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SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL
Jornalismo crítico e maduro

Rafael Evangelista (*)

O lançamento da edição brasileira da Scientific American é um importante sinal de que o jornalismo científico brasileiro vem amadurecendo. E esse amadurecimento se dá em dois sentidos: tanto o campo específico do jornalismo que tematiza a ciência ganha progressivamente mais adeptos e dedica-se a discussões mais sólidas; como as publicações desse campo, que eram em sua maioria voltadas ao público infanto-juvenil (com exceção da pioneira Ciência Hoje) passam a se dirigir também a um público adulto, interessado em entender e conhecer o papel da ciência e da tecnologia no mundo contemporâneo.

A importância da ciência na sociedade atual não pode ser ignorada. Longe disso, é o conhecimento científico que tem gerado os novos produtos com relevância econômica para os investidores dos países desenvolvidos. A biotecnologia, a informática e as telecomunicações estão na linha de frente desse processo. Bilhões de dólares são investidos anualmente em pesquisa e desenvolvimento, na busca de novas mercadorias que possam oferecer retorno ao capital investido. A tecnologia, aliada ao capital, é hoje decisiva nas relações econômicas e políticas entre os países. Para encarar todo esse processo é preciso, justamente, ter maturidade e, sem perder o fascínio e o encantamento com o que é novo, contextualizar e discutir com seriedade os avanços e o papel da ciência.

A missão da Scientific American Brasil não será fácil, mas o fato de não estar ligada a nenhum dos grandes grupos brasileiros de comunicação e de contar com o material da tradicional publicação norte-americana certamente facilitará o caminho. O desafio será vencer no turbulento mercado editorial nacional sem fazer concessões ao didatismo infantil e manter a independência crítica que ainda falta ao jornalismo brasileiro. Mais do que simplesmente traduzir conceitos científicos ao público geral, é preciso fazer com que os fatos e as novas descobertas da ciência moderna cheguem ao leitor sem perderem o sentido e o contexto histórico que têm, mantendo um olhar para as conseqüências para a sociedade de seus subprodutos e os interesses envolvidos em sua consecução.

Nesse sentido, a Scientific Amercian Brasil dá um grande passo com a escolha, nas universidades, de sua equipe editorial brasileira e de seus colaboradores – além de afirmar a solidez da comunidade científica brasileira, que sobrevive e ainda cresce apesar de todas as restrições orçamentárias. É notório, em seu primeiro número, que a equipe brasileira fez um bom trabalho na divulgação de assuntos da ciência nacional. O que se espera é que esse espaço cresça cada vez mais, ampliando-se o destaque para o trabalho de valor de uma comunidade que sobrevive em condições adversas. A ausência sentida aqui é das ciências humanas, área em que os pesquisadores brasileiros têm feito um trabalho de nível internacional já há muito tempo e com pouco destaque na grande mídia.

O jornalismo científico brasileiro só tem a ganhar com a Scientific American Brasil. Conforme a tradição da edição norte-americana, que há mais de 150 anos monitora a produção científica de seu país, será bom se a edição brasileira puder acompanhar um desenvolvimento semelhante para a ciência nacional. Aproximar a ciência da sociedade, com um tratamento aprofundado e crítico, é condição essencial para a promoção de um desenvolvimento econômico e social justo em uma sociedade democrática. Que a nova revista ajude a trazer o fazer científico brasileiro e internacional cada vez mais para a agenda de discussões do país.

(*) Editor da revista ComCiência <www.comciencia.br>; e-mail <rae@unicamp.br>

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