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OFJOR CIÊNCIA JORNALISMO CIENTÍFICO Isabel Rebelo Roque (*) "O melhor meio de evitar abusos e incompreensões de parte a parte é tornar o povo cientificamente informado a fim de que compreenda as implicações das investigações científicas. Se a ciência for considerada um sacerdócio fechado, demasiado difícil e misterioso para a compreensão de uma pessoa de cultura mediana, o perigo do desentendimento será maior. Se a ciência, porém, for um tópico de interesse e consideração geral, se seus encantos e conseqüências sociais forem discutidos com competência e regularidade nas escolas, na imprensa e à mesa de jantar, teremos aumentado as possibilidades de aprender como o mundo realmente é, para melhorarmos a ambos, a nós e a ele." Carl Sagan (1934-1996) Quero, mais uma vez, parabenizar Ulisses Capozoli pelo brilhante artigo "Alienação e desalento na edições dominicais". Gostaria de aproveitar, também, para fazer alguns comentários sobre a ausência de suplementos científicos nos nossos "jornalões". Cada vez mais, o espaço que os grandes jornais dedicam à ciência se assemelha às matérias publicadas em revistas do tipo Saúde e Superinteressante: manchetes bombásticas que, no mais das vezes, criam uma expectativa de consistência que não se confirma ao longo da leitura. Em geral, tratam de estudos recentes ainda carentes de embasamento e aceitação no meio científico. Isso, em vez de passar ao leitor um sentimento de participação no processo, faz dele um alienado, um objeto à deriva, uma angustiada cobaia que na edição seguinte lerá que aquilo tudo "não era bem assim". Isso quando a coisa não pára por ali mesmo, e ele fica com a capenga informação inicial. No caso da Folha de S.Paulo, então, observa-se um fenômeno ainda mais estranho e preocupante: suplementos como Folhateen e Folha Equilíbrio tentando dar conta de assuntos que deveriam ocupar um suplemento de Ciência, sabe-se lá por que cargas d'água inexistente. Só para ficar em dois exemplos de descompromisso com a informação precisa, recorro a duas matérias do Folhateen. Em matéria de 22/4/01, sobre destinação de pilhas e baterias, o Folhateen trazia um texto sobre resolução do Conama, de junho de 1999, que estabeleceu limites máximos para os componentes das pilhas fabricadas e comercializadas no país a partir de janeiro de 2001. Ao lado do texto, um quadro "resumindo" as informações. Um leitor mais apressado, que resolvesse apenas "dar uma olhada" no quadro, era informado de que "pilhas comuns poderiam ser descartadas normalmente com o lixo doméstico". Se ele, então, se detivesse a ler a matéria propriamente dita, saberia que esse descarte com o lixo doméstico dependeria de condições como composição das pilhas e data de fabricação, além da garantia de destinação do lixo em aterros sanitários regulamentados. Ou seja, os responsáveis pelo suplemento demonstraram total desconhecimento ou desinteresse por aspectos elementares de programação visual (um quadro sinóptico "chama" muito mais o olhar do leitor). Melhor não inventar Outro exemplo é de poucas semanas atrás. Alguns jornais de alcance restrito andaram publicando matéria (depois veiculada informalmente pela internet) sobre trabalho realizado por biólogas da Unesp, em São José do Rio Preto, sob orientação da professora Hermione Bicudo. O trabalho apontou que a borra de café apresenta ação larvicida contra o mosquito Aedes aegypti. Estranhamente, o assunto não mereceu maior destaque nos "jornalões"; poderíamos ponderar que por se tratar de trabalho ainda não concluído. Porém, tal ponderação não vale para notinhas sobre descobertas científicas "importadas": os jornais se apressam a publicá-las, pouco se importando se conclusivas ou não. Qual não é, então, minha surpresa, ao deparar com matéria sobre dengue e borra de café... onde? No suplemento Folha Equilíbrio. E qual é o título da matéria? "Borra de café mata mosquito da dengue". Pronto: é novamente a mídia impressa a "desserviço" da população. As biólogas responsáveis pela pesquisa têm sido enfáticas em explicar: a técnica vale apenas para as larvas, agindo, portanto, como larvicida, e sendo absolutamente inócua para eliminar as fêmeas adultas do Aedes aegypti. Estas ainda precisam das velhas e boas técnicas usadas para impedir a entrada de insetos em nossa casa. Diante de exemplos como esses, não há como não pensar: a se manter essa absoluta indigência da matéria científica nos grandes meios de comunicação, é melhor então que eles se limitem a fazer o que já fazem tão bem: manter o público informado sobre as "últimas" dos deploráveis reality shows que pululam na em Brasília e na TV. Deus ainda precisará ter piedade de nós por muito tempo. (*) Editora de livros didáticos e médica veterinária | ||