JORNALISMO CIENTÍFICO
Em busca do tempo perdido
Ulisses Capozzoli
Enquanto alisava a palha, com o fumo desfiado no cone da mão, tio Luís dizia que cada história tem suas exigências. Vou me apoiar nele para justificar este relato que tem um pouco de pessoal.
O caso é que no sábado (14/6) nos reunimos numa sala da Avenida Paulista. "Nós", somos a diretoria da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC). Uma diretoria recém-eleita, embora alguns tenham integrado o grupo anterior.
Nossa pauta era discutir os planos para o futuro imediato. Existe muita coisa a ser feita e, na verdade, não sabemos direito por onde começar.
Temos dados da existência de 300 escolas de jornalismo no Brasil. Muitas delas oferecem cursos de jornalismo científico. Sabemos, por muitas razões, que boa parte está abaixo do desejável e estamos preocupados com isso.
Há um projeto da ABJC para um levantamentos desses dados. Eles são estratégicos para o desenvolvimento de uma política de divulgação científica mais consistente. Mas levantar os dados é só uma parte do que deve ser feito.
E o que deve ser feito?
Aí começaram as discussões que acabaram neste relato. Elas têm um conteúdo coletivo, que transcende o grupo. Daí a razão de estar sendo partilhado com prováveis leitores.
Eu mesmo fiz uma proposta. De imediato, devemos produzir um conjunto de textos refletindo sobre a história da ciência e a prática atual do jornalismo científico no Brasil. E oferecer essas idéias aos interessados. Neste trabalho, devemos ter a parceria de cientistas comprometidos com uma visão humanista de ciência.
Há uma outra proposta para se dar apoio a jornalistas no cotidiano, a partir de ações pontuais. Neste caso, deveríamos escrever um glossário explicitando a interessados o que é, digamos, mitose.
Mas, para isso, basta acionar o Google e aparece a explicação envolvendo a divisão celular. Meu interlocutor disse que era só um exemplo. Mas continuamos na discussão. Até a hora em que bati a porta e fui embora...
Por que aconteceu isso?
Bem, isso é parte dessa história...
Aparentemente, não há contradição entre as propostas. Mas, na verdade, elas caminham em direções opostas.
Meu interlocutor disse que, enquanto associação, devemos providenciar essas ajudas no cotidiano, porque, na correria, nossas colegas "não têm muito tempo para pensar".
Essa é a questão, os jornalistas não têm tempo para pensar...
Então, me convenci definitivamente do meu próprio argumento. Se não temos tempo para pensar, precisamos arranjar. E a melhor forma de fazer isso é com escritos capazes de fornecer inteligibilidade para as coisas do mundo.
"Apoio tópico"
Cientistas talentosos escreveram esses conteúdos. Richard Feynman, em Atoms in Motion, fez uma fascinante defesa da estrutura atômica como o único conhecimento que deveríamos resguardar se, por alguma razão, todo o restante desaparecesse. A estrutura atômica, segundo Feynman, pode nos devolver noções perdidas do mundo.
Feynman foi um homem fascinante. Amigo de José Leite Lopes, esteve no Brasil por alguns períodos. Falava um português razoável e gostava de tocar bongô. Divertiu seus interlocutores durante um jantar, em dezembro de 1959, quando propôs que a Encyclopaedia Britannica poderia ser escrita na cabeça de um alfinete. Nessa noite, vislumbrou a nanotecnologia.
Feynman morreu de câncer, pouco depois de desvendar o acidente com o ônibus espacial Challenger, em fevereiro de 1986. Ele usou água fria e um pedaço da vedação dos foguetes para explicar como o acidente aconteceu. Antes disso, diagnosticou corretamente a doença de sua mulher, ao contrário do que haviam feitos os médicos.
George Woodcock, escritor e filósofo anarquista canadense, escreveu em "A ditadura do relógio", um dos textos de A Rejeição à Política, de 1972, que "não há nada que diferencie tanto a sociedade ocidental de nossos dias das sociedades antigas da Europa e do Oriente que o conceito de tempo".
Ao contrário dos povos que desfrutavam do ritmo da natureza – o dia e a noite, as estações do ano – vivemos num mundo que gira de acordo com a engrenagem mecânica dos relógios, embora as próprias engrenagens tenham desaparecido. O relógio fez do tempo uma mercadoria e ela pode ser vendida, diz Woodcock, "como um sabonete ou um pacote de uva-passa".
Lewis Mumford, que escreveu sobre os efeitos da tecnologia e urbanização nas sociedades humanas, disse que o relógio "é a máquina mais importante da Idade da Máquina pela enorme influência que exerceu sobre a vida profissional e os hábitos do homem".
O relógio afastou, definitivamente, o homem dos ritmos da natureza. Por isso dizemos não ter mais tempo, como se, agora, a Terra girasse mais rápido. Na verdade, o que ocorre é o contrário, ainda que a duração dos dias só aumente de frações de segundos por século.
Quando critiquei o que chamei de "apoio tópico" aos que se iniciam no jornalismo científico, argumentei que se alguém não tiver tempo para pensar terá perdido sua humanidade. E aí não haverá mais nada a se fazer. Um homem, incapaz de conceber sua própria existência, irá até o fim de seu trajeto como um objeto mecânico, sem rumo e nenhum propósito.
Ao menos dois de meus companheiros me acusaram de "excludente" por essa interpretação. Eu me recusava a pensar numa maneira de ajudar um repórter iniciante com um termo mais hermético ou coisa parecida. Protestei em vão. Argumentei que era justamente o contrário, mas o estrago já estava feito.
Nilson Lage, veterano do jornalismo, inteligência refinada, me olhou com alguma surpresa quando me levantei para sair. Ele havia tentado dizer alguma coisa, mas não fora ouvido. Meus companheiros da ABJC continuaram alguma discussão enquanto eu mergulhava com o elevador de um para o outro andar.
Solução possível
Na Avenida Paulista, grupos de jovens da periferia, curtiam uma aventura no centro da cidade. Passei por eles como se atravessasse uma galáxia estranha. Estava aborrecido comigo mesmo e andei até o metrô com o desejo literal de mergulhar embaixo da terra.
Em Órfãos Cósmicos, que saiu na 15ª edição da Britannica, Loren Eiseley descreveu como nenhum outro a condição humana. Por nossos tendões, como cabos mecânicos, ainda não bem estirados devido nossa recente postura ereta, ou pelas sucessivas transformações por que passaram os músculos que formam nossos corpos, antes de tomar a forma atual. Aí Eiseley escreveu sua famosa frase sobre o homem ser "um órfão cósmico".
Como órfão cósmico, a esperança do homem é a possibilidade de contar para si mesmo uma história coerente. Um relato que dê inteligibilidade para sua presença no Universo, embora, de certa maneira, tudo pareça absurdo e irreal.
Caminhando pensei que nosso grupo não é o único com dúvidas sobre o melhor caminho a seguir. Nosso propósito é contribuir para que as descobertas da ciência possam integrar a vida das pessoas e que uma sociedade como a nossa, com milhões de jovens, rapazes e meninas como aqueles da Avenida Paulista, possa ter melhor sorte no futuro imediato.
Para isso devemos saltar alguns obstáculos.
Não tenho dúvida de que precisamos encontrar tempo para pensar, em vez de recorrermos a falsas soluções, embora, na correria, elas nos pareçam inteiramente razoáveis.
Mas também reconheço que é preciso ser tolerante. Meu companheiro que fez essa proposta não tinha em mente uma solução simplória. Como eu, ele também quer encontrar uma solução possível. A melhor delas. E para isso, temos que voltar a discutir.
(*) Jornalista