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MICHAEL SHERMER
Sobre crédulos e céticos
José Colucci Jr. , de Boston (*)
Poucos se dão ao trabalho de estudar lógica, porque todos se concebem suficientemente versados na arte de raciocinar. Mas eu observo que essa satisfação é limitada ao próprio raciocínio, e não se estende ao de outros homens. (Charles Sanders Peirce)
Michael Shermer não é um pensador do calibre de Richard Dawkins, Jared Diamond, Massimo Pigliucci ou Paul Kurtz, só para citar alguns expoentes do ceticismo organizado. Não é e nunca afetou sê-lo. O que Shermer faz, e bem, é prover um contraponto para a crescente expansão da pseudociência e da superstição nos meios de comunicação. Com sua coluna na Scientific American, seus livros de divulgação e suas aparições na TV, Shermer convida a pensar criticamente sobre absurdos que, de tão repetidos, fazem o leitor desavisado supor se não teriam um fundo de verdade. Por essa razão, a entrevista com Michael Shermer na edição de 9 de Janeiro da Veja deveria ser comemorada como uma pequena vitória do racionalismo num país e numa publicação que não se têm norteado por este. Não foi o que fez Ulisses Capozoli, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo científico (ABJC).
No artigo "Ceticismo em excesso é uma forma de crendice", para o Observatório da Imprensa, edição de 16 de janeiro de 2002, Capozoli critica uma suposta receita de Shermer para dizer o que está certo e o que está errado no mundo da ciência. Reli a entrevista para ver se achava lá a tal receita. Não achei. A afirmação mais próxima disso, e ainda assim bem distante da interpretação do jornalista, dá-se quando Shermer diz que a ciência "tem características de autocorreção que operam como a seleção natural. Para avançar, a ciência se livra dos erros e teorias obsoletas com enorme facilidade."
Perdi a conta de quantas vezes ouvi dizer que é preciso ser cético com o ceticismo. Os proponentes desse metaceticismo acreditam estar sendo originais, quando estão sendo medievais. Literalmente. Santo Agostinho acreditou ter superado os acadêmicos, levando o ceticismo destes à última consequência, ao dizer "se duvido, no ato de duvidar tenho consciência de mim mesmo como o que duvida. Se me engano, sou, pois o que não é não se engana." Com a formulação si fallor sum, Agostinho antecipa Descartes em doze séculos. De maneira menos sofisticada, os críticos do ceticismo contemporâneo enchem a boca ao desfiar a lista histórica de erros e fanatismos cometidos em nome da ciência, como se tivessem descoberto o teorema de Gödel do método científico. Acusam os céticos de fanatismo ou, como fez o escritor Robert Anton Wilson, de instaurar a "nova inquisição". Inquisição que, se verdadeira, ainda procura o seu Torquemada. Mais delicados, mas não menos equivocados, são os que o associam ao reducionismo ou ao positivismo comtiano. Seria falta de intimidade com a filosofia da ciência, influência residual do relativismo cultural e do pensamento pós-moderno ou mero desconhecimento dos princípios do ceticismo contemporâneo?
A forma de ceticismo extremo criticada por Capozoli é aberrante. Será difícil encontrá-la hoje em cientista ou filósofo de expressão. Mais fácil, talvez, seja encontrá-la entre jornalistas e divulgadores. Criticando a fé cega na ciência, Capozoli diz: "a razão disso é que a ciência é uma atividade humana e não supra-humana como um ceticismo rasteiro sugere", para, logo a seguir, resvalar no mesmo ceticismo extremo que critica, dizendo "por isso mesmo, em última instância, não há garantia de nada, apesar de todo o esforço para se garantir do erro." Em deferência ao autor, prefiro atribuir essas observações ao descuido.
O novo ceticismo
O ceticismo contemporâneo, que Paul Kurtz chama de "novo ceticismo", é bem distante do niilismo ou ceticismo radical, e mesmo do "ceticismo mitigado" de Hume. Seus tutores filosóficos são Charles Sanders Peirce e os filósofos pragmatistas americanos. Em seu famoso "The fixation of belief", de 1887, Peirce mostra que os métodos usuais de eliminação da dúvida – a tenacidade, a autoridade e o a priori – são intrinsicamente instáveis, e rapidamente fazem ressurgir a dúvida que tencionavam eliminar. Peirce propõe que um método eficiente de fixação da crença deva ser buscado não em algo humano, mas em alguma permanência externa, algo sobre o qual o pensamento não tenha efeito. Já prevendo interpretações equivocadas, Peirce acrescenta "místicos imaginarão que têm um tal método na inspiração privada que lhes vem do alto, mas essa é apenas uma forma do método da tenacidade". O único método capaz de superar as nossas opiniões intelectuais, segundo Peirce, é o científico.
Peirce também disse que cientistas são criadores de ícones. Assim, toda a teoria científica é um modelo que representa alguns aspectos da realidade, e pode sempre ser suplantado por outra representação mais fiel. Exemplo de ícone: E= mc2. Pesquisadores não imaginam que todos os aspectos da realidade sejam capturados pela teoria, e entendem que suas formulações são necessariamente provisórias. O ceticismo é parte intrínseca do processo de investigação. O cientista parte da dúvida para chegar a uma certeza transitória, operacional, que permita agir sobre a realidade.
O prêmio IgNobel
Ulisses Capozoli menciona o Prêmio IgNobel – aquele outorgado a pesquisas que não podem ou não devem ser reproduzidas. O prêmio é realmente muito engraçado, e a fascinação da imprensa por ele compreensível, mas o jornalista científico deve entendê-lo pelo que é – uma boutade – e não imaginá-lo como promotor do bom senso científico. O IgNobel contempla tudo o que puder ser relacionado, ainda que remotamente, à ciência e servir de motivo para piada. Existem disparates bem mais sérios que não se prestam ao humor. Seria difícil fazer graça com erros cometidos num cálculo iso-matemático da mecânica hadrônica, por exemplo. Isso é tarefa para especialistas.
