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AMBIENTALISTA CÉTICO
Imprensa, estatísticas e catastrofismo

Ulisses Capozoli (*)

Um livro que está chegando às livrarias européias, publicado pela Cambridge University Press – The Skeptical Environmentalist – vem provocando certo furor na imprensa, especialmente na revista The Economist e na versão italiana de Scientific American.

O autor é Bjorn Lomborg, um jovem estatístico da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e sua tese é que os ambientalistas forçam a mão em cima das estatísticas e assim exploram um "lado negro da vida".

Lomborg trabalha sobre algumas idéias básicas que considera catastrofistas na interpretação dos ambientalistas: a) os recursos naturais estão se esgotando; b) a população está crescendo cada vez mais, deixando uma disponibilidade de alimentos cada vez menor; c) as espécies estão se extinguindo em grande número e as florestas estão desaparecendo, enquanto os estoques pesqueiros entram em colapso; d) a atmosfera e os recursos hídricos do planeta estão se tornando cada vez mais poluídos.

Estou produzindo este artigo sem ter lido o livro de Lomborg, baseado em textos que saíram em The Economist e no próprio site do autor, em <www.lomborg.org>. Exatamente por isso, seria temerário ousar além de um certo limite. Mas, ao que tudo indica, a leitura de The Skeptical Environmentalist não mudaria muito esta situação. A complexidade do tema é grande demais para permitir uma tomada de posição unilateral e o mais provável é que os dois lados em questão – o próprio Lomborg e os ambientalistas que ele critica, entre eles gente do peso de Lester Brown e Paul Ehrlich – tenham razão.

Lomborg é pouco conhecido e, certamente, a controvérsia trazida por seu trabalho deve mudar esta situação. Mas, do ponto de vista pragmático, envolvendo o acerto de suas premissas, ser melhor conhecido não muda nada. Brown e Ehrlich são bem conhecidos, mesmo no Brasil.

Brown criou The Worldwatch Institute, uma organização empenhada em traçar um cenário prospectivo do planeta lastreado em boa base de dados. Ehrlich, professor de ciências biológicas e da Cátedra Bing de Estudos Populacionais da Universidade de Stanford, membro da Academia Nacional de Ciências, dos Estados Unidos, tem parte de seus trabalhos editados no Brasil – caso de O Mecanismo da Natureza (The Machinery of Nature), pela Editora Campus.

Esticar a corda

A destruição da natureza que Rachel Carson apontou no seu dramático Primavera Silenciosa, (Silent Spring), há exatos 40 anos, afeta cada uma das pessoas deste mundo, mais ou menos intensamente em função da história de cada um. Ou são vítimas diretas dessas ocorrências, contaminados por metais pesados, pesticidas ou doenças trazidas por desequilíbrio ecológico, ou indiretas. Neste segundo caso, pessoas conscientes dos acontecimentos, mas pessoalmente impotentes para promover as mudanças necessárias. Há angústia em ambos os lados.

Discutir se Lomborg tem ou não razão certamente não leva a lugar algum. E, se ele estiver errado, talvez, um dia, seja tarde demais para reconhecer. Mesmo assim, é inegável que o que ele chama de "explorar o lado negro da vida" é um fato tenebroso, freqüentemente explorado pela mídia. Para usar uma expressão mais coloquial, Lomborg "cai de pau" também sobre economistas e os modelos convencionalmente adotados para justificar essas posições na área ambiental.

Curiosamente, o último livro de Edward Wilson, O Futuro da Vida (The Future of Life), que está saindo no Brasil também pela Campus, traz os dois lados da questão. Wilson, conhecido por obras anteriores, entre eles o belo Naturalista, é professor da Universidade de Harvard e curador honorário de entomologia do Museu de Zoologia Comparada daquela universidade. Neste último trabalho, ele critica os economistas por se apegarem a dados como os produtos internos brutos (PIBs) sem levar em conta o custo ambiental para a produção da riqueza.

De forma geral, os sete artigos que integram o livro, acompanhados de um prólogo quase literário ao anarquista e ambientalista Henry Thoreau, refletem uma certa amargura. Ainda que, no último deles – "A Solução" – Wilson defenda que "a espécie humana é como o gigante mitológico Anteu, que extraía força do contato com a mãe, Gea, a deusa da Terra, e a usava para derrotar os adversários. Hércules, depois de descobrir seu segredo, levantou Anteu no ar e o manteve nesta posição até que perdesse as forças, terminando por esmagá-lo". Wilson pensa que "os humanos também são prejudicados com a separação da Terra, mas nosso sofrimento é auto-imposto, e com uma agravante: também enfraquece a Terra".

