OFJOR CIÊNCIA

OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.


CARTAS

RUPPERT SHELDRAKE
Roberto Takata responde

Isabel, obrigado pelas observações. O tema foge bem ao ponto central de minha, por assim dizer, critica, mas debatamos.

Sobre o modelo heliocêntrico tem toda a razão: deveria ser modelo geocêntrico.

Em relação à frase: "Falando que o ato de ver não é passivo, mas envolve a emanação de algo de volta do objeto" – bem, existem lá as distinções semânticas entre ver e olhar (ou enxergar). Se formos seguir isso à risca, sim, a frase estará errada. Então deixe-me (tentar) consertar.

Sheldrake dizia que o ato de olhar não envolvia apenas a recepção da luz emanada/refletida pelo objeto que se observa, mas que ao mesmo tempo havia uma emanação do observador de volta ao objeto observado. (O processamento da informação, tanto quanto sabemos hoje, não é mesmo passivo" – nem poderia ser" – conforme alertou-nos.)

O Sr. Ulisses Capozoli, em sua resposta, também apontou para a questão do sobrenatural no meu comentário sobre cães e gatos. Devemos ter em mente que os parapsicólogos, em geral, não encaram a Parapsicologia como o estudo do sobrenatural, mas sim do paranormal" – que, para muitos, seria sim uma instância de eventos naturais. O objetivo deles (que até hoje não foi alcançado) é exatamente trazer sob a luz da ciência tais fenômenos. (Opinião pessoal: o objetivo é nobre, mas tanto quanto se sabe condenado a não ir além de boas intenções.)

Não farei maiores ilações sobre o seu depoimento pessoal em relação ao seu animal de estimação. Apenas que devemos ter cuidado com a nossa própria projeção (nada a ver com as emanações acima referidas) em relação ao comportamento alheio. Essas coisas são curiosas? São. Merecem estudos mais aprofundados? Talvez (e não brigarei com quem disser: "certamente"). Mas existe uma diferença entre estudar um fenômeno, tentando estabelecer se ele é bem fundamentado ou não e sair por aí propalando coisas em função de uma coleção de casos anedóticos. Ciência não é isso. Sheldrake leva a crer o contrario. Daí eu considerá-lo uma fonte inadequada de informação: um mistificador. (Não que importe, na verdade, às pessoas o que eu considero ou deixo de considerar.)

Falando em depoimento pessoal, há pouco contatei Sheldrake via o sitio que ele mantém na rede. A resposta foi mais ou menos assim: "Obrigado por nos perguntar. A resposta à sua questão você pode encontrar no meu livro X."

"É só isto, e nada mais" – Fernando Pessoa (falando nele) em sua magistral tradução de "The Raven", do também magistral Edgar Alan Poe.

E se me permite a emenda ao excerto do poema de Álvaro de Campos (ou era Alberto Caieiro?)/ Fernando Pessoa que reproduziu:

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?

Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,

Torna-te parte carnal da terra e das coisas!

Dispersa-te, sistema físico-químico

De células noturnamente conscientes

Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,

Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,

Pela relva e a erva da proliferação dos seres,

Pela névoa atômica das coisas,

Pelas paredes turbilhonantes

Do vácuo dinâmico do mundo..." ("Se te queres").

Embora eu pessoalmente prefira este excerto do Fernando Pessoa, o ortônimo:

"Por que pois buscar

Sistemas vãos de vãs filosofias,

Religiões, seitas, [voz de pensadores],

Se o erro é condição da nossa vida,

A única certeza da existência?

Assim cheguei a isto: tudo é erro,

Da verdade há apenas uma idéia

À qual não corresponde realidade.

Crer é morrer; pensar é duvidar;

A crença é o sono e o sonho do intelecto

Cansado, exausto, que a sonhar botem

Efeitos lúcidos do engano fácil

Que antepôs a si mesmo, mais sentido,

Mais [visto] que o usual do seu pensar.

A fé é isto: o pensamento

A querer enganar-se-eternamente

Fraco no engano, [e assim] no desengano;

Quer na ilusão, quer na desilusão."

["O horror de conhecer"]


Não sei se desfaço a impressão de arrogante que pareço ter-lhe causado. (Mas o culpado sou eu pela muquiranice, fui economizar espaço – logo na internet, muquirana e burro – evitando entrar em detalhes – muquirana, burro e... ah, deixa pra lá.)

Completando, ao chamarmos algo de desconhecido é preciso estarmos certos de que pelo menos esse algo exista. Se desconhecemos a própria existência desse algo, não é justo reinvindicar-lhe um status de realidade. E isso é mais do que simples jogo de palavras como, pode parecer à primeira vista: é uma regra básica de pesquisa – cientifica ou jornalística. Do contrario será tão somente o boato, a lenda, a anedota.

Quanto aos livros:

Do Oliver Sacks ainda não posso falar nada, está nos meus planos, mas ainda não li. (Um antropólogo em Marte, Cia. das Letras, 1995, 360 pp. O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, Cia. das Letras, 1997, 264 pp. A ilha dos daltônicos, Cia. das Letras, 1997, 284 pp.)

Tem o Steven Pinker, que também não li ainda (Como a mente funciona, Cia. das Letras, 1998, 666 pp.).

Antônio Damásio (posso recomendar O erro de Descartes, Cia. das Letras, 1996, 336 pp.).

Mas o que teria mais diretamente a ver com o tema não seriam esses livros sobre o funcionamento da mente, e sim um sobre o funcionamento dos processos científicos: Carl Sagan, O mundo assombrado pelos demônios, Cia. das Letras, 1996, 446 pp. (R. T.)


Leia também

Mistiticador bem-intencionado – Roberto Mitsuo Takata



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