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SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL
Tradução, tradição e tempero tropical
Luiz Egypto
O primeiro número de Scientific American ("The advocate of industry and enterprise, and journal of mechanical and other improvements") circulou em 28 de agosto de 1845, com a redação principal em Nova York e sucursais em Boston e Filadélfia. Nasceu semanal e ia para a rua "todas as quintas-feiras de manhã".
Passados 157 anos, a revista acumulou reputação e credibilidade e espalhou-se por 19 países. A edição americana é referência mundial de divulgação científica e as versões nacionais agora são 20, com o lançamento da Scientific American Brasil, ocorrido no início de junho.
A entrevista a seguir é com Alfredo Nastari, diretor-geral da revista. Ele lidera uma editora que associou-se a a duas outras para montar a edição brasileira da Scientific American. O grupo tem um acordo de licenciamento da marca e dos conteúdos com a matriz americana. Nastari diz que a edição americana é tida com um template, mas qualquer país pode publicar matérias de outro. "Isso significa na prática uma possibilidade de divulgação internacional da ciência brasileira; estou pessoalmente empenhado em promover co-produções de matérias especiais, principalmente com os europeus".
A Europa é um caminho. O controle acionário da Scientific American, Inc. foi adquirido há 10 anos pelo grupo editorial alemão Georg Von Holtzbrinck, que também edita a revista Nature, outro monstro sagrado do jornalismo científico.
A entrevista:
Por que lançar uma revista numa quadra difícil do mercado editorial? E por que uma revista de ciência?
Alfredo Nastari – Toda editora tem como objetivo evidente lançar novos títulos, crescer seu portfolio e participação no mercado, especialmente esta, a Duetto, que não é uma editora vocacionada para uma única área. A essência da nossa atividade é precisamente detectar e ocupar nichos de mercado pouco explorados. E isto tem que ser feito com precisão, de acordo com as circunstâncias do mercado, sob pena de se colocar em risco todo o negócio.
Nossa visão das dificuldades atuais do mercado editorial é a de que se trata muito mais de uma crise da publicidade do que uma crise geral do mercado leitor. Os anunciantes retraíram seus investimentos, há uma explosão de novos títulos e novas mídias e uma disputa ferrenha em torno das reduzidas verbas disponíveis. Mas o mercado leitor continua firme e as receitas de circulação não foram afetadas em seu conjunto. Por isso, nossa aposta para o momento é lançar títulos que apresentem um equilíbrio maior entre as receitas de publicidade e circulação. Scientific American Brasil responde exatamente a essas expectativas. É um título tradicional, uma marca mundial de qualidade, com um público fiel. No Brasil, esse segmento de mercado que não despertou até agora o interesse dos editores.
Há muita gente interessada em ciência, assuntos congêneres, afins e similares?
A.N. – O público de Scientific American, nos 19 países em que ela é editada (o Brasil é o vigésimo) é principalmente o profissional com formação universitária na faixa dos 24 a 49 anos, com interesse em ciência e tecnologia. Ela é uma revista de divulgação científica dirigida ao público adulto e, editorialmente, procura sempre mostrar como o desenvolvimento científico gera novas tecnologias e como as novas tecnologias se transformam em negócios. Por isso, e esta é outra aposta nossa, ela será lida no Brasil pela comunidade acadêmica, pelos profissionais de empresas que utilizam intensivamente tecnologia de ponta e por um público preocupado com o seu aprimoramento pessoal.
Não é pouca gente. Para se ter uma idéia, neste momento no Brasil existem mais de 100 mil pessoas matriculadas em cursos de mestrado e doutorado; no ano passado, foram formados no Brasil 6.500 novos doutores, que é mais do que a Itália forma anualmente. Estes números são apenas a ponta visível do iceberg.
