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O FIM DAS LOIRAS
Parece a piada da múmia
Roberto Takata (*)
Além dos hoaxes sobre vírus de computador, xampus cancerígenos, adoçantes neurotóxicos, conspirações diversas, refrigerantes corrosivos que pululam e grassam em nossos e-mails; além dos boatos no mercado financeiro sobre situações eleitorais e econômicas de um país; além das fofocas sobre artistas que casam, descasam, têm caso, assinam e desassinam contratos; além do diz-que-me-diz da Dona Nena sobre os namorados da filha da vizinha – temos agora – na verdade parece que sempre tivemos – a patacoada jornalístico-científica. Uma das mais recentes é o caso da "extinção inexorável dos loiros".
Talvez seja co-irmã do sensacionalismo e filha dileta do mesmo acriticismo que acomete aqueles que simplesmente clicam no botão de reenvio do correio eletrônico, sem um providencial "Epa!". "Se non è vero, è bene trovato", certo? Hum. Talvez seja uma desculpa para aquela mensagem eletrônica dos conhecidos, mas que dizer de um veículo jornalístico cuja função é justamente apurar as potenciais notícias?
Alguns veículos publicaram um suposto estudo indicando que loiros e loiras (ênfase sexista nas loiras – sempre indicadas para observações jocosas) deveriam desaparecer em cerca de 200 anos. (Jornal da Tarde, "Loiras, mais uma espécie em extinção", <www.jt.com.br/editorias/2002/09/28/ger028.html). O desmentido veio algum tempo depois. ("Análise: A vingança das loiras" <www1.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u7435.shtml>)
O pior de tudo é que a notícia é requentada (versões sobre a extinção das loiras correm desde pelo menos 1999).
O orgulho da precisão
Um pouquinho de conhecimento de genética básica – daquela que se aprende no ensino médio – seria suficiente para evitar tal constrangimento. A notícia fala que as cópias de genes que condicionam a coloração loira dos cabelos estariam fadadas à extinção por serem recessivas – isto é, precisariam estar presentes em dose dupla para se manifestarem. Recessividade e dominância se referem apenas a isso. Nada têm a ver com a propensão à extinção ou perpetuação: isso depende de fatores como seleção (se o gene traz vantagem ou desvantagem do ponto de vista reprodutivo) ou deriva genética (influência do acaso na passagem de uma ou outra variante genética presente na geração anterior para a subseqüente).
Na verdade, a recessividade pode proteger uma variante reprodutivamente desvantajosa, à medida que, em se apresentando em dose simples, ela não trará conseqüências diretas ao indivíduo portador.
Mas, digamos que tais conhecimentos tenham se perdido ao longo do caminho da formação jornalística (o que não seria muito defensável, já que genética é um assunto muito em voga atualmente, e pior ainda se o jornalista está comprometido com a cobertura da área científica). Bastaria dar uma conferida nas fontes citadas. Isso, pelo menos, é uma obrigação jornalística primária. Se não é feito, preferível ficar com as fofocas da Dona Nena, pelo menos são mais espirituosas.
Talvez seja uma exigência um tanto excessiva, se considerarmos que uma das notas reproduzidas dava 2202 como data-limite para a extinção dos loiros – provavelmente porque a nota da agência de notícias dizia que a extinção se daria em 200 anos. O que lembra a piada da monitora de um museu (loira naturalmente, embora na versão original fosse portuguesa) que apresentava orgulhosa aos visitantes uma múmia egípcia: "E esta múmia tem 4.002 anos 4 meses e 2 dias de idade." Surpreendidos com a precisão da data apontada, um dos visitantes perguntou como tal exatidão poderia ser obtida.
"Simples", falou a monitora. "Quando entrei aqui a múmia já tinha 4.000 anos. E já faz 2 anos, 4 meses e 2 dias que trabalho neste museu."
(*) Mestre em Biologia
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