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SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL
O melhor da matriz
Bruno Dorfman Buys (*)
Com reportagem de capa intitulada "Nanotecnologia: O Admirável Mundo Novo", Scientific American estreou, em junho, sua primeira edição brasileira. A versão brasileira da tradicional publicação de divulgação científica destaca-se pelos mesmos atributos que a tornaram tão conceituada em sua terra natal: apresentação gráfica excelente, qualidade, atualidade e fidelidade de informação. Uns poucos erros de revisão e uma derrapada conceitual, ao se referir a uma bactéria como "animal", separam a estréia da qualificação de "impecável".
Em país tão carente de boas fontes de informação científica como o Brasil, a chegada de um parceiro de peso como a SciAm só pode resultar em coisa boa. Mais ainda se essa primeira edição for a medida do que vem por aí. A versão brasileira conta com uma razoável margem de independência da versão-matriz: além da reportagem principal, três artigos em destaque são assinados por brasileiros na seção "Bloco de notas" – duas mostrando os avanços de pesquisa universitária no Brasil e outra sobre preparativos para a conferência Rio+10, que terá lugar no Brasil.
A revista traz ainda um perfil de Cesar Lattes, o físico brasileiro que descobriu (com o italiano Guiseppe Ochialini) o méson pi. Lattes e seu colaborador italiano foram esquecidos pelo comitê do Nobel, na entrega do prêmio de 1950, quando o terceiro autor do trabalho foi agraciado. E mais: dois importantes colaboradores em ciência brasileira, Aziz Nacib Ab’Sáber e o ministro da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Mota Sardenberg.
A ênfase dada pela SciAm em nossa ciência nativa vem em ótimo momento. Talvez nunca antes a ciência brasileira, fortemente sediada na pesquisa universitária pública, precisasse tanto de defensores como agora. Haja visto as dificuldades pelas quais tem passado o Jornal da Ciência, importante publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). O Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, mal-avaliado em recente relatório do CNPq, tem sua pós-graduação ameaçada de parar atividades. Greves de professores por melhores condições de ensino e pesquisa e evasão de cérebros ainda são a dura realidade.
Verbas cortadas, programas de incentivo de sucesso substituídos por outros de origem duvidosa, bolsas não-renovadas e demais indicadores levam a crer que a atual crise de legitimação da atividade científica profissional em nosso país só será ultrapassada quando governantes e formuladores de políticas públicas se conscientizarem, de maneira clara e definitiva, que não há avanço econômico sem sólida base científica e tecnológica.
Mas é difícil e espinhoso o caminho que leva a informação dos meios acadêmicos especializados aos políticos e aos públicos: o cientista, altamente qualificado e especializado, freqüentemente não domina as habilidades comunicativas necessárias para agir como um defensor de sua atividade junto ao público leigo. Não há nada que o impeça de se aprimorar nisto – e esta afirmação não consiste numa proibição teórica, mas numa observação prática. Além disso, a dedicação ao trabalho de laboratório e a carga de estudos torna muito difícil uma atuação efetiva em outra atividade.
O papel de divulgação de conhecimento científico, de vital importância para a defesa do sistema público de pesquisa, deve ser levado muito a sério entre nós. E praticado com a certeza de funcionar como mais uma forma de prestar contas da verba aplicada no sistema público de pesquisa.
A SciAm Brasil ajuda, e muito, nesta tarefa pois traz para o nosso país 157 anos de experiência em divulgação científica. A revista-matriz já publicava matérias sobre ciência desde agosto de 1845. Para ter uma idéia de quanto isso é representativo da ciência contemporânea, Darwin publicou sua teoria evolutiva em 1859, no livro Da Origem das Espécies através da Seleção Natural. A SciAm contava, então, 14 anos.
Com a sua capacidade de sedução, pela riqueza com que apresenta ciência ao seu leitorado, com a facilidade com que transita pelos assuntos mais difíceis apresentando-os de maneira clara e cativante, a revista tem todos os elementos para se tornar uma referência indispensável. E a orientação de valorizar ciência brasileira mostra afinidade e sensibilidade com a situação de nossa pesquisa universitária.
(*) Biólogo
Veja também
Jornal da Ciência
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas
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