Superando nossas expectativas mais otimistas, recebemos na sexta-feira [16/6, dez dias depois do lançamento da revista] informação da distribuidora de que deveremos vender cerca de 80% do reparte de bancas, o que no jargão técnico chama-se "esmagar vendas", isto é, perder vendas por falta de tiragem. Colocamos em bancas 40 mil exemplares e nosso objetivo era vender 20 mil. Deveremos vender 32 mil.
As editorias de ciência ganharam muito espaço na mídia nos últimos anos; ou, antes, os assuntos relativos a ciência nunca tiveram tanta presença nos jornais, revistas e meios eletrônicos. Passou-se a falar com freqüência em "divulgação científica". No entanto, o volume diário disponível de informações "científicas" atropela a capacidade de compreensão do leitor. Os assuntos são complexos e mal explicados. Faz lembrar Cláudio Abramo, que dizia: "Matéria boa é aquela que você lê para um analfabeto e ele entende". Em resumo: se a divulgação da ciência aumentou substancialmente, de outra parte o analfabetismo científico também tornou-se evidente. Para combater essa deformação, espera-se que o jornalismo científico se paute sobretudo por uma regra inegociável: rigor absoluto. Relevada a pergunta longa, como anda a qualidade técnica e de conteúdo do jornalismo científico praticado hoje no Brasil?
A.N. – A chave do bom jornalismo científico está no compromisso entre rigor científico e clareza de linguagem. É possível, sim, ser claro sem distorcer conceitos. Não é uma tarefa fácil, da qual a figura clássica do jornalista polivalente não consegue dar resposta convincente. Jornalismo científico exige especialização, conhecimento específico. Estão proliferando os cursos de especialização e de pós-graduação na área. No Brasil, o jornalismo científico tem atraído cada vez mais bons profissionais e hoje temos absoluta segurança de que dispomos de gente de primeiro time para produzir a revista, como o Ulisses Capozzoli ou o Tadeu Arantes, que chefiam a redação. E a vinda de Scientific American para o Brasil seguramente irá colaborar nesse processo.
O que a Scientific American tem que as outras revistas científicas de importância e credibilidade não têm?
A.N. – Cento e cinqüenta e sete anos de existência. Mais de 100 laureados com o Prêmio Nobel como colaboradores ao longo de sua história. Ser editada em 20 países, cada um produzindo de 30 a 50% de material próprio, o que resulta num acervo monumental de conteúdo. Definitivamente, Scientific American é a grande referencia mundial de divulgação científica.
As 98 páginas (mais 4 capas) da edição brasileira trazem 32 páginas editorais produzidas aqui contra 54 páginas de matérias traduzidas da revista-matriz americana. Como se dá a escolha do material a ser traduzido? Qual a autonomia da redação brasileira sobre as decisões de pauta e definição do espelho da revista?
A.N. – Cada edição nacional de Scientific American tem uma ampla autonomia editorial, respeitados os princípios básicos que orientam a revista. Para dar uma idéia da extensão desta autonomia, não existe nenhuma aprovação ou leitura prévia de pauta, espelho ou mesmo qualquer material da edição. A matriz, em Nova York, tem apenas um leitor-crítico para cada idioma, que recebe a revista impressa e faz seus comentários para a direção da empresa.
No caso da edição brasileira, o desafio que enfrentamos é o de estabelecer uma pauta com as áreas e assuntos de maior interesse do leitor brasileiro, que não é obrigatoriamente o mesmo do leitor americano, italiano ou francês. Para exemplificar: o assunto de maior sucesso nos Estados Unidos são as ciências do espaço, pela popularidade que o programa espacial norte-americano possui. Na Itália, a edição local tem uma alentada seção de saúde, que não existe em nenhuma outra. Temos liberdade de escolha de qualquer matéria, mesmo de edições passadas, e esta pauta é feita pela própria redação.
