20/01/2004

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LEITURAS DA VEJA
Sex appeal e estelionato jornalístico

Celio Levyman (*)

Veja se propõe a responder à eterna pergunta de quem é sexy (edição nº 1.837, 21/1/04, págs. 74-81). Que o faça, é direito dela e de quem nela acreditar, compondo-se com seu público. Mas eis que no início do texto a revista nos surpreende dizendo que "compilou um tratado baseado em Nature, Science" e por aí vai. Ou seja, além das opiniões próprias da revista, de entrevistados e fontes, ela se posta ao lado de tradicionais e sérias publicações científicas, como que a dar consistência ainda maior ao assunto que se propôs apresentar.

Ocorre que Veja é revista de informação informal, goste-se ou não de sua linha editorial. Mas ela, por si própria, sem uma política de jornalismo científico ou mesmo explicitar o que pretende com isso, ao fazer sua "compilação" e tentar ombrear-se com uma Nature, por exemplo, engana de modo cruel o público, chegando, apesar disso, a conclusões óbvias da sexualidade, como a da "bonitona da vez". Como isso deve ser chamado? Estelionato científico ou jornalístico.

Tempos difíceis

Citar como fontes revistas de prestígio técnico ou científico, vá lá. Mas fazer “pesquisa” por conta própria não atenta apenas contra a lógica e a ética: é propaganda enganosa, usando o nome de revistas consagradas no meio científico para colocar-se, talvez aos olhos do leitor, à altura delas.

Esse tipo de atitude é espantoso, e ilustra a falta de um mínimo de compostura, se assim podemos dizer, de uma revista que não tem rival à altura e espera poder ditar normas. Deveria haver declaração de conflito de interesses, quem e como fez a pesquisa, referências bibliográficas etc. E nada disso se encontra.

A arrogância da Veja ao pretender dar uma de pesquisadora com poder de opinar, como se fosse um "par" das revistas citadas causou-me alarme: e se essa moda pega entre as incontáveis publicações dedicadas à beleza e coisas afins? Finalmente conseguiríamos algo inédito no mundo – ser motivo de chacota mais uma vez, uma revista leiga que resolve incluir em seu modo de fazer reportagem pesquisa (?) científica própria. Tempos difíceis, bizarra forma de ditadura antiética no jornalismo brasileiro.

(*) Médico, mestre em Neurologia pela Escola Paulista de Medicina/Universidade Federal de São Paulo, ex-integrante do Conselho Regional de Medicina-SP


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