23/12/2003

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DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA
Não é hora de separar, mas de somar

Fabricio Mazocco (*)

Em relação ao artigo "Mistura de alhos com bugalhos", de Felipe A. P. L. Costa, divulgado neste sítio [veja link abaixo], em que é citado meu artigo "A ciência no dia-a-dia", esclareço:

Em nenhum momento tive a intenção de "comparar" os "veículos especializados" de divulgação científica, denominação que utilizei no artigo. Pretendi, sim, diferenciar os veículos que tratam de diversos temas dos que se especializam em uma determinada editoria. Ao citar as revistas Ciência Hoje, Galileu e Superinteressante, tive a intenção de mencionar alguns veículos que tratam de ciência, cada um à sua maneira, apenas diferenciando-os dos veículos que falam não só de ciência.

Que a Ciência Hoje é uma referência ao que se refere à divulgação científica não há dúvida e quem lida com essa temática sabe disso. Se a Galileu e a Superinteressante apresentam "tom predominantemente sensacionalista", como coloca Felipe Costa, não foi interesse meu, no artigo, dissecar essa questão, ainda tão polêmica no meio. Só para lembrar, no artigo de minha autoria, isso é colocado explicitamente: "O sensacionalismo foi a tônica da ‘venda’ dos informes da ciência. Foi e continua sendo, talvez em menor grau. Mas essa é uma outra discussão".

Em entrevista feita por mim com o divulgador científico Marcelo Gleiser, ganhador do prêmio José Reis de Divulgação Científica, em dezembro de 2001, dentre outras premiações, e publicada na revista Univerciência (edição 02/03, dezembro de 2002), quando solicitei uma análise sobre a divulgação científica no Brasil, ele responde: "Fico muito feliz em ver o sucesso da National Geografic e, agora, da Scientific American no Brasil. O mesmo com a revista Galileu e, às vezes, a Superinteressante (...)".

Acredito que, também nesse caso, o intuito foi citar veículos de divulgação científica e não classificá-los de acordo com tom de sensacionalismo, autoria de artigos escritos por pesquisadores e por jornalistas etc. Outro "erro grotesco"?

Os três veículos mencionados no meu artigo foram citados como exemplos de veículos que tratam de divulgação científica e não como exemplos de como deve ser a divulgação científica. Não entrei nessa questão e não estou afirmando que fazem ou não fazem isso. E que os veículos mencionados são de divulgação científica, o próprio Felipe Costa afirma em seu artigo: "Em particular, no caso da Superinteressante (...), tudo parece ser feito com o intuito de chamar a atenção do incauto leitor, mesmo que para isso seja necessário reduzir (...) o conteúdo (...) científico de suas páginas". Ou seja, se há conteúdo científico, supõe-se que a revista pode se enquadrar em um veículo de divulgação científica. Então tudo está "em um mesmo saco"?

Repetindo (desculpe-me a insistência): as questões de como isso é feito e em que intensidade, não foram tratadas no artigo assinado por mim. Lembrando ainda que não citei a Scientific American, assim como não citei outras, o que não deixa de destacar a importância dessas. Foram exemplos e não citações por ordem de importância.

Especificamente sobre sensacionalismo vs. ciência, Gleiser, na mesma entrevista publicada na Univerciência, responde: "Se o que for apresentado é realmente baseado no que cientistas estão fazendo, não vejo porque deveria haver um choque. A confusão só existe quando profissionais especializados, incentivados mais pelo de mercado de suas matérias do que pela divulgação das idéias científicas, tomam o controle dos meios de comunicação."

No artigo, Felipe Costa insiste na relação cientistas vs. jornalistas. Sobre isso, cito Foske "há uma diferença, já reconhecida, entre compreender a natureza de um assunto e ser um especialista na prática, de outra maneira, cada pesquisador seria, ele mesmo, um especialista da informação". (FOSKE, D.J. Informática. In: Gomes, H.E.-orientador. Ciência da informação ou informática? Rio de Janeiro: Calunga, 1980)

Penso que ainda não estamos em uma etapa que possamos "criar" termômetros para medir instantaneamente o grau de divulgação da ciência. O número de veículos que se preocupa com a divulgação da ciência está muito abaixo do que deveria ser.

Em vez de gastarmos energia tentando criar métodos de análise, sugiro que os divulgadores científicos e os que se preocupam com a divulgação da ciência poupem esforços para aprimorar o tratamento da questão no Brasil e, que cultura científica deixe de ser privilégios de pouco e passe a fazer parte do cotidiano de muitos. O que não se deve, a meu ver, é estar acima do que a realidade realmente é ("misturar alhos com bugalhos").

Em vez de classificar (supor métodos de classificação) de erros, deveríamos nos unir a favor da divulgação e da disseminação da ciência no Brasil e contribuir para a melhoria dos que já se dedicam ao tema.

(*) Jornalista científico, formado em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), assessor de Comunicação da Fundação de Apoio Institucional ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico da Universidade Federal de São Carlos (FAI-UFSCar), colaborador da Coordenadoria de Comunicação Social (CCS) da Universidade Federal de São Carlos e repórter da revista Univerciência

Leia também

Mistura de alhos com bugalhos – Felipe A. P. L. Costa

A ciência no dia-a-dia – Fabrício Mazocco

Com quantos efes se escreve evolução? – F. A. P. L. C.


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