LEITURAS DA VEJA
Sex appeal e estelionato
jornalístico
Celio Levyman
(*)
Veja se propõe a responder à eterna pergunta
de quem é sexy (edição nº 1.837, 21/1/04, págs.
74-81). Que o faça, é direito dela e de quem nela
acreditar, compondo-se com seu público. Mas eis que no início
do texto a revista nos surpreende dizendo que "compilou um
tratado baseado em Nature, Science" e por aí
vai. Ou seja, além das opiniões próprias da
revista, de entrevistados e fontes, ela se posta ao lado de tradicionais
e sérias publicações científicas, como
que a dar consistência ainda maior ao assunto que se propôs
apresentar.
Ocorre que Veja é revista de informação
informal, goste-se ou não de sua linha editorial. Mas ela,
por si própria, sem uma política de jornalismo científico
ou mesmo explicitar o que pretende com isso, ao fazer sua "compilação"
e tentar ombrear-se com uma Nature, por exemplo, engana de
modo cruel o público, chegando, apesar disso, a conclusões
óbvias da sexualidade, como a da "bonitona da vez".
Como isso deve ser chamado? Estelionato científico ou jornalístico.
Tempos difíceis
Citar como fontes revistas de prestígio técnico ou
científico, vá lá. Mas fazer pesquisa
por conta própria não atenta apenas contra a lógica
e a ética: é propaganda enganosa, usando o nome de
revistas consagradas no meio científico para colocar-se,
talvez aos olhos do leitor, à altura delas.
Esse tipo de atitude é espantoso, e ilustra a falta de um
mínimo de compostura, se assim podemos dizer, de uma revista
que não tem rival à altura e espera poder ditar normas.
Deveria haver declaração de conflito de interesses,
quem e como fez a pesquisa, referências bibliográficas
etc. E nada disso se encontra.
A arrogância da Veja ao pretender dar uma de pesquisadora
com poder de opinar, como se fosse um "par" das revistas
citadas causou-me alarme: e se essa moda pega entre as incontáveis
publicações dedicadas à beleza e coisas afins?
Finalmente conseguiríamos algo inédito no mundo –
ser motivo de chacota mais uma vez, uma revista leiga que resolve
incluir em seu modo de fazer reportagem pesquisa (?) científica
própria. Tempos difíceis, bizarra forma de ditadura
antiética no jornalismo brasileiro.
(*) Médico, mestre em Neurologia pela Escola Paulista de
Medicina/Universidade Federal de São Paulo, ex-integrante
do Conselho Regional de Medicina-SP