Há muito tempo o IgNobel deixou de premiar exclusivamente idéias ridículas de pesquisadores científicos e passou também a contemplar políticos, religiosos, pseudo-cientistas e exploradores da crendice pública. Foi assim que o IgNobel de química de 1998 foi para o homeopata Jacques Benveniste, pela descoberta de que a água não apenas tem memória (esse foi o prêmio de 1991), mas que essa memória pode ser transmitida por telefone e pela Internet; ou o prêmio de literatura em 2000 foi para a australiana Jasmuheen, que no livro "Living on Light" explica que é possível se alimentar de luz. Deveríamos convidá-la para um visita ao Brejo da Cruz. Desmascarar esses charlatães é uma função útil do IgNobel, embora haja injustiças na escolha dos premiados.
Pesquisadores sérios foram alvo da brincadeira só porque os organizadores do IgNobel preferiram ridicularizá-los a deixar passar a chance da piada. Nolan, Stillwell e Sands, por exemplo, ganharam o IgNobel de medicina em 93 pela pesquisa "Acute Management of the Zipper-Entrapped Penis". Por mais humorístico que o título soe ao leigo, qualquer pediatra poderá atestar que o problema é sério e bastante comum.
Citar exemplos históricos de erros da ciência, como faz Capozoli, é divertido e instrutivo. Só que esses exemplos mostram a força da ciência, não a sua fraqueza. Tirante os partidários da abominação intelectual recente chamada relativismo cultural – para os quais a realidade é um "construto lingüístico-social" –, poucos duvidam que a ciência se aproxima assintoticamente do real, através de modelos de graus crescentes de iconicidade. O método científico não pode ser responsabilizado pelos erros de seus agentes, e dispõe de mecanismos contra estes. Cientistas são humanos, e, como humanos, arrogantes e vaidosos. O tão celebrado Galileu nunca reconheceu a contribuição de Kepler, apesar da correspondência que trocaram. Mas a autocorreção mencionada por Shermer funciona. É graças a ela, para ficar nos casos citados por Capozoli, que as opiniões erroneas de Lavoisier, Kepler, Dalton, Comte, Lysenko e Mendel foram revistas em muito menos tempo do que os 350 anos que a igreja católica levou para perdoar Galileu Galilei. Não fosse assim ainda estaríamos discutindo se é a Terra que gira em torno do Sol ou o contrário.
Copérnico, um covarde
Ulisses afirma que Copérnico só assumiu a autoria de sua obra no leito de morte, por temor aos céticos de seu tempo. A história não corrobora essa versão. Nicolau Copérnico, vigário de Allenstein e Frauerburg, era um covarde moral. Não temia os céticos, temia a igreja e seus dogmas. Arranjou para que suas idéias fossem publicadas pela primeira vez pelo discípulo Rethicus, com a condição de que seu nome não fosse mencionado. Combinou que o texto faria referência a um certo Dr. Nicolau de Torum – o próprio Copérnico. Tudo indica que o cuidado era desnecessário, pois a reação à idéia do Sol como o centro do universo só veio cerca de setenta anos mais tarde, com a perseguição a Galileu. A surpreendente falta de reação ao manuscrito de Rethicus encorajou-o a publicar os "Seis livros sobre a revolução das órbitas celestiais", que só viu no leito de morte. Copérnico atrasou o quanto pôde a publicação do De revolutionibus por medo da ira dos que chamava de "aristotélicos e teólogos". Assim, a entrada de Copérnico na história da ciência deu-se pela porta dos fundos, pois mesmo o prefácio de sua obra magna, escrito por Osiander, alertava o leitor para que não a tomasse seriamente, pois "as hipóteses nela descritas não são necessariamente verdadeiras ou mesmo prováveis".
Nicolau Copérnico, Johannes Kepler e Galileu Galilei – treinados, respectivamente, em medicina, astrologia e matemática, todos os três religiosos – estão entre os que Arthur Koestler chamou de "sonâmbulos", homens que intuiram a ciência moderna em meio ao mundo místico e populado de espíritos em que viviam. Koestler, apesar de grande divulgador, não foi um bom exemplo de rigor científico em suas crenças pessoais. De tanto alertar contra a hubris da ciência, ou melhor, contra a atitude filosófica resultante desta, acabou por tomar um caminho divergente, flertando com fenômenos paranormais e a pseudociência.
No começo deste texto falei da crescente expansão da pseudociência e superstição. Há dados indicando que nos EUA isso ocorreu de fato, principalmente nos últimos dez anos. Desconheço dados semelhantes para o Brasil, mas uma olhada em nossos meios de comunicação bastará para mostrar que a grafologia, astrologia, transcomunicação, terapias de vidas passadas, homeopatia, florais de Bach, e bobagens semelhantes vêm ganhando espaço. Os jornalistas científicos deveriam tratar de contrabalançar essa tendência, e não adotar uma posição dúbia quanto à aplicabilidade do método científico a essas crenças. Ao contrário do que Capozoli leva a crer, o pecado atual não é o excesso, mas a falta de ceticismo; o mal não é o reducionismo, mas o vale-tudismo – de gente que come luz a espíritos que falam através do celular.
Ulisses Capozoli já nos deu bons textos sobre ciência, aqui e em outras publicações. Sua crítica da entrevista de Michael Shermer à Veja – que teve falhas, mas não as apontadas por Capozoli – não foi um deles. Bem fez o Observatório ao botar-lhe o chapéu "Acredite se quiser".
(*) Engenheiro. E-mail <j.colucci@rcn.com>
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