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ANALFABETISMO CIENTÍFICO
Retorno ao obscurantismo
Ulisses Capozzoli (*)
Em seu último livro publicado em vida, O mundo assombrado pelos demônios – A ciência como uma vela no escuro, o astrônomo e divulgador científico americano Carl Sagan lamenta a condição da ciência em relação à religião.
Mais de 300 anos depois da publicação dos Principia, onde Isaac Newton apresenta seu princípio da gravitação, e com isso literalmente chuta o traseiro dos demônios do obscurantismo, acenando com um tempo mais luminoso, a leitura das páginas dos jornais ainda é profundamente desalentadora.
No sábado, 17 de agosto (pág. C6), a Folha de S. Paulo informava que "a fé em Nossa Senhora de Fátima tem levado moradores de Nova Odessa (a 126 quilômetros de São Paulo) a consumir água de uma mina contaminada por coliformes fecais e nitrato, segundo laudo da Secretaria de Estado da Saúde." Assim, a água é uma séria ameaça à saúde. Antes disso, numa romaria de desesperados, que ainda não terminou, milhares de pessoas se amontoam em frente a uma casa num bairro periférico de São Paulo, onde uma imagem formada num vidro de janela, por defeito de fabricação, uso de material de limpeza ou uma série de outras razões banais, foi interpretada como sendo de Nossa Senhora.
É uma reação fácil interpretar o comportamento das pessoas como de "pura ignorância", o que não deixa de ser verdade. Mas não vai ao fundo da questão e também não acena com qualquer alternativa.
A "globalização", termo controvertido para se referir a uma nova fase do padrão de acumulação, em que tudo o que conta é o dinheiro, sem qualquer consideração por valores humanos, como se nossa espécie fosse representada por um Homo economicus, em vez do Homo sapiens, certamente tem relação íntima com este recuo às trevas.
Danosa visão reducionista
Retornando a Sagan, em O mundo assombrado pelos demônios pode-se ler que a ciência ainda não conseguiu sensibilizar a sociedade humana para suas perspectivas. E isso apesar de, em quase todos os sentidos, vivermos num mundo construído pela ciência.
Aí está, com todas as letras, o que se pode chamar de analfabetismo científico, num sentido amplo, uma dificuldade ou completa incapacidade de se tirar partido de uma sistematização do conhecimento baseada na previsão/observação dos fenômenos do mundo. Por descaso, inconveniência ou pura impossibilidade perceptiva.
Antes da gravitação universal, todas as vezes em que um cometa despontava no céu anunciava o terror. Há 300 anos ou mais, as máquinas construídas pela Revolução Industrial ainda não embaçavam o céu com sua fuligem. Nas noites transparentes de escuridão, sem iluminação elétrica e com população vivendo majoritariamente nos campos, qualquer alteração perceptível no céu era acompanhada por multidões.
Quando um cometa se anunciava, os sinos das igrejas tocavam e os ricos e poderosos, com suas consciências pesadas, procuravam abrigo nos templos, doando parte ou quase tudo o que tinham para aplacar o que julgavam uma fúria dos deuses. A igreja cristã sempre aceitou esses bens de braços abertos, mesmo que se estivesse perto do fim do mundo.
Não há razão para se pensar que os miseráveis também não levassem seus tributos aos deuses intermediados pela igreja. Mas o que tinham a oferecer era pouco representativo, embora, em muitos casos, as consciências individuais, por diferentes razões, pudessem pesar tanto ou mais que a dos poderosos da época.
Ao anunciar a gravitação universal, Isaac Newton acenou com um novo tempo. A gravidade, ação de forças a distância, proporcional à massa dos corpos considerados, dava inteligibilidade, beleza e harmonia ao que, antes, parecia ameaça de doenças, guerras e destruição.
Pode-se dizer que o povo, iletrado, não teve acesso às descobertas de Newton, o que é apenas parte da verdade. O povo não teve contato direto com o princípio da gravitação, mas respirou uma atmosfera nova, o que significa que, a partir de uma perspectiva de história da ciência, participou desta síntese. Joaquim Barradas de Carvalho, historiador português que se refugiou no Brasil durante a longa ditadura portuguesa de Salazar, sustenta que Newtons e Galileus não existem ao acaso, mas resultam da fermentação social de uma época.
E aqui talvez valha a pena considerar que o trabalho de Newton não livrou a todos do obscurantismo medieval. Cartesianos reagiram em bloco ao que chamaram de "magia" para interpretar a gravitação universal. Habituados a um mundo de mecanismo de relojoaria, com um sem-número de engrenagens rodando para movimentar planetas e cometas entre outros corpos, não se deixaram sensibilizar pela idéia de forças agindo a distância.
