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DOENÇAS FEMININAS
A mídia e a cura do verdadeiro mal
Rosane de Bastos (*)
As matérias sobre doenças femininas ocupam espaço constante nos jornais, revistas, rádio, televisão e internet. O câncer de mama é um tema recorrente na imprensa brasileira e não raras vezes as notícias mais amedrontam do que informam as leitoras. O assunto tem destaque, geralmente, quando personalidades do meio artístico descobrem um tumor maligno. O último exemplo foi o da atriz Patrícia Pillar, capa da revista Época (4/2/02).
Nada errado em escrever matérias sobre câncer de mama se os textos viessem com dados que preparassem as mulheres para lidar com o problema sem sentir, de imediato, o pavor de morrer. O diretor do Hospital de Mastologia do Instituto Nacional do Câncer (Inca), no Rio de Janeiro, Pedro Aurélio Ormonde, explica que é importante ter a preocupação de não divulgar dados que causem medo e mostrar às mulheres com câncer de mama que elas podem ser tratadas e, o mais interessante, continuar a viver.
Aprender a divulgar
Há quem defenda como função dos meios de comunicação de massa educar a população. Essa é uma das teclas em que batem os jornalistas dedicados à divulgação científica no Brasil. Educar talvez seja mesmo o melhor caminho. O difícil é como isso se dá na prática. Alguns jornalistas e os veículos onde atuam parecem fazer mais sensacionalismo do que ajudar o leitor, especialmente quando são notícias relacionadas ao bem-estar dos cidadãos.
Uma das questões abordadas com alarde nas matérias sobre câncer de mama se refere à vida da mulher moderna e da demora em engravidar ou à opção de não ser mãe. Isso representa um risco? Para vários especialistas, entre eles Pedro Ormonde, a resposta é "sim", mas deve-se reforçar a contribuição de vários outros fatores – como o histórico familiar, vida sem exercícios físicos, alimentação incorreta, estresse e hábito de fumar. Na mulher, o cigarro fez aumentar a incidência de câncer de pulmão e de colo de útero. "Dados mostram que aquela que engravida tarde ou não engravida, que é o atual da mulher, favorece um risco maior de desenvolver um tumor de mama", afirma.
O auto-exame ainda é o método mais simples de detecção de tumores, associado, se for o caso, às ultrasonografias e mamografias, apesar de a população pobre quase não ter acesso a esses exames, o que leva à descoberta dos tumores em estágios avançados. O diretor do Hospital de Mastologia do Inca é otimista e destaca a existência de novas alternativas de diagnóstico mais detalhado. São cirurgias delicadas, espécies de biópsias feitas com agulha grossa para se diagnosticar a lesão antes de submeter o paciente a uma intervenção mais complexa. Ele esclarece que há pesquisas em andamento para se alcançar uma forma de diminuir o risco de câncer de mama e investir contra a força dos hormônios no organismo feminino.
A cor do futuro
A medicina brasileira avançou, mas as pessoas com câncer têm chances reais de sobrevida apenas quando recebem acompanhamento médico em tempo e de qualidade. Pedro Aurélio Ormonde explica que os tumores em estágios avançados, níveis 3 e 4, com mais de cinco centímetros, correspondem de 40% a 50% dos casos atendidos no Inca. O médico acredita na mudança desse quadro e aposta – além de citar a importância de investimentos na prevenção e tratamento – na educação médico-paciente baseada no respeito. "Cada paciente é uma individualidade. A gente tem que ver a mulher como um todo, o contexto social, o contexto da pessoa portadora de uma doença de mama, ainda que seja benigna essa doença", diz Ormonde.
Um estudo realizado por pesquisadores da Escola de Saúde Pública de Harvard, em Boston (Massachusetts), e publicado na Folha Online (25/2/02) com o título "Doença eleva em 53% o risco de mulher perder emprego nos EUA", revela uma estatística nada animadora: 53% das mulheres com algum tipo de doença estavam na mira de perder o emprego. Aquelas com filhos doentes tiveram aumentado em 36% o risco de serem demitidas. Os autores da pesquisa, Alison Earle e Jody Heymann, alertam para a necessidade de impor limites a atitudes dessa natureza. Pelo visto, a medicina evolui, mas falta ao homem descobrir a cura para o câncer arraigado nas estruturas socias, de natureza invasiva e totalmente desleal para com a vida humana.
(*) Jornalista, aluna do Curso de Especialização em Jornalismo Científico do Labjor/Unicamp e bolsista do Programa Mídia/Ciência da Fapesp
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