OFJOR CIÊNCIA
OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.
IN VITRO
Ulisses Capozoli
Vingança da natureza
A edição de 18 de abril da revista Veja traz como matéria de capa "A vingança da natureza". São dez páginas de relatos que vão do efeito-estufa à carência de água potável para boa parte dos habitantes do planeta, além de manipulação genética. Muito mais interessante que a capa recentemente dada para Abílio Diniz e os hábitos de sua prole.
O material de capa da Veja quase sempre está acompanhado de um certo catastrofismo teológico, como se estivéssemos chegando ao final dos tempos. A Terra, como tudo o mais, está em movimento. Os climatologistas nos dizem que atravessamos um período interglacial e não se pode dizer quando uma nova glaciação deve começar. Até porque ainda não estão desvendados os mecanismos envolvidos com esse processo que, imagina-se, vão da variação na radiação solar a perturbações no movimento da Terra e deslocamento de continentes, passando por eventuais nuvens de poeira interestelar do braço da Galáxia em que vivemos.
De qualquer maneira, certamente é mais produtivo "pecar" por excesso que por omissão. Trabalhos deste tipo integram um processo de educação ambiental especialmente em um país como o Brasil, onde os livros são caros, raros (uma livraria para cada 84 mil brasileiros, segundo o IBGE) e nem sempre atualizados.
Ciência e sociedade
A sexta-feira, 20 de abril, trouxe bons motivos para comemorações por todos aqueles que não se deixam levar pelo discurso do mercado como o agente regulador da presença humana no mundo. Houve um tempo em que vivíamos da caça e da coleta de frutos, antes que se passasse para a fundação da agricultura, há doze mil anos – o que a Bíblia relata como a "expulsão do Paraíso". Nesse tempo não havia mercado, mas já havia necessidade de sobreviver. Sobrevivência é o princípio básico da vida.
Kroptkin interpretou a seleção natural de Darwin não só pela competição, mas especialmente pela ajuda mútua. Muitos organismos sobrevivem com base na sinergia. As formigas trabalham assim. Mas os lobos e elefantes, mamíferos inteligentes e sensíveis, certamente são exemplos mais próximos a serem considerados como exemplo.
O motivo das comemorações foi o recuo da indústria farmacêutica multinacional, que desistiu do processo que havia aberto em Pretória, na África do Sul, contra a importação de genéricos para enfrentar a epidemia de Aids que assola o aquele país. A África tem 25 milhões de soropositivos, metade da população contaminada com o vírus do HIV em todo o mundo. Só a África do Sul tem perto de 4,5 milhões.
A indústria farmacêutica alegava razões legais para impedir que a África do Sul (o Quênia também manifestou decisão de importar genéricos) comprasse os genéricos do Brasil e Índia, a preços muito abaixo dos convencionais. Para se ter uma idéia, a renda per capita do Quênia é de 60 dólares anuais. Como arrancar lucro de uma gente já tão miserável? A única resposta possível é: condenando todos à morte.
O recuo, para evitar um desgaste ainda maior na imagem da indústria farmacêutica, de alguma forma pode ser considerado uma vitória da vida.
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