18/11/2003

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CIÊNCIA & DESTRUIÇÃO
A paz, o jornalismo e a violência

Ulisses Capozzoli

Em 7 de abril passado um tanque anfíbio que atravessava uma ponte no Iraque foi atacado e destruído. Entre seus tripulantes estava Andrew Aviles, um garoto que completaria 19 anos em duas semanas e tinha concluído seus planos de voltar para casa, encontrar os amigos e discutir a aventura que havia sido sua curta permanência no Oriente.

Nas cartas que enviou durante o tempo em que esteve em ação, Aviles mostrou estilo e humor, ao falar de um local "cheio de praias, sem uma gota d água".

A família de Aviles e seus amigos conhecem poucos detalhes da morte desse garoto e quase tudo sobre sua vida curta está na edição de setembro do FloridaState Times, jornal de um único caderno de 16 páginas em papel couchê espesso distribuído a alunos, amigos e ex-alunos da escola em que estudou.

Aviles não é o único morto dessa guerra.

Há um outro menino que ficou grotescamente reduzido ao seu próprio tronco nas primeiras explosões das bombas inteligentes em Bagdá, o berço da civilização.

Havia ao menos, no início da guerra, um grupo de adolescentes que, numa conversa com um repórter de TV brasileiro, abriram um enorme sorriso e comentaram juntos: "Ronardinho", quando souberam a nacionalidade do jornalista.

Houve uma multidão de outras crianças, jovens adultos, gente de meia idade e velhos tragados pela guerra sem que ninguém, além do circulo de amigos e outros sobreviventes, conheça o destino trágico que encontraram.

Já chega a quase 500 o número de mortos entre os militares americanos. Muitos, jovens como Aviles. As vítimas entre os iraquianos são ainda maiores e indefinidas.

Quem contará os mortos com o rigor alardeado pelas estatísticas, quando a preocupação maior é garantir a própria sobrevivência?

"Custo-benefício"

Na entrevista das páginas amarelas da edição de Veja desta semana (nº 1.829, 19/11/03), Jessica Stern , autora de Terror in the Name of God (Terror em nome de Deus), identificada pela revista como "especialista em armas de destruição de massa e terrorismo", dá mostras de que a violência não tem data para arrefecer.

Aos 45 anos, segundo Veja, Stern talvez seja muito jovem para ocupar os cargos e funções que lhe são atribuídos, como assessorar o governo russo numa política capaz de inibir o contrabando de armas nucleares, químicas ou biológicas.

A fala de Stern, ao longo das três páginas de perguntas e respostas, alterna, à moda de Nelson Rodrigues, o óbvio e o ululante.

A especialista americana, pesquisadora de Harvard, ao final de quatro anos de pesquisa chegou à conclusão de que "o ressentimento em relação à chamada nova ordem mundial – ou seja, todos se consideram excluídos do processo de globalização econômica" é o principal foco de justificação terrorista.

Não deixa de ser verdade, ainda que a explicação de Stern, evidentemente, não dê conta do sentido que a palavra "globalização" ganhou nos últimos anos.

A jovem especialista a que Veja recorreu para sintetizar os atos de violência neste início de século justifica tudo por razões de mercado. É o raciocínio que faz, por exemplo, ao explicar por que grupos terroristas islâmicos preferem atentados suicidas.

A resposta dela é que "em termos de custo-benefício são [os atentados] mais vantajosos economicamente para a organização terrorista. Num atentado suicida não é necessário planejar a rota de fuga, detalhe que evita a possibilidade de baixas entre os outros integrantes do bando".

Outras respostas, no estilo politicamente correto, vão na mesma direção.

Primeiro encontro

Ninguém emocionalmente sadio justifica o emprego da brutalidade contra humanos ou qualquer outro ser vivo. Por isso mesmo é absolutamente inaceitável a política de terra arrasada que Israel vem praticando no Oriente Médio. Daí a atitude corajosa de pilotos israelenses que têm se recusado a fazer bombardeios de agrupamentos humanos. Ou de grupos esclarecidos de Israel para quem só a paz traz alguma chance para ambos os lados em conflito.

