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OFJOR CIÊNCIA
OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.
CRISE ENERGÉTICA
O apagão e os contos de fadas
Ulisses Capozoli (*)
Os exobiólogos, estudiosos da vida fora da Terra, dividem as possíveis civilizações galáticas em três níveis, de acordo com o consumo de energia. Antes que algum tucano meta o bico, para descaracterizar/confundir esta abordagem, é bom esclarecer que a exobiologia – ou astrobiologia – não tem relação alguma com ufologia. Como a crise de energia elétrica, no Brasil, não tem nada a ver com meteorologia.
A exobiologia faz uso de conhecimento científico e pode ter se iniciado tanto com as radioescutas dos anos 60, do radioastrônomo norte-americano Frank Drake, quanto por um Prêmio Nobel de físico-química, da Suécia, Svante Arrhenius. Em 1908, Arrhenius publicou suas teses sobre panspermia, idéia de que a vida existe em todo o Universo e seus esporos são levados, pela pressão de radiação das estrelas, como sementes tocadas pelo vento.
Para os exobiólogos, uma civilização de nível 1 utiliza as fontes de energia disponíveis em seu mundo, como geração hidrelétrica, nuclear, a petróleo, carvão ou lenha. No nível 2, uma civilização consome toda a energia de seu Sol. Um terceiro nível, suga a energia da galáxia em que vive. Assim, os economistas não são os únicos a levar em conta a demanda de energia como indicador do índice de desenvolvimento econômico-social.
Essa referência a culturas alienígenas/consumo de energia, como diferenciadora de padrões, certamente ajuda numa dedução razoável: a idéia de que desenvolvimento (no sentido amplo) e demanda de energia são ocorrências associadas.
Na ausência disso, pode haver dificuldade na compreensão do debate sobre o corte de energia elétrica por geração insuficiente – o "apagão" que deu manchete em todos os jornais/revistas dos últimos dias.
Na semana passada, o colunista Arnaldo Jabor, na Folha de S.Paulo [15/5], enxergou no apagão/aumento de tarifas um rousseauniano retorno à natureza, sem o brilho estressante da luz elétrica. Carlos Heitor Cony refutou com lirismo, humor e ironia na página A2 da edição de domingo, 20/5. Em "Condenados à modernidade", previu que "voltaremos a usar camisolões e gorros, que nem nos filmes do Gordo e Magro. Levaremos o castiçal para a mesinha de cabeceira e, como poderá faltar água, bombeada pela eletricidade, teremos também penicos sob a cama".
Leituras mitológicas
Penicos e lamparinas seriam, então, objetos indispensáveis nesta época de modernidade neoliberal – o que Francis Fukuyama anunciou, na década passada, como o "fim da história". A mídia engoliu essa tolice com a isca e o anzol. Mas gente conservadora, bem formada, não levou Fukuyama a sério. Disseram que, se leu Hegel, não compreendeu o filósofo.
A mídia incensou Fukuyama como um novo guru. Toneladas de papel e muita tinta foram gastos na propagação dessa idéia que um escritor de ficção de algum talento julgaria irrelevante. O deslumbramento que um certo jornalismo tem por temas irrelevantes, ao longo do tempo, cria um caldo de cultura apropriado a fermentações daninhas ao discernimento. Então, frases de efeito retórico, posturas pedantes e arrogância injustificada passam por qualidades apreciáveis e seus autores tidos como intelectuais de respeito.
Nas histórias infantis, menos ingênuas que a maioria das pessoas está disposta a acreditar, a rainha má, num primeiro momento, também parece respeitosa. É o jogo do camaleão, o pícaro passando-se por herói. A rainha má, como se sabe, não tem qualquer escrúpulo e sua única preocupação é consultar o espelho para saber se os acontecimentos do mundo correspondem aos seus desejos e necessidades narcísicos.
As artes divinatórias e o jogo de poder, situações que vão influir na deflagração da tragédia, antes das histórias infantis já integraram os escritos de Sófocles, especialmente Édipo Rei. Jornalistas e interessados em compreender os acontecimentos internos do Brasil, entre eles o "apagão", deveriam retornar às leituras mitológicas. Um guia prático, de leitura rápida, nem por isso menos profundo e envolvente, é A Jornada do Escritor – Estruturas Míticas para Contadores de Histórias e Roteiristas, de Christopher Vogler. Um regalo para o espírito.
Próximo a Cony, na Folha de domingo, o empresário Antônio Ermírio de Moraes diz que "o tempo de acertar passou e o tempo de alertar se foi", referindo-se ao apagão. Ainda na página A2, Clóvis Rossi argumenta com facilidade contra a lógica palaciana em "A mão é nossa, o erro é dele". O "auto-apagão", diz, referindo-se à economia que as pessoas já começaram a fazer, "tem uma vantagem: serve como um teste para verificar se a sociedade é mais competente que o governo para gerir a eletricidade. Não deve ser difícil, dada a incompetência que o governo demonstrou nessa história toda".
