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MÁQUINAS PARADAS
Mídia, ambiente e saúde
Bruno Dorfman Buys (*)
"Um dia mundial para deixar o automóvel em casa." Com este título, reportagem na edição de quinta-feira (19/9) do Jornal do Brasil informava sobre o domingo, 22/9. De acordo com o jornal, neste domingo mais de duas mil cidades em todo o mundo desligariam seus motores para experimentar um dia sem automóveis.
O trânsito e o caos do transporte urbano não são exclusividade de nenhum país, não possuem tons geopolíticos, não estão restritos a hemisférios nem a sistemas de governo. O movimento, que hoje conta com uma militância internacional, teve origem em Paris durante a Copa de 1998. A prefeitura daquela cidade resolveu restringir o acesso a certas áreas, devido à necessidade de conter a poluição atmosférica e sonora.
A ação deu certo. Ainda em 98. o ministério francês do Meio Ambiente resolveu levar a idéia a mais 35 cidades do país. No ano seguinte, o número chegou a 186 cidades, com a adesão de várias da Itália. Em 2000 o projeto foi adotado pela União Européia, que o incluiu em um roteiro de discussões sobre mobilidade urbana.
Benefício e prevenção
Nazareno Affonso, diretor-presidente do Instituto Ruaviva (www.ruaviva.org.br), coordenou no Brasil a execução da jornada 2002 do movimento "Um dia sem meu carro", ocorrido em 22 de setembro. Ele critica o modelo atual de transporte baseado no automóvel particular, e aponta algumas contradições do sistema: "As ruas foram privatizadas. Elas foram planejadas apenas para o carro particular. Existe apenas uma via dominante, a via do automóvel, que toma cada vez mais o espaço das calçadas".
Outros problemas se seguem: "Os acidentes de trânsito no Brasil matam tanto quanto a violência urbana. Usa-se a palavra ‘fatalidade’, mas mas na realidade trata-se de uma tragédia consentida".
Na zona sul e centro do Rio de Janeiro, região onde moro e que conheço, o problema atinge proporções alarmantes. Com vários agravantes: o Rio é uma cidade turística. A qualidade dos serviços urbanos oferecidos ao turista na rua influi diretamente na renda da principal atividade econômica da cidade. Pesquisa feita pelo extinto website no. (www.no.com.br), no ano passado, apontava que um ciclista poderia, em horário comercial, ir do centro à Copacabana mais rapidamente do que um ônibus urbano.
No Rio, o automóvel ocupa, senão todos, pelo menos a maioria dos espaços urbanos, estacionando em cima de calçadas e em canteiros. Guardadores impõem preços exorbitantes pelo espaço que já pagamos com nossos impostos. O espaço dos pedestres está cada vez mais reduzido e de pior qualidade: os pisos das calçadas são esburacados e representam perigo para idosos e mulheres grávidas.
O ciclista convicto não consegue ir a lugar algum no Rio. As ciclovias não são respeitadas. Seus itinerários não ligam pontos da cidade, não são opção para quem quer deixar o carro em casa e locomover-se fazendo algum exercício. O trânsito, que tanto mata no país, poderia ceder algum espaço para o caminhar a pé e o ciclismo, benéficos à saúde e à prevenção de doenças cardiorrespiratórias. Seria resolver dois problemas com a mesma iniciativa.
Heróis ciclistas
O Rio de Janeiro, cidade de grande visibilidade no Brasil e no mundo, poderia ser – com alguma vontade política – um exemplo de ciclismo integrado ao transporte público. A bicicleta é o transporte urbano ideal para pequenas distâncias (até 7 km), e pode-se integrar facilmente com o ônibus urbano e com o metrô. Bicicletários de grande capacidade podem ser muito compactos, ocupando pouquíssimo espaço, se comparados com estacionamentos.
Ainda há, no Rio, a grande preocupação com o corpo e com a saúde, comum em cidades de praia. A bicicleta já é usada por própria conta e risco por vários ciclistas apaixonados, no meio do trânsito selvagem. Quem poderia prever o sucesso que faria, se tivesse apoio e proteção do poder público e da mídia?
Fica a sugestão aos candidatos da atual eleição. O transporte público é uma questão séria em qualquer cidade de médio ou grande porte. Em Brasília, o deputado Fernando Gabeira ia de bicicleta para o Congresso, alguns anos atrás, para chamar atenção para a questão. Na Holanda e na China, a bicicleta é meio de transporte popular importantíssimo. A França promove anualmente a mais importante competição ciclística do mundo, o Tour de France. Durante 21 dias de pedal, atletas mostram ao mundo o que uma bicicleta pode fazer. Todos os países mediterrâneos tem heróis ciclistas, atletas que venceram o Tour, ou outras provas na região.
O Rio não pode continuar refém dos carros particulares, uma solução individualista, agressiva ao ambiente e perigosa para as vidas das pessoas. É uma cidade que vende qualidade de vida, contato com o mar e com a montanha, lazer e realização. Carro e engarrafamento não combinam.
(*) Biólogo; e-mail <brunobuys@zipmail.com.br>
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