SAÚDE NA MÍDIA
Precisamos é de ética
Heliete Vaitsman (*)
As observações de Alberto Dines [remissão abaixo] sobre a descoberta da saúde pela imprensa brasileira, nos anos 1990, remetem a uma questão importante para alguns jornalistas que nos especializamos na área logo no seu início, acreditando que prestávamos um serviço quase essencial. Toda a nossa formação aconteceu na prática, com o apoio de boas fontes, leituras cuidadosas, participação em congressos e um ou outro curso, num processo similar ao que ocorreu com os jornalistas econômicos. Nem por isso temos sido incompetentes. Os que foram e são pautados pelos lobbies não o foram nem o são devido à inocência — os lobbies, antes de convencerem o que o autor chama de "jornalistas sem o menor preparo, em geral recém-saídos das faculdades", precisaram convencer, e o fizeram muito bem, os editores e diretores dos principais veículos.
A ignorância do "chão da fábrica" não é a principal responsável pela atual situação — que tomara esteja a caminho do esgotamento, depois de explorada à exaustão. As histórias de saúde só vendem, alega-se, se mostrarem um caminho positivo a seguir, se tiverem um final feliz, se forem "vide bula" para a legião de pessoas ávidas por soluções fáceis para problemas que vão da unha encravada ao mal de Alzheimer. Quem pretende trilhar o caminho realista e mostrar, além do lado direito, o avesso e o avesso do avesso, é considerado ranzinza, chato, estraga-prazeres... Será que as pesquisas indicam mesmo que o público quer acreditar na possível cura de todos os males?
Por exemplo, a recente divulgação de estudos conclusivos que indicam aumento de risco de câncer em mulheres que se submeteram à terapia de reposição hormonal chegou tarde demais para muita gente. Ora, o risco era mais do que conhecido há muito tempo. Há coisas que são a crônica da morte anunciada — e algumas drogas para emagrecimento me vêm agora à mente. Aliás, os mesmos médicos que exaltavam a reposição agora a condenam (como se não tivessem ouvido falar dos estudos...). Ou os que recomendavam um determinado remédio emagrecedor condenaram-no imediata e enfaticamente, quando procurados pelos repórteres para repercutir a proibição nos EUA. É o lema "faço tudo para estar sob os holofotes"... O que nos traz à sugestão de Dines de médicos nas redações, cuja presença seria quando muito inócua e, no limite, prejudicial.
Venda de ilusões
Médicos também têm ideologia, idiossincrasias, interesses. Dezenas de professores-doutores de universidades públicas e privadas, aparência vetusta e linguajar contido, defendem publicamente os interesses da indústria (inclusive a "alternativa"), ou seja, dão entrevistas e escrevem sobre tais ou quais tratamentos praticamente sob encomenda. Discretos, acima de qualquer suspeita, gostam de dizer que trouxeram as novidades do último congresso no Hemisfério Norte, que todos sabemos quem patrocinou! Para quem trabalha na área de saúde, isso não é exatamente um segredo... As assessorias encarregam-se de conseguir os personagens/pacientes para as matérias, o "lado humano" essencial para vender a idéia de que o tratamento funciona (muitas vezes funciona mesmo, sorte nossa!)
Enfim, se tais médicos ocupassem o lugar de jornalistas, até mesmo de jornalistas que agem condicionados pelos lobbies, nada mudaria — ou mudaria para pior, já que o público seria induzido pelo título do doutor a confiar plenamente em suas palavras. E quem controlaria o doutor?
O maior desserviço ao público não são as manchetes trepidantes. Deixam seqüelas, mas passam. Talvez o maior desserviço seja a repetição de conceitos, a insistência cotidiana com que se impõem determinados padrões (a indução ao consumo de vitaminas, por exemplo). Não precisamos nem de médicos nem de engenheiros nem de advogados nas redações. Precisamos de jornalistas especializados, sim, e acima de tudo precisamos de ética. Ética para admitir que erramos ao confiar em certas fontes e riscá-las do nosso mapa, ética para administrar inevitáveis conflitos de interesses, ética para privilegiar as informações relevantes e descartar as bobagens.
É claro que ajuda ter algum conhecimento científico (nessa área, ler inglês é indispensável), mas ajuda mais não empregar toda a nossa competência para vender ilusões.
(*) Jornalista
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