A ação e reação de grupos terroristas está bem além do horizonte demarcado por Stern no tipo de cobertura esterilizante em que Veja vem se especializando com habilidade incomparável no jornalismo brasileiro.

Certamente que seria mais produtivo recorrer a um nome respeitado da ciência para discutir, nas páginas amarelas, o que a comunidade científica internacional tem a dizer sobre o estilo atual de se fazer guerra e estimular o terrorismo.

Há um precedente histórico importante neste sentido, de que participaram dois dos grandes nomes da ciência do século passado: Bertrand Russel e Albert Einstein. A resistência pacifista de que Russel e Einstein participaram ficou conhecido como Movimento Pugwash.

O que começou como Conferência Pugwash reuniu cientistas de diferentes países para discutir, inicialmente na cidade que deu nome ao encontro (na Nova Escócia, Canadá), as armas nucleares recém-utilizadas para selar o fim da Segunda Guerra Mundial e as preocupações com a segurança internacional.

As bombas sobre Hiroshima e Nagasaki haviam calcinado as esperanças que renasciam com o fim do nazismo.

O primeiro encontro da conferência se deu em julho de 1957, quando também acontecia o Ano Geofísico Internacional (AGI), um esforço internacional para a compreensão dos mecanismos que regulam a vida na Terra.

Essa primeira reunião do Movimento Pugwash foi patrocinada pelo filantropo canadense-americano Cyrus Stephen Eaton, industrial que, arruinado pela Grande Depressão dos anos 1930, posteriormente recuperou a fortuna dividindo suas atividades nas áreas de seguro industrial, bancos e estradas de ferro.

O encontro foi uma resposta ao apelos de Bertrand Russel, Fréderic Joliot (químico francês marido de Irène Curie, com quem recebeu o Prêmio Nobel de Química de 1935) e Albert Einstein.

Nas ruas

Ao reunir personalidades de todo o mundo, o objetivo central do Movimento Pugwash era reduzir os armamentos, desestimular uma corrida armamentista provocada pela bomba atômica e examinar a responsabilidade social dos cientistas em torno de problemas mundiais como crescimento econômico, crescimento populacional e destruição ambiental.

Como se vê, uma pauta ainda não inteiramente executada.

O Movimento Pugwash certamente não foi capaz de cumprir a agenda de realizações sonhadas por Einstein ou Russel. Mas, ainda assim, historiadores entendem que foi um acontecimento fundamental para conseguir um controle sobre uma situação crítica envolvendo não só a produção, mas também os testes, a céu aberto, de novos artefatos nucleares.

Alguém pode dizer que a violência não está só lá fora e que o assassinato frio de um casal de jovens namorados na periferia de São Paulo também exige providências imediatas.

É verdade.

Mas providências imediatas certamente não podem ser tomadas como puro imediatismo.

A comunidade científica, tanto nacional quanto internacional, deve assumir a responsabilidade social que lhe é inerente. É necessária uma profunda interação com as demais instâncias da sociedade.

A universidade e a produção do conhecimento científico não são algo que se acredite à parte do corpo social.

Russel e Einstein criaram o Movimento Pugwash. É preciso que recriemos iniciativas semelhantes. E o jornalismo, como no passado, tem uma responsabilidade social tão grande quanto a dos cientistas nesse desafio.

No caso do jornalismo, o primeiro passo para um trabalho digno é não escamotear a pauta. É preciso tratar os assuntos com a seriedade que exigem. Em todas as redações existem ótimos repórteres, desejosos de fazer um bom trabalho. Mas para que possam fazer isso é preciso que seus editores tenham coragem de encarar os desafios.

O bom jornalismo não é feito dentro das redações, como quis fazer acreditar um modelo literalmente modulado, criação da Folha de S. Paulo, a partir da segunda metade dos anos 1980.

O bom jornalismo nasce nas ruas. No sentido amplo dessa expressão.


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