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OFJOR CIÊNCIA

OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.


PESQUISA
A universidade mercantil

Rafael Evangelista (*)

Neste mês, a revista Caros Amigos publicou um artigo – disponível em <http://www.uol.com.br/carosamigos/edicao/ed49/lemonde.htm> – originário do Le Monde Diplomatique, de autoria do pesquisador norte-americano Ibrahim Warde, relatando os problemas causados pela forte entrada das empresas e a contínua retirada do Estado no financiamento das universidades. A descrição é assustadora e trata do surgimento da "universidade mercantil", ou seja, aquela na qual beneficiam-se apenas os departamentos que são capazes de "atrair dinheiro" (ou que "estudam dinheiro" ou "ganham dinheiro"). Entre as conseqüências do processo está o abandono dos outros departamentos e um relevante direcionamento dos objetivos das pesquisas para o registro de patentes. O artigo torna-se ainda mais atual quando lembramos que os EUA são freqüentemente usados como "exemplo" para o Brasil e quando certos setores apontam o "financiamento privado" como uma das soluções para a crise das universidades brasileiras.

Afirma Warde que, desde o fim da Guerra Fria, o Estado americano passou a reduzir drasticamente a verba para as pesquisas das universidades. Com a alteração de algumas leis na década de 1980, tornou-se possível às universidades fazer o registro de patentes. Essa combinação teria tornado a pesquisa dependente do financiamento privado, sendo possível os altos investimentos dos últimos anos apenas mediante um "frenético levantamento de fundos". Novas unidades de pesquisa passaram a ter o nome das famílias que as financiaram. Logotipos dos financiadores foram espalhados por salas inteiras – incluindo mesas e cadeiras.

A denúncia do pesquisador vai mais longe e questiona a credibilidade de estudos realizados. Contratos sigilosos entre empresas e universidades estariam sendo tecidos e os pesquisadores dessas universidades estariam testemunhando no Congresso e em juízo a favor das mesmas. A necessidade de financiamento estaria fazendo com que certas universidades praticamente "mendigassem" verbas. Recentemente, a Nike teria suspendido o apoio a três instituições cujos estudantes teceram criticas quanto ao uso de mão-de-obra infantil.

Em um contexto em que o Estado brasileiro mostra-se cada vez menos interessado em financiar a pesquisa científica básica, o caso americano deve ser tomado como lição, antes de servir de exemplo. O financiamento da ciência não é, por definição, algo lucrativo. O financiamento privado é importante apenas como complementação de recursos e, mesmo assim, para determinadas atividades. Devem existir regras claras, objetivos definidos e pleno conhecimento público. Determinadas áreas nunca serão do interesse do setor privado, o que não faz com que percam a importância se o objetivo é expandir o conhecimento (pesquisas em física teórica, por exemplo). Para elas, o Estado será sempre a única fonte de sustentação.

(*) Sociólogo e editor da revista Com Ciência <www.comciencia.br>. E-mail <rae@unicamp.br>



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