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OFJOR CIÊNCIA
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CARTAS
RUPPERT SHELDRAKE
Ainda o mistificador
Gostaria de fazer alguns comentários ao texto de Roberto M. Takata sobre Rupert Sheldrake.
Não entendi a afirmação: "Com apoio em Aristóteles mandou-se muita gente à fogueira por desafiar o modelo heliocêntrico e outros dogmas". Ele não terá querido se referir, na verdade, ao modelo geocêntrico?
Em outro momento: "Com apoio em Aristóteles, Sheldrake diz que as pessoas podem perceber sem ver que outras pessoas as observam" – falando que o ato de ver não é passivo, mas envolve a emanação de algo de volta do objeto". Ele não terá, na verdade, querido dizer que "o ato de ser visto/observado" é que não é passivo? Afinal, o ato de ver não é mesmo passivo!
Por fim, o comentário irônico sobre o fato de Sheldrake agora defender a idéia de que cães e gatos possuem "poderes paranormais". Não sou fã de Sheldrake, li muito pouco dele, acho muitas de suas colocações muito fantasiosas (como aquelas sobre a chamada "ressonância mórfica"). Entretanto, a resenha que li sobre o recente livro em que Sheldrake trata da percepção desses animais não me passou a impressão de que o assunto seja tratado pelo prisma do "sobrenatural". É mais do que sabido que os sentidos, nesses animais, são muitíssimo mais apurados que no ser humano. Eu mesma tive a experiência de conviver com uma cadela (já morta, infelizmente) que "pressentia" com razoável antecedência a chegada de minha irmã, vinda da faculdade. Seu comportamento mudava cerca de meia hora antes e ela se punha a postos na porta de casa (e o horário de minha irmã nem sempre obedecia a uma regularidade).
O autor Roberto M. Takata afirma que gostaria que menos pessoas lessem Sheldrake... Seria interessante recomendar, então, que mais gente lesse o neurologista Oliver Sacks. Seus relatos nos dão (e a ele também) uma medida assustadora do quanto desconhecemos sobre nossa própria capacidade sensorial e mental. Como o caso de uma mulher cujo distúrbio cerebral fazia com que antecipasse/invertesse a seqüência de imagens de determinado ato em relação a uma pessoa dita "normal" (caso descrito, se não me engano, no livro A ilha dos daltônicos). Significa que, enquanto Sacks assistiu a alguém pegando um fósforo, riscando-o e acendendo-o, ela viu isso acontecer de trás para a frente! Ou seja: sua percepção do "quadro" final era muitíssimo mais rápida do que a de uma pessoa "normal".
Como podemos afirmar que dominamos os processos mentais deste ou daquele animal? Termino citando Fernando Pessoa, em um poema que nos dá a medida de nosso grau de desconhecimento e arrogância:
"Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é o desconhecido? O que é que tu conheces para que venhas a chamar "desconhecido" a qualquer coisa em especial?"
Isabel Rebelo Roque
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