| ||
|
OFJOR CIÊNCIA JORNALISMO CIENTÍFICOOs pecados do noticiário Rosane de Bastos (*)A origem do homem moderno é assunto para várias matérias veiculadas pelos meios de comunicação que parecem prestar mais um serviço de desinformação do que de informação. Num dia apresenta-se uma certa teoria que atribui nosso parentesco aos africanos. No outro, ela é contestada. Se os repórteres e seus editores levassem em consideração o fato de que a maioria dos leitores não é especialista em genética, e não é obrigada a saber que há mais de uma teoria sobre o assunto, quem sabe tentariam ser claros e didáticos. Presume-se, por princípio, que o jornalista, seja de que área for, deve cumprir sua função social de levar a notícia ao público com originalidade. Em 12 de janeiro de 2001, uma matéria na Folha OnLine trazia o título "Novo estudo contesta hipótese da origem africana do Homo sapiens". Ao descrever a opinião de um pesquisador norte-americano, contrária à hipótese da saída do homem moderno da África, o repórter parecia um ardoroso defensor da mesma. Logo no início, ele escreve: "Pesquisa que será publicada nesta sexta-feira desfere a segunda pancada da semana na sacrossanta teoria da origem africana". Depois: "A teoria, aceita pela maioria dos arqueólogos, já havia levado uma pancada três dias atrás". Uma outra matéria, "DNA reforça origem africana do homem", escrita para a Science Now e reproduzida em 14 de maio pela Folha de S.Paulo, era mais didática, com citações mais objetivas e menos entusiasmadas, e que deixam o leitor um pouco mais esclarecido. Pelo jeito, o que falta em boa parte dos jornalistas, científicos ou não, é perceber que, antes de produzir suas matérias, deveriam se lembrar de que não escrevem só para eles, mas para um Diferenças e incertezas No caso das matérias citadas, falta situar o leitor. Informar, a contento, que há duas hipóteses predominantes entre os cientistas de todo o mundo sobre a origem do homem moderno. Uma delas, conhecida como Out of Africa – ou saída da África –, tornou-se evidente na década de 80 e tomou força na década de 90 com o avanço da biologia molecular. As pesquisas revelam que há 120 mil anos africanos deixaram o seu continente e chegaram até o Oriente Médio, sem conseguirem se expandir além disso. Em uma segunda O sucesso da caminhada dos africanos se deu mesmo há 45 mil anos, quando se deslocaram da Ásia – o que permitiu que ocupassem todo o planeta. Nesse processo, eles teriam substituído por completo todas as populações das regiões por onde passaram. "Isso significa que realmente todos os humanos modernos que existem no planeta hoje são descendentes de uma população inicial de homem moderno, que surgiu na África e que foi se expandindo pelo planeta", explica o bioantropólogo e arqueólogo Walter Alves Neves, professor do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da Universidade de São Paulo (USP), que também estuda a população ameríndia. De acordo com a hipótese defendida por pesquisadores que refutam a Out of Africa, várias populações africanas migraram para os continentes, cruzaram-se com indivíduos que habitavam as regiões e isso resultou em diferenças genéticas. Desta forma, o homem moderno não é descendente do que saiu da África há 45 mil anos, mas se originou da mistura com inúmeras espécies, presentes em distintas localidades do planeta – o oposto à hipótese da monogênese africana. Para esses pesqusiadores, os africanos não substituíram as populações por onde caminhavam. O geneticista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Francisco Mauro Salzano, um dos pesquisadores brasileiros que estudam a variabilidade entre indivíduos e populações, principalmente a ameríndia, ressalta que, embora a hipótese do Out of Africa seja a mais próxima do que pode ter ocorrido, há dificuldades ainda não superadas para identificar se, realmente, nossa origem é africana. Entre elas estão a Informação de valor Ao analisar o material genético, localizado no núcleo das células, os pesquisadores se deparam com situações complexas, pois o conjunto de genes pode ter origem materna ou paterna. Há o cromosso sexual Y, que determina o sexo masculino, e é transmitido de pai para filho, e o DNA mitocondrial, que é herdado da mãe. Ocorre que os resultados obtidos com marcadores desses tipos, como explica o professor Salzano, são diversos. "A maioria dos pesquisadores, no momento, se inclina para a hipótese da saída da África, mas existe ainda um grupo considerável de outros investigadores que acham que a coisa não é tão simples assim", observa. O bioantropólogo Walter Neves reforça que, ao percorrer o planeta, o homem saído da África se adaptou a vários ambientes. Não se sabe se ele era negro ou se a cor surgiu mais tarde. É provável que fosse negro porque a África era tropical naquela época e os climas quentes favorecem a presença de mais melanina (o pigmento que dá coloração à pele), o que não se notava em regiões de clima frio. "Se essa hipótese do Out of Africa estiver correta, todos nós, de alguma forma, somos africanos. E isso não quer dizer que sejamos negros", informa o bioantropólogo da USP. Os estudos revelam que o homem que chegou às Américas também pode descender do mesmo que deixou a África há 45 mil anos. Saber da nossa origem de maneira educativa pelos meios de comunicação, da mesma forma como ser informado sobre os acontecimentos que envolvem a vida na Terra, é conseguir preparar crianças, jovens e adultos para terem uma visão mais ampla do que os cerca. As explicações dos dois professores mostram que há profissionais interessados em dar entrevistas e em divulgar suas pesquisas para o público. Basta que seja estabelecida uma (*) Aluna do Curso de Especialização em Jornalismo Científico do Labjor/Unicamp. | ||