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JORNALISMO CIENTÍFICO
Novos mundos, mundaréus antigos
Ulisses Capozzoli (*)
Nos tempos duros em que vivemos, certamente é mais fácil e freqüente deparar-se com notícias desanimadoras que informes estimulantes quanto a novas perspectivas. Uma das leis de Murphy reza que nada pode estar ruim o bastante para não ficar ainda pior.
A levar em conta o que a imprensa mais conservadora vem publicando, o próximo governo, se Lula for o eleito, será a encarnação do mal. Algo próximo ao Grande Satã, expressão de terrorismo religioso para evitar mudanças indesejáveis aos donos do poder. Apenas isso seria motivo para um mergulho profundo na história das mentalidades, posto que revelação do substrato mental das elites que governam. Mais que nunca José Bonifácio de Andrada e Silva e Joaquim Nabuco são leituras atuais e elucidativas. O Brasil acabou formalmente com a escravidão. Ainda não se livrou no entulho escravista, como sugeriu Nabuco.
Para não desapontar possíveis leitores e deixar mais amargo os humores, este artigo abordará duas questões: uma preocupante, outra entusiasmante. A primeira diz respeito aos cortes OFJOR CIÊNCIA pelo governo no Ministério da Ciência e Tecnologia. A segunda envolve a descoberta de mais um sistema planetário em torno de estrelas próximas, confirmando a idéia de que colares planetários são formações comuns em torno de estrelas.
Em 29/5/02, a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Glaci Zancan, publicou artigo na Folha de S.Paulo alertando para a necessidade de a sociedade tomar conhecimento do corte de 45% no orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT).
A SBPC, como sabe parte da população brasileira, nasceu de uma resistência a pressões políticas indesejáveis sobre a atividade científica, nesse caso a do então governador Adhemar de Barros, o "rouba mas faz", em 1948. Foi, ao mesmo tempo, uma demonstração da maturidade da comunidade científica nacional consolidada pela criação da Universidade de São Paulo (USP), em 1934. Durante os anos de chumbo da ditadura militar, as reuniões anuais da SBPC foram o único espaço aberto ao debate em torno do que depois consolidou-se como uma resistência democrática efetiva. A ditadura dos generais acabou, mas a democracia plena ainda é um sonho no Brasil, malgrado a sonoridade dos discursos formais.
A tradição de mais de 50 anos qualifica a SBPC como o interlocutor mais legitimado para críticas à política científica do governo, posição que a entidade retomou com o retorno à caserna. Em texto enxuto (Folha, 29/5), a professora Glaci, titular de bioquímica da Universidade Federal do Paraná (UFPR), previne que a oferta de recursos para a ciência nacional, mesmo com a entrada em vigor dos fundos setorais, "é claramente insuficiente, a ponto de gerar novas tensões e preocupações, ampliada pela falta de diálogo entre os diferentes atores e envolvidos no processo".
A execução orçamentária do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) nos primeiros quatro meses de 2001, avalia o professora Glaci, "mostra que, praticamente, apenas os recursos de bolsas vêm sendo liberados".
De acordo com a presidente da SBPC, "o contingenciamento anunciado, retirando quase a metade do orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia será catastrófico. Estará colocando em risco todo o sistema de C&T, além de anular todo o esforço feito na reformulação da área. Nunca é demais alertar que, em ciência, é difícil construir e manter escolas, mas é muito fácil destrui-las quando não lhes são dadas condições mínimas de sobrevivência e reposição".
Talvez a professora pudesse ter lembrado as palavras de sir Ernest Rutherford, físico nuclear e Prêmio Nobel em 1908. Para Rutherford, países descompromissados com o desenvolvimento científico estarão condenados a "carregar água e lenha para os países desenvolvidos".
O Brasil, para aproveitar a metáfora de Rutherford, convive neste momento com uma situação perturbadora, ainda que a imprensa conservadora e as elites arcaicas prefiram apontar a situação da Argentina como o exemplo do caos. O paradoxo, no Brasil, é que, enquanto o país saltou, na década passada, da 28ª para a 17ª posição como produtor mundial de ciência, os clientes de redes de supermercados, como os do Pão de Açúcar, têm entre os produtos em oferta tochas para afugentar a escuridão, reflexo ainda não desativado do apagão elétrico. [N. do E.: Em junho, nas "comemorações" de um ano do apagão, a emissora regional TV Vanguarda (Globo) veiculou matéria sobre a chegada da luz elétrica a um bairro periférico de São José dos Campos, a capital tecnológica do vale do Paraíba do Sul].
Tochas e archotes eram objetos de uso do homem das cavernas e, mais recentemente, de populações desamparadas do benefício da ciência. Observadores mais cínicos dirão que não há relação entre uma coisa e outra. Aí talvez valha uma outra fala, de origem popular: "O pior cego é o que se recusa a ver".
Muito imposto, pouco investimento
Em seguida à publicação do artigo da professora Glaci, Isaac Roitman, membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC), enviou ao Jornal da Ciência, porta-voz da SBPC, carta onde acrescenta outros pontos preocupantes: 1. a baixa absorção de doutores formados no país e no exterior pelas universidades, institutos de pesquisa e empresas; 2. estagnação no número de bolsas (iniciação científica, mestrado, doutorado etc); 3. falta de regularidade de verbas para pesquisa nas agências de fomento federais e estaduais (com exceção da Fapesp).
A pergunta de Roitman sobre o corte comentado pela professora Galci é: "Trata-se de um corte burro ou entreguista, que levará ao desmonte do sistema de C&T no país e, conseqüentemente, à perda de sua soberania?".
