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CIÊNCIA & SOCIEDADE
O futuro visto de Minas

Ulisses Capozzoli (*)

No domingo, 27/10, em eleições de segundo turno, escolhe-se, além de governadores de estados, o próximo presidente da República. E a perspectiva, segundo os levantamentos de intenção de voto, é de que o eleito seja Luiz Inácio Lula da Silva.

Como aconteceu na proclamação da República e, um pouco antes, na libertação dos escravos, há quem veja na decisão das urnas sinais de fumaça. Nada de novo. À época da libertação dos escravos, em 1888, a voz corrente era de que o final dos tempos, ao menos dos tempos em que se tinha ordem e progresso, havia chegado. A economia caminharia para o caos, um abismo sem fundo de onde, como nos buracos negros cósmicos, nenhuma luz poderia escapar.

A Igreja Católica, com o estabelecimento do casamento civil, na República, já anunciara que "Deus foi substituído por um delegado de polícia". A frase, que os jornais publicaram em manchetes de página, dá uma medida aproximada do obscurantismo praticado em nome de Deus.

Sob pressão inglesa, interessada na venda de máquinas da Revolução Industrial, como aprendemos na escola, acabamos formalmente com a escravidão às vésperas do século 20. Época em que a ciência descobriu que o Universo nasceu de uma singularidade, um ponto de densidade e curvatura infinitas, e expande-se como um bolo de passas – as galáxias –, que Kant chamou de "universos-ilhas".

Edwin P. Hubble, advogado aborrecido com a burocracia das leis, boxeador rápido com os punhos e astrônomo dos astrônomos, fotografou o que nos primeiros tempos foi chamado de "fuga das galáxias". O universo nunca foi, é, ou será o mesmo. O universo é um mutante, embora muitos homens tentem, a custo e num esforço improvável, travar a roda da história e deixar imóvel o mundo.

Combinadas, ciência e tecnologia permitiram, ainda no século 20, que se detectasse o ruído fóssil da explosão da Criação, a radiação cósmica de fundo. Além da conquista da Lua, primeiro corpo celeste fora a Terra onde humanos deixaram marcas de suas presenças num movimento antigo capaz de, um dia, no futuro, levar no rumo de outras estrelas. Ainda que, hoje, esses acontecimentos soem despropositados.

Idéias e propósitos

Com o fim da escravidão, no Brasil, trabalhadores de uma Europa arruinada, especialmente da Itália, chegaram para tratar a terra e tirar dela os frutos dourados do Sol. Como o café, planta das terras altas da Etiópia, de onde a ciência relata que vieram também os homens.

Os primeiros tempos foram duros. Mesmo para quem estivesse disposto a construir um futuro. Habituados ao trato com escravos, boa parte das fazendas receberam os recém-chegados com os modos dispensados aos cativos. Fizeram mais. Sugeriram, exigiram, e assim conseguiram, em muitos casos, que pequenos tesouros pessoais lhes fossem entregues a título de boa guarda. Relógios, alianças e outros objetos de cobiça, se não fossem pela boa guarda, seriam garantia de que os que chegavam não partiriam antes de um tempo conveniente.

Os guardiães eram, em sua maioria, gente de nome bom. Ainda que, como registros históricos apontam, em muitos casos, não tenham tido o cuidado em devolver aos donos o que haviam recebido, sob título de boa guarda e caução: bens emocionalmente preciosos aos que haviam trocado de mundos.

Levas de migrantes fizeram alguma fortuna. O que não significa que a mentalidade escravista, no Brasil, esteja eliminada. A despeito do fluxo do tempo, como previu Joaquim Nabuco. Sobrevive na figura da doméstica, nos salários vergonhosos que se pagam sob justificativa de não se comprometer os cofres públicos e a fiança internacional. Na postura atrasada, de parte da mídia, sobre quais devem ser os destinos do país num discurso que, na essência, pouco mudou desde o 13 de maio de 1888. Pode-se votar em quem quiser, estamos numa democracia, desde que seja no candidato da preferência dos sinhozinhos remanescentes.

Entre os chegados com a libertação dos braços cativos estavam os anarquistas de Giovanni Rossi, criador da Colônia Cecília, em terras que ficam entre Curitiba e Ponta Grossa, no Paraná.

Mesmos historiadores anarquistas cometeram equívocos em relatar o que aconteceu no Paraná. O médico e pesquisador do anarquismo, Mello Neto, morto recentemente, num trabalho em que despendeu dez anos de investigação, mostrou como tudo se deu. Inclusive com os membros da Colônia. Dispersos pela pressão política e dificuldades econômicas, muitos trocaram o campo pela cidade. Vários vieram para São Paulo, onde organizaram a primeira greve que paralisou completamente a cidade, em 1917.

Os grevistas de 17 exigiam o que, informalmente, se exige ainda hoje. Salário mais justo para as mulheres, condições de trabalho mais humanas, boa qualidade e preço acessível para os alimentos, além de moradias dignas de homens. Nada além do indispensável.

Lula, o próximo presidente, se os números não estiverem mentindo, é um descendente de cecilianos – como se diz dos que viveram na colônia anarquista do Paraná. Não de sangue, mas de idéias e propósitos.