Há uma saída para o aparente impasse: a tomada de consciência por parte de toda a sociedade humana no sentido de se preservar a Terra, o único mundo de vida conhecido até agora em torno dos 200 bilhões de sóis da Galáxia. O problema é que essa consciência passa por profundas alterações políticas, onde privilegiados se recusam a abrir mão do que se habituaram a ver e ter como direito natural. Especialmente nos chamados "países periféricos", com suas divisões internas tão tenebrosas como um canto do inferno.

Wilson, como outros, também se refere de forma pessimista aos quatro pontos listados por Lomborg, particularmente o crescimento da população. Lomborg argumenta que as previsões de Malthus não se concretizaram, no que tem razão. William Godwin (1756-1836) pastor rural que perdeu a fé, anarquista e pai da escritora Mary Shelley, foi um dos que refutou Malthus (1766-1834) à época, argumentando que seu modelo não levava em conta a criatividade humana para fornecer alimentos a uma população crescente. Lomborg, de alguma maneira, parece um neogodwiniano. Mas a pergunta de Wilson é: até que ponto podemos esticar essa corda?

Efeito-estufa

Quem conhece um pouco a Amazônia tem a sensação de que as repetidas referências que Wilson faz dela ao longo de seu livro dão razão aos argumentos de Lomborg: a exploração de um lado negro da vida.

A floresta não está intacta, particularmente junto às estradas, numa ocupação destrutiva que lembra o desenho de uma espinha de peixe. Mas sobrevoá-la numa pequena aeronave, durante horas, também convence que sua destruição, mesmo com uma boa determinação, não é uma tarefa fácil. Mais que isso: a grande floresta pluvial, apenas em território brasileiro, tem, segundo os últimos dados da Fundação Nacional do Índio (Funai), perto de 40 grupos indígenas isolados, gente que foge do contato com a sociedade exterior desde o início do século 16. Dados como este costumam ser relegados em benefício do enfoque catastrofista.

Mas algumas questões cruciais e controvertidas, do ponto de vista estatístico inclusive, não são exatamente novas paranóias contemporâneas. É o caso do efeito-estufa. Em 1863, quando o ambientalismo ainda não existia, o inglês John Tyndall descreveu na Philosophical Magazine o papel do vapor d’água no aquecimento da atmosfera. Um pouco depois, em 1896, o físico-químico sueco e Prêmio Nobel Svant Arrhenius chamava a atenção sobre o papel do gás carbônico nesse processo, tese reforçada, três anos depois por P. C. Chamberlain, nos Estados Unidos.

O efeito-estufa, ao lado da destruição da camada de ozônio, é um dos temas dominantes no ambientalismo em função de seu poder de transformação global. Há quem veja aí um efeito positivo, no sentido de retardar um eventual resfriamento da Terra, um retorno a uma glaciação. Há, ainda, os que enxergam benefícios locais, como o aquecimento de terras agora geladas que se tornariam propícias à atividade agrícola. No conjunto, entretanto, as transformações do efeito-estufa, segundo boa parte dos modelos, levará a um desastre sem precedentes na história da civilização.

Que estatísticas, embutidas em modelagens climáticas, descrevem o que realmente está acontecendo? Ninguém sabe dizer ao certo porque o processo é de uma enorme complexidade. Deve envolver desde movimentos orbitais da Terra a eventuais travessias de nuvens interestelares no braço da Galáxia, passando por flutuações na radiação solar, mas, certamente, não devem desprezar a atividade humana.

O esvaziamento do Mar de Aral, na ex-União Soviética, é uma prova dramática de que nem tudo são apenas previsões pessimistas. Ainda assim, a administração Bush, nos Estados Unidos, se recusa, com mais ênfase que os governos anteriores, em acatar o Protocolo de Kyoto para diminuir as emissões de gases de efeito-estufa – assunto que a imprensa martela diariamente.

Talvez a melhor maneira de ler o trabalho de Lomborg seja entendê-lo como uma interessante contribuição na abordagem mais apurada dos acontecimentos. Algo que a imprensa não costuma fazer. O lide jornalístico (o quê, quem, quando, como, onde e por que) é quase sempre imperioso demais para permitir uma reflexão menos condicionada. Daí uma certa tendência à sumariedade, postura que, certamente, precisa ser transformada.

(*) Jornalista especializado em divulgação científica, mestre e doutorando em ciências pela Universidade de São Paulo, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo científico (ABJC).


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