Cena discutível
Talvez o apagão acabe levando a outras descobertas. Que a evolução do PIB, por exemplo, é resultado do esforço da sociedade para sobreviver, apesar do desemprego crescente, dos juros exorbitantes e da recusa legal e moralmente injustificada de se proceder às correções das tabelas de imposto de renda. O que significa dizer que o país continua, apesar do governo. Raramente observações como esta aparecem na imprensa. Até porque, mais que o jornalismo político, o econômico está inteiramente ideologizado.
Nos contos de fadas, a rainha má sempre atribui os méritos a si. Se os fatos não convencem, com a ajuda dos áulicos, sempre disponíveis, a rainha embaralha a história, aborta iniciativas legítimas dos personagens envolvidos e não hesita em recorrer às poções que acredita mágicas. A rainha se julga o centro do poder e não pode ser contestada. Para isso, invoca sempre sua posição de rainha. Inventa desculpas, atira as culpas, devidas ao seu caráter pantanoso, aos ombros dos demais. À raínha só interessa o brilho de seu espelho e por isso repete em seus aposentos sempre a mesma frase: "Espelho, espelho meu..." Talvez, por tudo isso, para a rainha, as histórias sempre terminam mal.
Na página seguinte da Folha de domingo o filósofo Rubem Alves e o insuspeito Candido Mendes [Tendências/Debates, pág. A3, 20/5/01] tratam não da crise de energia, mas das razões que nos levam, também, à crise de energia: a corrupção dos valores. O tema foi ainda a capa de Veja, dividindo espaço com o apagão.
A rainha pode se dar mal. Mas antes disso, provoca enorme sofrimento no reino. Talvez seja esta a intenção dos deuses. Fazer com que o povo sofra para que aprenda a distinguir ao menos o herói do vilão. Assim, alguns reinos podem ficar às escuras, por falta completa de energia.
Habitantes do mundo real, fora do reino das fadas, não sabemos o que é energia. Não sabemos o que é a gravidade ou a radiação eletromagnética. São fenômenos do mundo. Mas os físicos sabem que matéria e energia são a mesma coisa, que uma pode transformar-se na outra. É o que está expresso na equação enigmática escrita por Einstein: E = m.C2 (energia é produto da massa pela velocidade da luz ao quadrado). A matéria é uma forma "empacotada" de energia.
A energia, segundo a primeira lei da termodinâmica (transformação de energia/trabalho), não pode ser criada nem destruída. A energia de que dispomos hoje, para acender uma lâmpada ou mover os olhos para ler este texto, veio da explosão que gerou o Universo, segundo a teoria do Big Bang. Desde então ela não cessou de se transformar e deverá ser assim até o que se chama de "morte térmica" do Universo, quando esgotar toda energia e cessar todo movimento. O Universo ficará paralisado e essa será sua maneira de morrer.
Mas, mesmo no mundo real, esta é uma cena discutível de bilhões de anos no futuro. No presente não é preciso ser acadêmico para saber que a décima economia do planeta não poderia, de maneira alguma, ser pega "de surpresa", como tentou justificar o presidente da República.
Imprensa submissa
Antes de se esquivar de responsabilidade alegando "surpresa", pelos jornais, o presidente, como a rainha má, responsabilizou Collor, Itamar e São Pedro pelo desastre. Desmentido por especialistas, ainda pelos jornais (não todos os jornais), assumiu por um breve momento. Mas no domingo (Folha, 20/5, pág. A6), já transferiu a responsabilidade para o PFL e seu cacique, ACM.
O presidente é exímio no jogo de espelhos. Fosse um elogio e recolheria imediatamente. Não cuidou do que deveria, com a responsabilidade que a Nação esperava, e ainda vê motivos para castigar o cidadão com tarifaço, ameaça de cortes e, claro, incidência de impostos sobre o pagamento adicional.
Na sexta-feira [18/5], o presidente disse aos jornalistas que se o PFL tivesse cuidado da energia como o PSDB tratou a telefonia, estaríamos todos salvos. No começo da semana, o ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, já havia feito este auto-elogio. Foi o que bastou para que, na edição de domingo, dia 20, o Estado de S.Paulo trouxesse duas páginas sobre o assunto, com a abertura apoteótica de "30 anos em 30 meses". Na página de abertura, com chamada discreta na primeira página, pode-se ler que "iniciativa privada fez em dois anos e meio o que o Sistema Telebrás fez em sua existência".
Milagre? Milagres talvez até aconteçam, dependendo da fé de cada um. Mas este certamente não é o caso. O sistema telefônico – caro, ruim e que ocupa os primeiros lugares na longa lista de queixa dos consumidores no Procon – não deveria ser o melhor exemplo. Em comparação com a energia elétrica, é preciso admitir, ao menos ainda não entrou em colapso. Mas está longe de ser um exemplo.
O exemplo do Estadão tampouco é edificante, depois de tantos anos de história. Uma imprensa submissa não ajuda em nada a edificar a cidadania necessária. Daí, certamente, a necessidade e conveniência de se voltar aos clássicos, de retomar Sófocles e invocar a análise reveladora de um Joseph Campbell, para que um reino possa sair e nunca mais voltar às tenebrosas noites escuras.
(*) Jornalista especializado em divulgação científica, historiador da ciência e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC)
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