O número 1 da Scientific American Brasil destaca dois cientistas brasileiros importantes, um como personagem de perfil jornalístico e outro como colunista da última página, Cesar Lattes e Aziz Ab’Saber, ambos fazedores de ciência da melhor qualidade. Com o baixo investimento em ciência e tecnologia havido nas últimas décadas, onde estão e o que fazem os cientistas brasileiros hoje?
A.N. – Não acredito que o Brasil tenha investido pouco em ciência tecnologia. O fato é que investiu de modo insuficiente. Na última década saltamos da 27ª para a 18ª posição no ranking dos países produtores de ciência – um avanço considerável, mas que ainda não reflete o tamanho da nossa economia. A questão hoje é como aumentar nosso nível de investimento nesta quadra do ambiente econômico brasileiro.
Estamos formando uma quantidade formidável de novos pesquisadores. Temos muitos centros de excelência que exibem um vigor invejável. Mas as opções de trabalho estão concentradas unicamente na universidade pública; a universidade particular e a empresa privada não investem em pesquisa e desenvolvimento. E, como sempre, muitos, e muitas vezes os melhores, acabam buscando fora do país as oportunidades que precisam para desenvolver seus projetos de pesquisa.
A primeira edição americana de Scientific American (agosto de 1845), cujo fac-símile consta do press kit de lançamento da versão brasileira, é um primor de organização em cinco colunas e conteúdo saboroso. Surgiu em meio a uma uma intensa demanda por informação sobre assuntos da ciência, que então mudava hábitos e culturas – as máquinas, os navios, o trem, a energia, a velocidade maior que a conhecida tração animal. Guardadas as devidas proporções, o momento suscita um nível de interesse tão intenso quanto o vivido em meados do século retrasado?
A.N. – Scientific American surgiu nos Estados Unidos na esteira da revolução industrial. Era inicialmente um jornal de patentes e invenções para um público ávido e maravilhado pelo desenvolvimento tecnológico. Acredito que este espírito de encantamento permanece intacto, pois ele é intrínseco ao ser humano. Mas a questão hoje é muito mais grave. Os impactos da ciência sobre o futuro que se vislumbra colocam em xeque tudo o que pensamos e consolidamos a respeito de nós mesmos. Áreas como a genética e a nanotecnologia, por exemplo, trarão mudanças inimagináveis. A divulgação científica será cada vez mais essencial para que a própria sociedade consiga formar consensos sobre questões cruciais para a nossa própria espécie.
Qual a maior semelhança entre as edições americana e brasileira de Scientific American? E qual a diferença mais notável entre as duas?
A.N. – A maior semelhança espero que seja o padrão de qualidade. Estamos trabalhando duro para isso e tenho a convicção que o Brasil tem expertise editorial suficiente para não ser mero coadjuvante. Queremos ser influentes nos processos de edição da revista. E a diferença deverá ficar por conta da "tropicalização" da revista para adequá-la ao leitor brasileiro.
Quando tempo durou a costura do processo de licenciamento dos direitos da revista-mãe americana? Esperavam a aprovação da nova redação do artigo 222 da Constituição para bater o martelo?
A.N. – Entre o início das negociações e a chegada da revista nas bancas foram consumidos cerca de 18 meses. Os primeiros contatos ocorreram em janeiro de 2001. Em junho, o acordo estava fechado verbalmente mas foram consumidos mais 6 meses na redação e assinatura do contrato.
Não ficamos propriamente esperando a alteração do artigo 222, mas se ela não tivesse acontecido o rumo das negociações teria sido outro. A Scientific American sempre manifestou o desejo de ser sócia na operação brasileira, devido à importância que eles dão ao nosso mercado. Como não era possível, foi feito o que a lei brasileira então permitia: um acordo de licenciamento, com pagamento de royalties pela cessão de marca e conteúdos. Lamentavelmente, perdemos a oportunidade de trazer investimento deles para o lançamento, que acabou sendo bancado pela Duetto. Com a regulamentação do artigo 222, possivelmente a holding na Alemanha irá querer comprar 30% da operação no Brasil. A ver.
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