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ONU & POPULAÇÃO MUNDIAL
A imprensa e a volta de Malthus

Mônica Macedo (*)

Qual é o impacto da população mundial sobre o planeta? Para a Reuters e a Associated Press (AP), bem como para a Folha de S.Paulo e Gazeta Mercantil, que reproduziram seus textos, a resposta é: "AMEAÇADOR"!

Gente demais! Esta é a explicação que, segundo esses veículos, sobressai do último relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a população mundial [veja íntegra abaixo]. É a velha tese malthusiana [Thomas R. Malthus, 1766-1834] que, na versão das agências e dos jornais, ressurge com plena força.

No texto de Ed Johnson, da AP, publicado pela Gazeta Mercantil (8/11/01, pág. A10) sob o título "Técnicos temem uma explosão demográfica", afirma-se:

"Um relatório elaborado pela ONU (...) alerta o mundo para a ameaça de uma explosão populacional. (...) O aumento da população e do consumo vai [sic] afetar muito o planeta, numa ‘escala sem precedentes’, degradando o solo, poluindo o ar e a água, derretendo as calotas polares e destruindo os habitats naturais."

O texto é acompanhado por um gráfico intitulado "A explosão", com o crescimento da população mundial entre 1750 e 2050 (projeção) aparecendo numa escala ascendente, em colunas.

Já na Folha (7/11/01, pág. A16), que publicou texto de Jeremy Lovell (Reuters), o foco do problema é a escassez de água doce. Sob o título "População esgota água doce, alerta ONU", declara-se:

"A população mundial está esgotando os recursos do planeta num ritmo (...) que precisa ser contido rapidamente para evitar um desastre global, em especial com a escassez de água. (...) O relatório [da ONU] afirma que a água está sendo usada e poluída a taxas catastróficas."

A matéria vem acompanhada do gráfico "Planeta seco", que mostra a disponibilidade de água nos diferentes países do mundo em 1995 e 2025 (projeção) e traz pequenos textos de informação complementar, ressaltando em negrito o tamanho da população (em "bilhões" de pessoas!).

Em setembro de 2000, havíamos preparado um dossiê ["Água: abundância e escassez", disponível em <http://www.comciencia.br/reportagens/aguas/aguas01.htm>] para a revista Com Ciência sobre a questão da escassez de água doce no Brasil, mostrando, entre outros, que o problema da seca no Nordeste brasileiro poderia ser relativamente bem resolvido aproveitando-se melhor os aqüíferos da região, com a utilização de tecnologia relativamente barata e nacionalmente disponível. O problema da seca nordestina, claro está, é mais propriamente político do que técnico. A maior parte das considerações feitas no dossiê apontavam para a conclusão de que a pressão exercida pela população sobre os recursos naturais é relativa, pois interage com muitos outros fatores. De modo que topei com os textos acima com imediata desconfiança. Seria aquilo mesmo o que está dito no relatório da ONU?

Em primeiro lugar, já o release do relatório, em <http://www.un.org/News/Press/docs/2001/pop811.doc.htm>, denota maior ponderação. Diz-se lá que são ambos, o crescimento da população e o padrão de consumo, os causadores da degradação do planeta:

"Global poverty cannot be alleviated without reversing the environmental damage caused by both rising affluence and consumption and by growing populations, the report stresses. It calls for increased attention and resources to balancing human and environmental needs."

Indo ao relatório, o leitor nota uma mudança de tom, tanto no diagnóstico, quanto nas previsões alarmantes dos jornais. O controle de natalidade não é uma novidade que surge no documento de 2001. Mas este constata que as metas e compromissos assumidos por vários países na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD) de 1994 não vêm sendo cumpridos. Os fundos previstos, na época, para financiar a diminuição do ritmo de natalidade e reduzir a pobreza no mundo não foram repassados como deveriam ter sido. Com isso, os problemas aparecem claramente em 2001:

"Fertility declines have been slower than would be expected if more couples and individuals could have the family size they desire."

Mais do que isso, são os países desenvolvidos os principais culpados:

"Current resources for reproductive health and population programmes are well below the $17 billion the ICPD agreed would be needed in 2000. While developing countries are providing most of their two thirds share of needed resources, support from international donors is less than half of the $5.7 billion called for in 2000."

O que dizer diante de tais ponderações, que aparecem ao leitor que vai à fonte primária?

Os redatores da Reuters e AP e os editores da Gazeta e Folha, simplificando e generalizando um problema que é complexo e polêmico, apelaram para uma explicação que o próprio relatório da ONU rejeita:

"Population and the environment are closely related, but the links between them are complex and varied, and depend on specific circumstances. Generalizations about the negative effects of population growth on the environment are often misleading. Population scientists long ago abandoned such an approach, yet policy in some cases still proceeds as if it were a reality."

Não que esteja propriamente "errado" o que é dito nos textos daqueles jornalistas. As informações apresentadas estão, de fato, contidas no relatório da ONU. É mesmo possível que o relatório induza (ou, pelo menos, abra espaço para) a leitura de que "o tamanho da população mundial é a grande ameaça para o planeta". Meus conhecimentos do domínio não alcançam dar resposta a este problema. E seria muito bem-vindo que um especialista se pronunciasse (demógrafos, ecólogos, manifestem-se!).

De todo modo, o relatório da ONU não autoriza a ênfase no crescimento populacional como vilão da história. Ao selecionar um aspecto parcial de um problema complexo, o que se produziu foi uma generalização simplista e irresponsável. Irresponsabilidade agravada no caso de nossos jornais, que reproduzem textos das agências internacionais sem questionar o prato que já vem feito.

Esta é talvez a principal crítica deste meu comentário. A Folha de S.Paulo tem sido citada como "exemplo" de bom jornalismo científico, mantendo há tempos uma coluna diária com matérias de qualidade sobre o tema. Em parte, isto é verdade. Raramente, porém, as pautas saem fora do circuito "releases-de-grandes-revistas-científicas-ou-sites-de-divulgação-científica-internacionais". Trata-se de um procedimento profissional e competente, mas, ao mesmo tempo, muito cômodo (a distribuição das informações é muito bem organizada e facilita a apuração... quando há!). Comodismo que tem efeitos negativos para o jornalismo científico no Brasil, já que perpetua a hegemonia da ciência praticada nos países desenvolvidos e joga para escanteio o que se faz por aqui. Além disso, resta a (eterna) questão da confiabilidade. Reproduzir informações de fontes consagradas é seguro, mas nem sempre.

(*) Jornalista, editora-chefe da revista Com Ciência <www.comciencia.br>

Veja também

The State of the World Population 2001relatório da ONU sobre população mundial


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