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JORNALISMO AMBIENTAL
Ascensão e queda do verde na mídia
Cintia Rygaard (*)
"O profissional de imprensa do futuro não poderá ser mais um mero transmissor de notícias, mas um ser humano que, tão sensível e vulnerável feito uma árvore ou um passarinho, possa pensar globalmente e agir localmente em defesa de sua sobrevivência como espécie vivente." Hiram Firmino, editor do JB Ecológico (Retirado da monografia Ecojornalismo Impresso, de Jairo Nether, página3, 1998).
Logo que terminou a Eco92, a rotina das empresas de comunicação voltou ao normal, e a diminuição das matérias sobre meio ambiente foi drástica. O espaço encolheu, as abordagens tornaram-se esporádicas, e somente diante de problemas de grande impacto. A problemática verde, quando trabalhada pela grande mídia, não tem o tratamento adequado, o que provoca um desvio da informação correta, responsável e respaldada sobre o que ocorre com o meio ambiente. São comuns notícias sobre meio ambiente "viciadas", ou seja, expostas de modo desconexo e desprovidas das interrelações com a esfera sócio-político-econômica. A maior parte dos veículos de comunicação, hoje, é composta de empresas comerciais, voltadas para o lucro, trabalhando seu espaço físico em função de anúncios e subjugando o conteúdo à publicidade, o que dificulta o desenvolvimento da cultura do jornalismo investigativo na área ambiental. E, como os temas são complexos e demandam algum conhecimento científico prévio, fica complicado trabalhar o assunto.
Vilmar Berna, em seu artigo "Comunicação ambiental para a parceria", externa sua preocupação com o problema no seguinte trecho:
"O que há por trás desse pouco caso de nossa imprensa com as questões ambientais? Parece que o jornalismo brasileiro tem vergonha da especialização do profissional, talvez para não ter de pagar mais por ela. Uma pena. Boa parte do que se publica sobre meio ambiente aborda mais o lado físico, científico, como se fosse deliberado evitar o caráter político da questão. As matérias sobre meio ambiente, atualmente, mais parecem calhaus (termo do jargão jornalístico para designar matéria sem importância usada para ocupar espaço). No dia seguinte ao encontro dos ambientalistas com Fernando Henrique, por exemplo, um grande jornal carioca publicou matéria de meia página sobre dinossauros na seção dedicada a meio ambiente. Nada sobre o encontro das ONGs com o presidente. E pior. Nas demais matérias publicadas, pareceu que o importante não eram os fatos, mas a versão sobre eles, pois publicaram-se informações que nem de perto foram tratadas na reunião, como a de que as ONGs pediram R$ 470 milhões para o Rio 2004. A reclamação de uma mulher que teve seu carro arranhado pela comitiva presidencial recebeu mais atenção do que a Mata Atlântica, tema do evento."
A ausência da relação do meio ambiente com os problemas enfrentados diariamente pela população, como o saneamento básico, criam a falsa idéia de dissociação entre meio ambiente e utilidade pública, ou seja, o lado social. As matérias que são vistas na grande mídia, atualmente, são superficiais, não se explicam os "porquês" dos problemas, tampouco as soluções nem as formas de evitá-los. O fluxo dessas informações ambientais, que deveria ser permanente, é fragmentado, descontínuo e completamente não-linear. Segundo Roberto Villar, "com a entrada das empresas na cena ambiental, os jornais voltaram a tratar da questão ambiental mas, infelizmente, pelo viés meramente econômico, pautados pelo mercado, para dizer que meio ambiente dá dinheiro. Acabou havendo uma simplificação de um tema complexo".
Essa deficiência se deve a muitos fatores: o pequeno tempo de apuração dado a repórteres sem bagagem especializada para interagir com os termos científicos que colhem, o que dificulta o entendimento para o receptor quando for ler a matéria. De acordo com Roberto Villar, "as matérias ambientais não saem mais pela falta de iniciativa do jornalista em redação do que por um boicote planejado de editores. Uma boa matéria sempre é publicada. Acho que a culpa é dos repórteres que não propõem a pauta e dos editores que não abrem espaço para meio ambiente entre as prioridades do veículo. O lado econômico é outra barreira. Se tem anunciante envolvido na matéria, ela tende a ser engavetada". (Em entrevista à autora em 4/6/02)
Outro ponto essencial é o "desprezo por parte das agências de publicidade do segmento meio ambiente na imprensa, apesar de o setor ambiental movimentar hoje milhares de dólares", diz Vilmar. "As agências de publicidade não têm uma cultura ambiental, esquecem que o formador de opinião ambientalista é o contraponto da empresas na mídia." Para Vilmar, "falta uma política de comunicação direcionada, pois as verbas de anúncios acabam desperdiçadas".
