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CIÊNCIA HOJE
Vinte anos de uma brava revista

Bruno Dorfman Buys (*)

Em evento na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio de Janeiro (segunda-feira, 12/8), a SBPC comemorou os 20 anos de circulação da CiênciaHoje, a mais antiga revista de divulgação científica brasileira. O ato contou com a participação de jornalistas, escritores e cientistas envolvidos com divulgação de ciência. A presidente da SBPC, professora Glaci Zancan, deu as boas-vindas aos presentes e anunciou os premiados com a medalha "CiênciaHoje".

Fritz Utzeri, jornalista e colunista do Jornal do Brasil, Moacyr Scliar, médico e escritor, e Evandro Mirra, presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) foram os palestrantes da mesa-redonda "Ciência na formação da cultura brasileira", coordenada por José Murilo de Carvalho, historiador e professor da UFRJ.

Nas intervenções que se seguiram, a tônica predominante foi de crítica à era FHC e os males que trouxe para a ciência e a tecnologia no país. A revista CiênciaHoje, segundo seus idealizadores, é um sucesso não só pelos resultados obtidos, como pelo fato de ainda estar viva depois de 20 anos de dificuldades.

Fritz Utzeri, primeiro a falar, contou em uma breve autobiografia como o jornalismo entrou em sua vida, ainda quando estudante de medicina, nos jornais do movimento estudantil. Depois de formado foi procurar emprego como jornalista, numa época em que não se cobrava títulos de bacharel em jornalismo para o exercício da profissão.

Criticou duramente a campanha política das eleições atuais, na qual, segundo ele, não se viu ainda candidato algum colocar em debate a questão da ciência e tecnologia brasileiras. Utzeri ressaltou o desserviço feito pela era FHC à ciência e tecnologia no país. Segundo o jornalista, o dilema que o Brasil enfrenta no futuro é "se seremos operadores cegos de caixas-pretas importadas, meros adequadores de tecnologias estrangeiras, ou se seremos criadores de algo novo".

Moacyr Scliar, também médico, contou um pouco de sua vida pessoal ressaltando que, em sua prática profissional de médico sanitarista, sempre procurou esclarecer conceitos e técnicas da medicina aos seus pacientes e pessoas próximas, considerando esta atitude necessária ao bom andamento do trabalho – ou seja, a divulgação científica como parte da atividade profissional, e não um hobby de horas vagas. Criticou a política científica de FHC e ressaltou que a educação fundamental, tão propagandeada pelo governo federal, hoje em dia não educa ninguém e nunca esteve tão ruim.

Da parte deste observador, saltou aos olhos que o único veículo presente ao evento tenha sido a TV Futura. Nenhum outro se interessou em cobrir a comemoração, apesar da concentração de cientistas brasileiros ilustres ali presente. Crodowaldo Pavan, um geneticista da era de ouro da genética, que trabalhou com Theodosius Dobzhansky; Ângelo Machado, fisiologista e entomologista, professor da UFMG e autor de livros infantis – só para citar dois, omitindo vários outros.

Patrimônio cultural

A revista CiênciaHoje é um patrimônio cultural da ciência brasileira. É uma das várias formas de a comunidade científica prestar contas dos avanços da pesquisa, mostrando em uma linguagem adequada as descobertas, os desafios e os prazeres de se fazer ciência. Ainda mais num país onde fazer ciência parece ser sinônimo de ir contra a maré.

A revista tem ainda as versões online <http://www.uol.com.br/cienciahoje/> e a Ciência Hoje das Crianças, que apresenta ciência em uma linguagem ainda mais especial.

Porém, um visitante de Marte que pousasse na Terra poderia, ao ler a CiênciaHoje e outras revistas de divulgação científica, pensar que tudo vai bem com a ciência brasileira. Nada mais equivocado! Quanto mais ciência e tecnologia são necessárias para construir o futuro, menos os governos brasileiros investem no setor, convencidos de que tecnologia se compra lá fora. Nossas universidades públicas (que são a sede principal do sistema científico) nunca estiveram tão desassistidas quanto agora.

O crescimento da divulgação científica no Brasil decorre, não só mas também, do diagnóstico de que é necessário dar contrapartidas à sociedade da pesquisa que é feita com verba pública nas instituições públicas. E quanto a este assunto, CiênciaHoje detém sem dúvida uma posição de liderança. Que venham 20 anos a mais, com muita crítica, ciência e informação.

(*) Biólogo; e-mail <brunobuys@zipmail.com.br>

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