Imprima esta página    

OFJOR CIÊNCIA

OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.


GAGÁRIN, 40 ANOS DEPOIS
Imprensa esqueceu vôo pioneiro

Ulisses Capozoli (*)

Na manhã de 12 de abril de 1961 os motores de um enorme foguete prateado rugiram com fúria na base de Baikonur, na Ásia Central. Às 9h10, o conjunto formado pelo foguete e uma pequena cabine esférica montada em seu topo decolou deixando para trás uma nuvem de fumaça que a brisa diluiria aos poucos. A linha branca deixada pelos motores do foguete ainda estava nítida quando a cabine, levando o primeiro astronauta da Terra, Iuri Gagárin, entrou em órbita.

O vôo de Iuri Gagárin, aos 27 anos, foi a libertação do confinamento gravitacional que havia durado toda a história anterior da humanidade. De alguma maneira as pessoas se deram conta disso em todo o mundo. Os sistemas de comunicação eram precários e as emissoras de rádio foram as principais fontes de informação da inusitada conquista. Naquela manhã, a civilização entrava numa nova era. Gagárin havia transposto um moderno Cabo das Tormentas e abria o oceano cósmico à navegação.

Exatos 40 anos após o vôo de Gagárin, tudo o que os jornais e as revistas publicaram no Brasil foram pequenos textos, a maioria relacionada a comemorações realizadas na Rússia.

Qual o significado disso?

Fazer algumas considerações sobre o vôo de Gagárin, longe de esgotar o assunto, certamente permite trazer elementos para ajudar na compreensão de acontecimentos atuais – entre eles o que se convencionou chamar de "globalização". E isso não deveria ter passado batido nas redações.

Navios e trens

O vôo de Gagárin pode ser dividido em duas partes. A primeira, o vôo em si, que durou 108 minutos, numa órbita eliptica, como um anel achatado com perigeu e apogeu (menor e maior distância da Terra) de 181quilômetros e 327 quilômetros. A segunda, as implicações do vôo, hipótese aqui adotada para melhor compreensão do processo de "globalização".

De um ponto de vista técnico, o vôo orbital representava um passo importante na conquista anterior, em 4 de outubro de 1957, quando a mesma (e então) União Soviética havia colocado em torno da Terra o primeiro satélite artificial, o Sputnik 1. Na apertada Vostok, sob comando do centro de controle de vôo, Gagárin foi o primeiro homem a observar a Terra do espaço cósmico. Quando retornou, disse sua famosa frase: "A Terra é azul" .

Uma foto de Gagárin, ainda vestido com macacão de vôo, fala mais do que todas as palavras. Ao contrário do que aconteceria até sua morte, em 1968, o sempre sorridente Gagárin tem, nesse registro, a fisionomia enigmática de quem, como um novo Galileu, enxergou uma cena que até então havia permanecido oculta aos outros homens.

A foto enigmática já mereceria uma reflexão por parte da imprensa no momento em que a atmosfera, responsável pelo azul da Terra, em aquecimento crescente devido aos gases do efeito-estufa, ameaça criar o maior acidente ambiental da história da civilização. Mas a segunda implicação do vôo é ainda mais interessante.

Em 1946, num artigo escrito para uma revista especializada, o escritor inglês de ficção científica Arthur C. Clarke previra o uso de satélites artificiais para fins de comunicação. O vôo de Gagárin, mais que o lançamento do Sputnik, foi a confirmação de mudanças radicais em órbita da Terra, avalizando a previsão de Clarke. Em seguida (os norte-americanos fizeram vôos suborbitais e orbitais) apareceriam satélites primitivos de comunicação como os da série Echo – balões inflados de 30 metros de diâmetro que refletiam intensamente a luz solar, levando as pessoas a falar em "estrelas que andam".

Estavam criadas as bases para a "globalização". No século 16, Portugal havia iniciado esse processo com as viagens de descobrimento. Há pouco mais de 150 anos, em O Manifesto Comunista, Marx e Engels falaram em "globalização", referindo-se a uma nova divisão internacional do trabalho (com a contrapartida da redistribuição da riqueza) pelos meios de transporte, especialmente navios e estradas de ferro. Faltava um sistema de comunicação planetário, em tempo real, onde apenas a velocidade da luz seria o intervalo entre emissor e receptor. A conquista do espaço, anunciada pelo vôo de Gagárin, trouxe este terceiro e último elemento à "globalização", estabelecendo uma nova ordem internacional.

