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OFJOR CIÊNCIA MÍDIA & SAÚDE Renan Moritz Varnier R Almeida (*) Diz o texto de Graciela Pagliaro, "Questão de efetividade" [veja remissão abaixo]: "Na semana passada vimos duas situações, às quais não estamos acostumados…" (a divulgação da homeopatia na mídia) "A homeopatia (…) encontra vários entraves ao ser apresentada à população" "É muito comum assistirmos na mídia a depoimentos de pessoas que nada ou pouco conhecem desta especialidade médica" "(…) os homeopatas, numa vivência histórica de marginalidade" "(…) a ausência de visibilidade de suas práticas e seus resultados". Percebo duas afirmações com as quais não concordo: a) que a homeopatia seja eficaz e b) que ela seja discriminada pela mídia. No momento, vou me concentrar em questionar b). Muito pelo contrário do que afirma a autora, "visibilidade" é o último dos problemas dos homeopatas. Não é difícil, na imprensa brasileira, encontrarem-se afirmações pseudo-científicas, principalmente relativas à "medicina alternativa", sem nenhum embasamento científico, e, inclusive, fornecendo indicações perigosas e irresponsáveis à população. Ou, quem sabe, eu sou um cientista de cabeça-dura e preconceituoso (além de chato)? Para elucidar isso, realizei uma coisa nada cara aos homeopatas: confrontei uma afirmação com dados que, possivelmente, poderiam refutá-la. Isto não é tão difícil, já que é facilitado pelos arquivos eletrônicos atualmente na internet. O que fiz foi o seguinte: ** Selecionei os dois grandes jornais do país com arquivos na internet, um no município do Rio de Janeiro (O Globo – OG) e outro de São Paulo (Folha de S.Paulo – FSP). ** Realizei uma busca nesses jornais, em um período de dois anos (1/3/2000-1/3/2002), de todas as reportagens que incluíram a palavra "homeopatia". ** A seguir, classifiquei as reportagens em: a) Favoráveis: referências diretas aos benefícios da homeopatia, divulgação de "eventos científicos" homeopáticos ou da oferta de serviços de homeopatia em um contexto de aprovação. b) Neutras: reportagens em que a homeopatia era apenas mencionada, sem maiores comentários, reportagens em que uma opinião favorável era imediatamente contraposta a uma desfavorável. c) Desfavoráveis: o oposto de a) Excluí as menções à homeopatia fora de seu contexto próprio, ou seja, em que ela aparecia como mera figura de linguagem, por exemplo: "[Osama bin Laden] …destruiu a técnica com a técnica, numa homeopatia apocalíptica" (Arnaldo Jabor, OG18/12/2001). O que encontrei está no quadro abaixo.
Vale aqui analisar por que um dos jornais parece mais entusiástico do que o outro em relação à dita cuja. Registro abaixo as piores menções à homeopatia que consegui encontrar (não que isto seja muito trabalho): 1) "A fusão fria numa garrafa térmica, os remédios evanescentes da homeopatia… e outros atos de ciência estranha." (FSP 10/12/2000 – um comentário sobre o livro The undergrowth of science, que analisa casos de "ciência patológica"). 2) "… meu filho se curou de asma com medicamento homeopático", é um exemplo, que ouvi recentemente. É perfeitamente possível que isso tenha acontecido… Há doenças que se curam sozinhas. Outros fatores, como o chamado efeito placebo, podem ter afetado o tratamento." (FSP 11/11/2001 – mais um bom texto de Ricardo Bonalume Neto, tratando da acupuntura e referindo-se tangencialmente à homeopatia). Em termos de menções favoráveis, para poupar o leitor basta dizer que, nesta breve pesquisa, foram encontradas reportagens afirmando que a homeopatia é capaz de tratar com sucesso a dengue, infecções urinárias, infecções recorrentes, "doenças crônicas", "remissão de certos sintomas", alergias, diabetes, ansiedade, estresse, "equilíbrio emocional" (em pessoas e em cães), gripe, resfriado, reumatismo, TPM, Aids, enxaqueca, pneumonia, asma, tosse, infecções de garganta, "desconforto respiratório", problemas de pele, gastrenterite, azia, vômitos, "mais indicado (para) tratar os animais", "curas consideradas inacreditáveis", febre, frigidez feminina ("mas não funciona em todas") e cólon irritável. Até que não está nada mal, para quem sofre de "… vários entraves ao ser apresentada à população". (As datas das reportagens pesquisadas podem ser obtidas comigo no endereço eletrônico abaixo). Quando a história da pseudo-ciência brasileira for contada, um capítulo de ouro será para o papel da mídia na disseminação do charlatanismo, da fraude científica e da auto-ilusão bem-intencionada (pelo que percebo, encaixo a homeopatia neste terceiro item). Outro capítulo teria que ser reservado à omissão das entidades de classe e de defesa do consumidor, mas é melhor encarar um diabo de cada vez, que o bicho é feio. Agora, considere-se o que escreveu Graciela Pagliaro: "… a ausência de visibilidade de suas práticas e seus resultados"; Ora, faça-me o favor. Como se vê, quem necessita de visibilidade são as poucas, esparsas vozes que se opõem ao poderio homeopático, e que até o momento quase que só dispõem de veículos alternativos para tal (com minhas desculpas a este Observatório). (*) Professor da Coppe/UFRJ; e-mail <rmvrahtm@hotmail.com> Leia também Questão de efetividade– Graciela Pagliaro | ||||||||||||||||