Percebe-se a necessidade de uma renovação na postura profissional dos atuais e dos novos jornalistas, para que entendam a problemática ambiental como uma questão de cidadania, como algo que deve ser respeitado, pois é do equilíbrio que depende a vida na Terra. Esses profissionais têm a responsabilidade social de difusores de uma nova postura ética do homem em relação à natureza. Porém, com o crescimento da discussão ambiental em todos os setores da sociedade, é da competência das empresas de comunicação prestarem informações devidamente respaldadas e confiáveis para ajudar a formar a opinião da sociedade. Assim, bem informada e com senso crítico aguçado, ela exercerá de forma mais plena sua cidadania no Brasil.
Que se consolide o jornalismo ambiental nacional para que tenhamos informação e poder de cobrança para defender o imenso patrimônio natural que pertence ao povo brasileiro. Afinal, precisamos de uma sociedade bem informada e capaz de pressionar o governo pela força da mobilização da opinião pública, sendo o jornalista ambiental peça fundamental, estratégica nessa luta. Precisamos ter competência suficiente para defender a Amazônia, por exemplo, que já é a última grande floresta tropical do mundo. E já tem gente lá fora querendo "internacionalizar" nossa floresta.
Código de Ética da Associação Brasileira de Mídias Ambientais (Ecomídias)
1) O direito a um ambiente limpo e a um desenvolvimento sustentável é fundamental e está intimamente ligado ao direito à vida, à saúde e ao bem-estar de todos. O jornalista ambiental deve informar ao público sobre as ameaças ao ambiente – no nível global, regional, nacional ou local.
2) Freqüentemente, a mídia é a única fonte da informação para as pessoas interessadas em meio ambiente. É dever do jornalista aumentar a consciência destas pessoas nos noticiários que tratam do meio ambiente. O jornalista deve esforçar-se para relatar diversos aspectos e assuntos relacionados com o meio ambiente.
3) Informando ao público, o jornalista desempenha papel vital, permitindo às pessoas recorrer à ação para proteger o meio ambiente. O dever do jornalista está não somente em alertar as pessoas sobre os perigos que a cercam, mas também de acompanhar tais ameaças e em mantê-las informadas sobre as ações tomadas para resolver os problemas. Os jornalistas devem também tentar realizar reportagens que apresentem soluções possíveis para os problemas ambientais.
4) O jornalista não deve ser influenciado por interesses comerciais, políticos, governamentais ou não-governamentais. O jornalista deve manter distância de tais interesses e não ser um aliado deles. Como regra geral, os jornalistas devem dar espaço a todos os lados envolvidos em todas as controvérsias ambientais que estiver cobrindo.
5) O jornalista deve manter o máximo de isenção possível, citar as fontes da informação e evitar o comentário especulativo ou alarmista, bem como a reportagem tendenciosa. A verificação das informações das fontes deve ser feita sempre pela técnica de cruzamento, seja uma fonte comercial, oficial ou não-governamental.
6) O jornalista do ambiente deve promover a igualdade no acesso à informação e ajudar organizações e indivíduos a recebê-la. A recuperação eletrônica dos dados é uma ferramenta útil e igualitária neste ponto.
7) O jornalista deve respeitar o direito à privacidade dos indivíduos afetados por catástrofes ambientais, por desastres naturais e também quando assim desejarem, em qualquer caso.
8) O jornalista do ambiente não deve hesitar em corrigir uma informação que acreditava estar correta e na verdade estava errada, ou tentar mudar a opinião pública com análises à luz de conhecimentos futuros. [Fonte: Jornal do Meio Ambiente, página 12, agosto de 2002]
(*) Jornalista ambiental; o texto integral desta monografia está no Banco de Teses e Monografias do site <www.jornaldomeioambiente.com.br> e também em <www.jornalismoambiental.jor>
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