo.

A resposta mais simples, e também mais simplista, seria dizer que falta tudo, quando se trata de políticas sociais efetivas e eficazes. Sabemos, contudo, que não é bem assim e que, nos últimos anos, os indicadores de qualidade de vida da população vêm mostrando progressos na saúde, na educação, nas condições de miserabilidade, por exemplo.

Mas são eles suficientes como sinais de uma constante nas tendências das modificações por que passa a sociedade brasileira? E se sim, deixam-se ver com clareza, em meio à enorme quantidade de problemas a enfrentar, entre eles, dramaticamente, os do violência e os da segurança pessoal?

O fato é que a sociedade brasileira vem se empenhando numa militância de cidadania, talvez nunca antes conhecida na história do país, ao mesmo tempo em que vem enfrentando desafios, também antes desconhecidos, postos agora pela mundialização da economia e pelas conseqüências sociais do alto e rápido desenvolvimento das tecnologias que, produzindo novas formas de riqueza, geram também desemprego e forte exclusão social.

No caso das tecnologias, a forma mais grave de exclusão que se produz no mundo contemporâneo é a que decorre de sua ignorância pelos países emergentes ou, como se dizia até há pouco, em desenvolvimento.

Aqui o desafio é gigantesco e a tarefa de preparar a sociedade para enfrentá-lo, titânica.

A pergunta a que temos de responder com a urgência e determinação é: Como transformar o conhecimento em riqueza, isto é, em valor econômico e social?

O pressuposto dessa pergunta é que o país produz conhecimento; o que ela subentende é que não temos conseguido transformar esse conhecimento em riqueza.

Tanto o pressuposto como o subentendido são verdadeiros.

De fato, o Brasil, nos últimos anos, subiu sua participação na produção do conhecimento científico mundial de 0,6% para 1%, considerando-se aí apenas as suas publicações indexadas, com uma curva ascendente a partir dos anos 80, o que nos põe, por exemplo, em relativo estado de igualdade com a Coréia do Sul.

Mas se a produção científica cresce e fixa uma tendência positiva, o mesmo não ocorre com a produção tecnológica. E sem o domínio das tecnologias não há como transformar conhecimento em riqueza.

Sabe-se, porque já repetido à exaustão, que os atores indispensáveis ao sucesso de um sistema de geração e apropriação econômica e social do conhecimento são as empresas, as universidades e o governo.

Penso que, no Brasil, os governos, uns mais, outros menos, têm procurado formular e estabelecer políticas de Ciência e Tecnologia (C&T) com destaque no cenário dos países latino-americanos. O mesmo ocorre com as universidades na sua missão de formar recursos humanos e de produzir conhecimento. Não vai aqui, num caso e noutro, nenhuma crença ingênua de que não haja muito mais a fazer e muito mais a plantar. Claro que sim, mas isso, em nenhuma hipótese desmerece ou desqualifica o que está feito e o que vem se fazendo, por exemplo no sistema nacional de pós-graduação, na diversificação das fontes de fomento à pesquisa, nos grandes programas induzidos pelas agências, como é o caso do Genoma e de suas profundas implicações para a ciência brasileira.

Sabe-se também que, em todo o mundo, quem produz tecnologia são as empresas e que as tecnologias vivem e se desenvolvem em constante desafio com os mercados.

Quando no Brasil se considera mais ou menos o mesmo período de tempo acima referido para a produção científica, vê-se que para a Pesquisa e o Desenvolvimento (P&D) nas empresas a curva de crescimento é muito pouco significativa, se comparada com o que ocorreu com a Coréia do Sul a partir dos anos 80, país em que o crescimento da produção científica, nas universidades, foi acompanhado de um grande desenvolvimento tecnológico, nas empresas.

Esse é o grande desafio para o Brasil: criar uma cultura empresarial em que o risco faça parte dos investimentos e em que os investimentos de risco constituam, como nos países ricos, fontes efetivas de financiamento da pesquisa tecnológica nas empresas.

Às universidades cabe aprimorar cada vez mais a sua capacidade de produção e de socialização, através do ensino, do conhecimento. Aos governos cabe levar adiante, com pragmatismo ético e social, a inteligência e a eficácia do sistema de C&T como um todo, inclusive desburocratizando completamente o seu aparelho legal, hoje arcaico e obsoleto.

Sem o parceiro empresarial, contudo, as chances de que possamos constituir um sistema moderno e dinâmico de inovação tecnológica são quase nulas. E sem tecnologia, todo o conhecimento que produzimos correrá sempre o risco, não de perder seu valor intrínseco de distinção, cultura e humanidade, mas o de jamais se transformar pelas nossas mãos, e no interesse de nossa população, em riqueza econômica e social. [Carlos Vogt, ex-reitor da Unicamp (1990-1994), poeta e lingüista, é coordenador do Labjor, Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, da Unicamp, diretor de redação da revista eletrônica de divulgação científica ComCiência e vice-presidente eleito da SBPC, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]"



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