Isso apenas para registrar que analfabetismo científico não é característica de leigos, e que acadêmicos estejam, necessariamente, munidos de anticorpos capazes de reagir a essa condição. No passado, como hoje, uma visão reducionista da ciência é tão danosa quanto a ignorância pura e simples de qualquer princípio racional que dê sentido ao mundo.
Apagão literal e metafórico
O que empurra multidões na direção do obscurantismo religioso, hoje, é a miséria econômica. Falta de perspectiva de empregos, assistência médico-social e a desestruturação emocional produzida por essa realidade, aliada à falta de educação formal e à exploração religiosa como um novo e rentável ramo de negócios.
A televisão é o novo púlpito de espertalhões e espertalhonas de todos os credos. Uma zapeada pelos canais por assinatura, até recentemente menos sórdidos que os canais abertos, é a melhor prova disso. A julgar pelos trejeitos e pelo conteúdo do que se diz, não escapa ninguém. A começar dos padres-cantores, uma praga que se manifesta de tempos em tempos, aos novos fundamentalistas, com suas pregações histericamente teatralizadas.
Sagan previu a emergência de uma religião lastreada em ciência. Baseada em descobertas científicas, mas sem ser ciência, como uma nova modalidade de exploração de crédulos e/ou céticos que, dependendo da intensidade de seus pressupostos, confundem-se num bloco único. Como ocorreu com os cartesianos à época de Newton.
A religiosidade, defendeu, entre outros, Albert Einstein, é uma característica humana. Mas não pode, sob pena de se estar manipulando despudoradamente os fatos, ser confundida com atrelamento a padres, pastores, papas ou quem quer que seja, em termos de autoridade religiosa. No sentido a que se referiu Einstein, a religiosidade é a expressão de uma dimensão metafísica percebida pela mente humana. Antropólogos sustentam que o enterro dos mortos cercado de rituais, há 60 mil anos, é parte deste antigo legado humano.
O que pode tirar um número crescente de pessoas do desatino religioso (para não falar da violência) e permitir que desfrutem da cidadania, do prazer de estar no mundo e da dimensão lúdica da ciência?
A educação é a única perspectiva ao alcance da visão. Mas também aí não é nada fácil. As novas regras da globalização erigiram o mercado como o bem maior, e em países como o Brasil a universidade pública está seriamente comprometida. A situação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que teve o fornecimento de energia elétrica cortado nos últimos dias por falta de pagamento, é uma evidência dessa situação. É a ameaça da escuridão ao pé da letra, depois dos apagões do ano passado, insinuando-se no cotidiano de cada um. Há, metaforicamente, um inequívoco retorno às cavernas.
Tudo muda no Universo
Com as universidades públicas sendo desmanteladas, sob o argumento de que o Estado não tem obrigação de prover a educação da sociedade, que paga impostos para isso, as escolas particulares se reproduzem como coelhos. E o aumento da oferta é inversamente proporcional à qualidade da educação oferecida.
E continua, quase como no passado, uma influência nefasta das igrejas. A católica, com seu rebanho rareando pelas deserções, especialmente na década passada, retoma a agressividade que nunca perdeu, disfarçada da mais cândida ternura. Ao se referir a fenômenos histéricos como a janela de vidro da casa na periferia da capital, ou à corrida à gruta com água contaminada no interior do estado, a igreja tem posição convenientemente dúbia. A sempre crítica Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por exemplo, sempre disposta a dizer o que as pessoas devem fazer em suas vidas, em quem e como devem votar, olimpicamente não se manifestou sobre o caso noticiado pelos jornais referente à gruta de água contaminada em Nova Odessa.
Além disso, as igrejas insistem em posições superadas, como a condenação ao uso de preservativos sexuais, a resistência a planejamento familiar e outras questões fundamentais, nas quais fica evidente a irresponsabilidade e o anacronismo da visão que têm do mundo.
O papa sobrevive em lenta agonia, enquanto a sua volta a luta pela sucessão, como num partido profano, é sórdida e cruel. A custo, no entanto, a sociedade mudou. E as liberdades sexuais já não compactuam com antigas violências. Religiosos estupradores, como o padre Divino Batista de Oliveira, acusado de abusar sexualmente de seis meninas nas proximidades de Guaxupé, Sudoeste de Minas, outra das notícias das edições do sábado, agora são alvos da Justiça,
De alguma maneira tudo muda e se materializa na história. Talvez não na velocidade, intensidade e direção com que possamos sonhar. Como disse Einstein, não existe nada paralisado no Universo.
(*) Jornalista, mestre em Ciências pela USP, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo científico (ABJC) e editor de Scientific American Brasil
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