OFJOR CIÊNCIA

OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.


CARTAS

A ESPERTEZA DOS FALSÁRIOS
Faltou fundamentação

Lendo o artigo "A esperteza dos falsificadores" [ver remissão abaixo], de Ulisses Capozoli

deparei-me com a seguinte frase: "Em sua linguagem pasteurizada, Veja registra que ‘a fraude do Archaeoraptor é exemplo de como cientistas sérios e publicações responsáveis podem ser enganados por espertalhões no competitivo universo da paleontologia’. Besteira."

Crítico leitor de Veja, exultei com a sentença transitada em julgado e inapelável do autor sobre o juízo formulado pela revista. Ajeitei-me na cadeira e preparei-me para ler com deleite o que imaginei ser uma argumentação límpida e cristalina que revelaria, de forma irrefutável, o erro daquele juízo, que passara incólume pelo meu crivo. "Besteira!". Abri o espírito para que se abeberasse nas fontes do autor e se alimentasse de sua sabedoria.

À medida, porém, que a leitura avançava, aquela expectativa foi dando lugar crescentemente ao sentimento de decepção. Não conseguia ver ali nada que justificasse a sentença, curta e taxativa, dispensando artigo ou verbo copulativo: "Besteira!"

O que encontramos?

"O universo da ciência... um campo minado. O que se convencionou chamar de big science... não deixa nada a dever às histórias..."

"Claro que existem cientistas geniais... Mas considerar que são todos inteiramente abnegados... é uma criação... da mídia."

"A maioria dos "cientistas" são...pesquisadores científicos."

"Um bom advogado pode acalentar projetos de um dia vir a ser um jurista..."

"Os critérios... gato por lebre... "

"...os cientistas modernos...(são) sacerdotes..."

"Em 1912, uma montagem grosseira... foi apresentada... como se fosse um ancestral humano..."

"...o engodo do homem de Piltdown encaixou-se como uma luva num preconceito existente, inclusive na comunidade científica, de uma pretensa superioridade branca na origem da humanidade."

"...um radioastrônomo anunciou a descoberta de um planeta em torno de um pulsar e... Ele fez a correção em público..."

Ora, onde está em todo esse circunlóquio e digressões a refutação da afirmação da revista de que cientistas podem ser enganados por espertalhões? Estaria nos esclarecimentos (não tão claros!) do autor de que nem todo pesquisador é cientista? Mas em que isso invalida a afirmação? Então só pesquisadores, mas nenhum cientista, trataram do Archaeoraptor? Por que o autor não afirma isso sem rebuços? Ou não foi o caso? Ou nenhum dos cientistas que estudaram o assunto era dos mais "abnegados"? Deveria eu, nesse caso, pressupor a desonestidade como regra geral entre os cientistas, como faz o autor, e não a honestidade, como faz a revista?

Estaria a refutação do autor em dizer que a comunidade científica caiu durante 40 anos no engodo do homem de Piltdown? Mas isso não prova, ao contrário, a afirmação da revista? Ou estaria no fato de que um radioastrônomo fez o mea-culpa em público e foi aplaudido de pé? Mas isso não comprova que o desmentido dependeu justamente da honestidade do cientista? Se ele fosse espertalhão não poderia enganar, por um certo tempo, outros cientistas e revistas sérias e prestigiosas?

São indagações para as quais não encontrei respostas no artigo do autor, de modo que a sentença peremptória que proferiu continua, a meu juízo, carecendo de sua devida fundamentação.

Cesário Marcos Lopes de Alexandria



Sobrou fundamentação

Meus parabéns pelas excelentes observações sobre duvidar sempre de tudo que é dito. É o que observamos no dia-a-dia, seja no trabalho, na mídia e, principalmente, em tudo que os políticos dizem, ou bobagens que as pessoas ouvem e saem repetindo sem antes raciocinar.

São jornalistas como os senhores que nos dão esperanças em receber sempre uma informação confiável.

Silvio Queiroz da Silva



Leia também

A esperteza dos falsificadores – Ulisses Capozoli



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