Vale a pena uma rápida análise dos dados de Roitman. No ano passado, o Brasil formou 6.300 doutores, o que significa novos pesquisadores científicos. Outros 100 mil, entre mestres e doutores, estão em formação neste momento. Para um país com as características do Brasil, são números animadores. O problema, como mostra Roitman, é que não há emprego para estes novos pesquisadores, criando uma situação em que o país tem todo um custo para a formação e, quando o pesquisador está formado, não há trabalho para ele – que, em muitos casos, vai definitivamente para o exterior, caracterizando a "fuga de cérebros". A propósito disso, é preciso dizer que não há nenhuma estatística confiável sobre o número de pesquisadores científicos brasileiros vivendo no exterior por falta de trabalho aqui.
Falta de regularidade de verbas para a pesquisa científica é tradição no Brasil, certamente reflexo da maneira como as elites dominantes enxergam a ciência. Os cínicos diriam ainda que a conquista da década passada é uma prova em contrário. A verdade é que o salto da década passada está baseado em iniciativas tomadas há meio século, especialmente pela criação do CNPq, num momento em que a energia nuclear prometia mudar a fisionomia do mundo. Acrescente-se a implantação da pós-graduação em meados dos anos 1960 e a fundação das agências de pesquisa, particularmente a Fapesp, e tem-se aí a explicação para o avanço. O que reafirma as palavras da professora Glaci sobre o risco de se perder tudo isso.
Mais: as universidades públicas, especialmente as federais, onde se faz a quase totalidade da pesquisa no Brasil, têm, neste momento, um déficit de quase 4 mil professores. Os salários são baixos e a infra-estrutura de investigação, desanimadora. Tudo isso está acontecendo agora. Se desabar completamente em alguns meses, o conservadorismo já tem um responsável: o governo que vem aí. Principalmente se o vitorioso for Luiz Inácio Lula da Silva.
Outro dado sintomático, publicado pelo conservador O Estado de S.Paulo (15/5, págs. B1 e B3): carga tributária chegou a 34,36% do PIB em 2001, a mais elevada dos 502 anos de história brasileira. Ou seja, falta de recursos, ao menos os originários de impostos, não pode ser apontado como justificativa para cortes no MCT em prejuízo do presente, futuro e mesmo do passado da ciência no Brasil.
Novos sistemas planetários
A descoberta de sistemas planetários têm uma curiosa relação com a forma de pensar das elites no Brasil. No sentido de demonstrar que idéias definitivas, especialmente em ciência, é o caminho mais curto para o erro.
Durante muito tempo se aceitou que o Sistema Solar pudesse ser único entre os 200 bilhões de estrelas da Galáxia, a Via Láctea. James Jeans (1877-1946), físico e matemático inglês, involuntariamente contribuiu para a consolidação desta ortodoxia ao defender a hipótese de uma formação acidental para o colar de planetas do Sol. Segundo Jeans, uma estrela que passou relativamente próxima ao Sol arrancou uma porção de matéria de seu corpo gasoso por efeito de maré, a mesma atração que cria as conhecidas elevações das águas oceânicas. Teria sido um caso fortuito e não uma ocorrência normal em torno da multidão de estrelas desta e de outras galáxias.
A situação começou a mudar radicalmente em 1983, quando foi lançado o IRAS, acrônimo de satélite de infravermelho. Ao utilizar a estrela Veja, a mais brilhante da constelação de Lira, para regulagem dos sistemas de bordo, os astrônomos descobriram um nuvem de poeira em sua órbita, sugerindo um sistema planetário embrionário. Em seguida, novas formações deste tipo foram encontradas em torno de outras estrelas – como Beta Pictoris, próxima ao Cruzeiro do Sul.
Atualmente, utilizando técnicas que avaliam o bamboleio gravitacional produzido por planetas em torno de estrelas, caçadores de planetas detectaram mais de 90 planetas fora do Sistema Solar. O planeta anunciado pelos jornais na sexta-feira [14/6] orbita a estrela 55 Cancri, a 41 anos-luz da Terra. É um gigante do porte de Júpiter, o que significa dizer que em sua superfície a vida tal como existe na Terra não é possível. Com massa tão grande, o poderoso campo gravitacional desse mundo não permitiria a presença de estruturas como a do corpo humano.
O que entusiasma os astrônomos e todos os interessados na investigação das belezas do Cosmo é que um gigante deste tipo pode estar acompanhado de mundos menores, como acontece no Sistema Solar. Se isso for verdade, é possível que esse mundo gravitacionalmente poderoso atue como um escudo contra o bombardeio de asteróides, espécie de entulhos cósmicos deixados pelo nascimento de um sistema planetário. Com sua gravidade poderosa, esses mundos gigantes (como ocorre com Júpiter) atraem asteróides e cometas e assim evitam um bombardeio mais intenso de mundos próximos, facilitando então, ao menos em princípio, o desenvolvimento da vida.
A hipótese de que outras estrelas possam ter planetas e muitos deles serem abrigos para a vida foi levantada por Giordano Bruno, queimado como hegere em 1600 pela Contra Reforma. Antes, dele, no século 13, Roger Bacon fez a mesma previsão. Consolidar a idéia de que as coisas possam ocorrer desta maneira, no entanto, é um fato relativamente recente, resultado dos últimos 50 anos.
Ao contrário de idéias arcaicas do mundo, que sobrevivem à custa do embuste e da memória para assegurar privilégios inaceitáveis, a ciência avança levada por sua própria natureza inquisidora. Os modelos devem ser renovados e as proposições testadas pela observação. Os resultados não dependem da autoridade de cada observador. Mas da explicação mais satisfatória entre o que se pensa e o que se vê. Por isso, também neste caso, a ciência pode ser uma das promessas de futuro para o Brasil.
(*) Jornalista científico, mestre em ciências pela USP, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) e editor de Scientific American Brasil
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