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FÓRUM SOCIAL MUNDIAL
Ciência e globalização

Rafael Evangelista (*)

Sem que grande parte da comunidade científica perceba, de 31 de janeiro a 5 de fevereiro ocontecerá, em Porto Alegre, um dos eventos mais importantes para a comunidade científica mundial. Assim como já ocorreu em sua edição passada, ao debater os rumos e as conseqüências do atual modelo de globalização, o Fórum Social Mundial colocará no centro das discussões um profundo questionamento sobre a ética e os objetivos da ciência contemporânea. Propriedade intelectual, patentes, organismos geneticamente modificados, software livre, desenvolvimento sustentável e meio ambiente estão entre os principais assuntos que serão abordados no FSM.

Entre os principais fatores que permitiram que o processo de globalização chegasse ao estado em que se encontra hoje está o desenvolvimento científico e tecnológico. Ao mesmo tempo que a ciência foi capaz de gerar ganhos importantes de produtividade, foi também por meio dela que se tornou possível a reestruturação do sistema produtivo mundial.

As empresas mais rentáveis do mundo passaram a ser aquelas que baseiam sua atividade na inovação tecnológica. Seja pela melhoria (barateamento) do processo de produção, seja pela criação de novos produtos tecnológicos. A inovação proporcionada pelo trabalho dos cientistas está hoje incorporada como motor de crescimento do lucro a ser obtido pelas empresas. As antigas leis de patentes foram alteradas para que o conhecimento científico se tornasse uma mercadoria passível de ser negociada internacionalmente.

Mais do que nunca, uma boa parcela da comunidade científica está ligada a grandes corporações – através de vínculo empregatício direto ou do financiamento de projetos de pesquisa. A comunidade científica internacional é altamente internacionalizada. O medo da conhecida "fuga de cérebros" não é um privilégio do Brasil: cientistas indianos, russos, chineses, circulam pelos principais centros de pesquisa do mundo.

Esse é um diagnóstico que o jornalismo científico não pode deixar de fazer, sob o risco de enxergar o trabalho da ciência como algo sem conexão com o mundo e deixando de perceber o papel central da ciência no processo de globalização. Os movimentos sociais de todo o mundo já perceberam essa conexão e têm feito dos laboratórios de pesquisa – em especial os da biotecnologia – um de seus lugares de protesto.

Saídas viáveis

Na edição do ano passado do FSM, uma das experiências mais importantes de controle democrático dos rumos da ciência foi relatada pelo biólogo francês Jacques Testart. Ele discutiu – na conferência intitulada "Como traduzir o desenvolvimento científico em desenvolvimento humano?", em que a tônica foi a condenação dos trangênicos – a proposição de alguns países da Europa de realização das "conferências de cidadãos". Essas conferências são fóruns que agregam cidadãos comuns, contando com o apoio de especialistas, que discutem e sugerem ações aos governos relativas a assuntos polêmicos como transgênicos, clonagem humana e outros. Para Testart, é inútil esperar um consenso dos cientistas para assuntos como os organismos geneticamente modificados, pois muitos deles têm interesses profissionais diretos na aceitação dessa tecnologia.

Outros temas que envolvem diretamente a ciência, tais como os direitos autorais na produção de softwares, o programa espacial brasileiro, a questão da água como patrimônio mundial, as alternativas de desenvolvimento sustentável e os direitos indígenas – além de questões da economia, que também é uma ciência – foram amplamente debatidos. No entanto, a cobertura especializada do evento foi muito pequena, com exceção de um belo especial para a TV Cultura, comandado por Mônica Teixeira.

De uma maneira geral, o jornalismo científico brasileiro ainda não percebeu – ou evita perceber – que parte importante de sua tarefa é mostrar justamente as conexões profundas que existem entre o desenvolvimento do capitalismo globalizado e da atividade científica. Para compreender a ciência e a atividade dos cientistas não basta apenas reproduzir adequadamente o conteúdo das pesquisas que estão sendo feitas. É preciso mostrar porque determinados ramos de pesquisa recebem mais apoio do que outros, mostrar de que maneira as pesquisas são realizadas e quais são os interesses. E é preciso mostrar também que existem alternativas e grupos de trabalho espalhados pelo mundo inteiro buscando saídas viáveis e com sustentabilidade ambiental e social.

(*)Editor-chefe da revista Com Ciência <www.comciencia.br>; e-mail <rae@unicamp.br>

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