Acumulação de capitais

A função atual da mídia deve ser a de participar de um processo de alfabetização científica, circunstanciando historicamente fatos relevantes de forma a desenhar uma inteligibilidade possível do mundo. Esta é uma função do jornalismo interpretativo. Mas a reação que se observou, nesses 40 anos, de um fato tão relevante como o vôo de Iuri Gagárin é bem pouco estimulante no sentido de se acreditar que isso possa estar de fato ocorrendo.

A menos que este escrito seja, ele próprio, um equívoco, há um desejo geral de inteligibilidade do mundo. Este foi, nos primeiros tempos, o sentido da mitologia. Como explicar o ressurgimento de navios negreiros, imagens de horror de séculos passados, novamente singrando as costas da África, desta vez transportando crianças? O retorno dessas imagens do passado não estaria sugerindo uma desvalorização do trabalho, sob a metáfora de navios negreiros? E a desvalorização do trabalho não é uma característica do tipo de globalização em curso?

Uma significativa parte do mundo que lê jornais e revistas e acompanha o noticiário via TV e internet, tem, neste momento, os olhos voltados para Quebec, no Canadá, acompanhando as discussões sobre o estabelecimento hemisférico da Alca. A Aliança de Livre Comércio das Américas é a própria "globalização", no sentido mercantil que tem sido atribuído a esse processo por uma visão marcadamente economicista. Esta visão, como se fosse a única possível, é que parece relacionar-se estreitamente com a devalorização do trabalho, no sentido de direito, exercício de criatividade e consolidação da cidadania.

Certamente trata-se de um processo bem mais complexo que a pura visão economicista, como mostra o geógrafo brasileiro Milton Santos em seu penúltimo livro, Por uma Outra Globalização – do pensamento único à consciênia universal.

De qualquer maneira, o que ocorre, neste momento, é que o mundo, antes dividido numa diversidade de nações, tende a transformar-se numa superfície homogênea submetida a um único centro de poder. Claro que os analistas políticos enxergam aí processos complexos do ponto de vista de acumulação de capitais, o que não é motivo de reflexão deste espaço. A hipótese para a reflexão aqui proposta é que a "globalização" estabeleceu-se definitivamente a partir de um sistema de comunicação global, onde a virtualidade substituiu a materialidade dos bens, e a base disso tudo é de natureza científica e estreitamente relacionada com a conquista do espaço.

Interpretação e inteligibilidade

Os computadores foram fundamentais para essa conquista. Sem computadores os foguetes não voariam e nem teriam como ser construídos. Mas a exploração do espaço, entre outras caraterísticas estimulando a miniaturização, foi fundamental para o desenvolvimento de computadores pessoais e essas máquinas, agora indispensáveis, construíram uma nova sociedade.

Por tudo isso, certamente a mídia deveria ter aberto espaço ao vôo de Gagárin. Não como uma rememoração de um tempo, talvez ingênuo, onde, apesar da Guerra Fria e da ameaça nuclear, havia uma perspectiva de futuro promissor. Os vôos orbitais e, em 1969, a conquista da Lua, redimiram a ciência da imagem de destruição produzida pelo lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, ao final da Segunda Guerra Mundial.

Nada disso aconteceu. O noticiário do último 12 de abril foi uma rotina de futilidades. Nada com alguma dimensão histórica, nada que trouxesse conexão entre o que ocorreu, o que ocorre e o que deverá ocorrer. Essa falta de memória, ausência de prospecção do passado e do futuro talvez seja a melhor indicação de que a imprensa carece de reformulações. Idéias, propostas, iniciativas, projetos capazes de atender aquilo que cada leitor espera: uma interpretação que forneça inteligiblidade. Não pelo jornalismo opinativo, pelo que acha ou pensa um ou outro articulista, mas por um jornalismo interpretativo que desenhe a realidade pela contextualização histórica dos acontecimentos. Este parece ser o desafio.

(*) Jornalista especializado em divulgação de ciência, historiador da ciência e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC).



Volta ao índice

OfJor – próximo texto



Mande-nos seu comentário



Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores | Modo de Usar
Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você