Formação crítica

Muitos críticos vêem em Lula um homem pouco versado em letras para dirigir o Brasil. Pouco importa o formalismo. Lula forjou-se no laboratório da prática do mundo. Fez como Fermi, que perguntou a Mario Schenberg se sabia física e, se fosse o caso, começasse a trabalhar, sem perguntar onde estava o diploma.

De José Serra, alguns dizem que é "preparado", embora, quase sempre, não consigam traduzir, claramente, o uso que fazem dessa expressão. Em seu esforço para separar "razão" de "emoção", com a pretensão de ser ele próprio a "razão", Serra tem um discurso previsível. Além do equívoco de tentar separar o que é inseparável. Os humanos são dotados de emoção porque fazem uso da razão, embora seja um tanto comprometedora essa generalização. Aí está o velho discurso positivista.

Lula certamente não é o homem. Não existe o homem capaz de pegar a história nas mãos e mudar os seus rumos. O historiadores, não importam seus nomes, erraram todas as vezes em que disseram que isso aconteceu.

O que existe são líderes. Homens capazes de entusiasmar seus contemporâneos – e até os homens do futuro, com seus exemplos – de que as coisas todas podem, e às vezes devem, mudar profundamente. Esses homens carismáticos, entusiasmando os demais, levam o conjunto de homens a fazer a história na direção em que desejam, de acordo com as necessidades que sentem. É uma atitude coletiva.

A propósito desses movimentos, talvez uma cena, próxima à casa em que nasceu Santos Dumont, na atual cidade de Santos Dumont, na Zona da Mata mineira, possa traduzir melhor os acontecimentos políticos atuais que o duelo de manchetes de página dos jornais.

No sábado, 19 de outubro, 96 anos depois que Santos Dumont voou, em Paris, com o mais pesado que o ar, o governador de Minas Gerais, Itamar Franco, entregou medalhas de ouro, prata e bronze a pessoas e instituições que se destacaram no trabalho de promoção da cidadania em seu estado.

Um dos agraciados foi o Clube de Astronomia e Cultura de Cambuí, cidade do Sul de Minas. A medalha de ouro do clube não foi por adesão, negociação ou subordinação a qualquer interesse menor das conveniências políticas, prática comum no Brasil. Foi um reconhecimento por um trabalho relacionado a um esforço de alfabetização científica, com reciclagem e sensibilização de professores, alunos e cidadãos de forma geral, com o único requisito de estarem interessados no sentido do mundo.

O Clube de Astronomia e Cultura de Cambuí, como Lula, também é um descendente da Colônia Cecília. Os clubes de cultura anarquistas sempre foram oportunidades de formação para homens, mulheres e crianças que podiam dar duro no trabalho, como única garantia de sobrevivência. Mas sem esquecer que, desprovidos de cultura, sem formação crítica e, por tudo isso, desemparados de uma estética de mundo, não são mais que bestas de carga da produção.

Reflexão nas montanhas

Observando a cena junto à casa forrada com esteiras de bambu, onde nasceu Santos Dumont, é difícil não pensar que o governo de Lula terá intensos ares de Minas. Não da Minas dos grotões, do poder servil a interesses restritos. Mas da Minas com uma visão alternativa de futuro, daquilo que o professor Milton Santos chamou, em seu penúltimo livro, de idéia de "uma outra globalização".

Alguém escreveu, nos últimos dias, que a eleição de Lula é o fim da era dos acadêmicos. É tentador concordar. E novamente a razão vem de Minas. Na fala com que encerrou as premiações na terra de Santos Dumont, Henrique Hargreaves, escudeiro-mor de Itamar Franco, falou do passado e do futuro.

Como convém a um intelectual mineiro, pediu a ajuda de um santo (São Paulo, patrono do dia) para orientar suas palavras. E mesmo reconhecendo as dificuldades, Hargreaves apontou direções promissoras no futuro baseado na cerimônia que se realizava: solidariedade para a cidadania, em que Santos Dumont é um exemplo indiscutível. Neste caso, cidadania planetária, para o bem-estar de todo o mundo, mesmo dos homens do futuro, que farão aviões adaptados aos diferentes mundos, as naves espaciais, para viajar entre as estrelas.

O universo acadêmico, com o pretenso amparo na razão, o uso límpido das idéias (como se pudessem ser utilizadas em estado puro) não concede espaço à compaixão. Por isso não existe aí espaço para a reflexão profunda, livre da presença embaraçosa do mercado, que é necessário, mas não é o bem supremo da sociedade.

Em Santos Dumont, o governador mineiro não se pronunciou. Em seu lugar, falou Hargreaves. Ele usou palavras de fé no futuro e necessidade de se mudar o presente. Não foi uma fala alterada, apressada, sem rumo, algo que não convém a mineiros. Ao contrário. Foi uma fala decantada pela reflexão nas montanhas. Do alto, impassível, Santos Dumont observava ao lado de um de seus escritos: "O que eu vi, o que nós veremos".

Muitos leitores poderão discordar disso tudo, atribuindo os julgamentos a cores ideológicas. É , simultaneamente, possível e quase inevitável. O que não é possível, e nem se deve tentar, é contentar, ao mesmo tempo, a gregos e troianos.

(*) Jornalista especializado em divulgação de ciência, mestre e doutorando em Ciências pela USP, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) e editor de Scientific American Brasil


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