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DEBATE OCULTO
Darwin, herói ou fraude?

Gildo Magalhães (*)

O darwinismo, nas diversas formulações que recebeu desde sua proposição inicial por Charles Darwin em A Origem das Espécies, seja a do neodarwinismo, seja da versão sintética, ou da sociobiologia ou ainda outras, é uma teoria amplamente aceita por biólogos e não-biólogos. Dito da maneira mais simples, é a evolução por seleção natural regida pelo acaso, ou seja uma teoria que explica a evolução dos seres vivos através do surgimento de mutações ao acaso (das quais se originam variações com relação a um conjunto denominado "espécie") e subseqüente seleção de algumas dessas mutações pela ação do meio exterior (geralmente chamado de "ambiente", ou mais genericamente de "natureza"), aplicada a tais seres vivos. O resultado final se expressa na condição de indivíduos com tais mutações serem mais "adaptados" às hostilidades do ambiente e conseguirem ter mais descendentes do que as variações menos "adaptadas".

Saudado como um pilar da ciência contemporânea, ocorre no entanto que um exame das bases e das aplicações do darwinismo revela um paradigma que vem sendo bastante questionado desde sua apresentação. Trata-se de uma "revolução científica" em permanente crise, mas tão ferrenhamente defendida pela comunidade científica que se torna difícil contestá-la, sem o perigo de descrédito imediato, e quem o faz corre o risco de ser considerado não-científico ou irremediavelmente obsoleto. A teoria vem conseguindo enfrentar várias críticas com aparente satisfação, mas acaba sendo remendada à moda dos epiciclos, apesar da complicação que representam os artifícios destinados a salvar essa teoria, cujos fundamentos filosóficos e ideológicos não são suficientemente explicitados para todos.

O debate em torno da questão existe, mas ele é meio "escondido" de nossos alunos de Ciências Biológicas, ou mesmo de história das ciências, devido ao propósito de se torná-los antes de tudo adeptos dos paradigmas vigentes, sem lhes dar oportunidade para explorarem as possibilidades contrárias a tais paradigmas. A omissão é a regra geral, apesar de que muitos dos adeptos do darwinismo sabem que existem outros pontos de vista, e negam-se a falar nisto ou a escrever sobre as dissensões, a não ser para ridicularizá-las. É o que temos por exemplo numa publicação recente (Ridley, 1997), em que são apresentados 64 trabalhos sobre evolução, muitos deles de clássicos dos séculos 19 e 20, sem incluir um só que fosse contrário ao darwinismo.

Um contra-exemplo da atualidade do debate, que raramente chega ao conhecimento público como aconteceu neste caso, é o número especial de Les Cahiers de Science et Vie (1991), significativamente intitulado "Darwin ou Lamarck, a Querela da Evolução". Temos outra exceção no trabalho de Émile Noël (1981), que selecionou nove cientistas de renome envolvidos com as biociências, mas teve o cuidado de reunir tanto pessoas favoráveis quanto contrárias ao darwinismo, havendo mesmo aquelas que declararam não ter muita certeza quanto à posição mais correta. No cotidiano temos observado que um bom número de cientistas dessa área preferem dizer que não lhes importa se a teoria está correta ou não, pois não dependem dela nos seus afazeres diários. Evidentemente esta postura que se pretende pragmática não é satisfatória, pois todos encontramos no dia-a-dia alusões diretas ou indiretas de aplicações do darwinismo em alguma de suas formas.

Com o presente ensaio, objetiva-se rever sumariamente as posições em jogo no domínio da biologia, mas certamente esse escopo pode ser proveitosamente ampliado para incluir toda uma gama de aplicações em outros campos, da economia à antropologia, da epistemologia e da psicologia behaviorista à literatura, o que pretendemos fazer futuramente. Inicialmente, vamos rever alguns fatos mais conhecidos da biografia de Darwin.

As contribuições de Darwin

Charles Darwin (1809 -1882) nasceu perto de Shrewsbury em família inglesa de posses, com antecedentes notáveis. Seu avô paterno, Erasmus Darwin, foi um pensador que escreveu influente obra evolucionista, com uma teoria transformista que continha afinidades com a de outro evolucionista, o francês Lamarck. Por parte de mãe, era neto de Josuah Wedgewood, rico industrial da cerâmica que participou da chamada "revolução industrial" na Grã-Bretanha, associando-se a Watt e outros em aplicações de máquinas a vapor para vários empreendimentos.

A biografia de Charles Darwin é interessante, embora a maior parte do que se escreve a respeito seja laudatório e pouco crítico (especialmente quando se trata de biógrafos britânicos), realçando sempre seu lado de "gênio" (p. ex. Buican, 1990). Em trabalho recente, Desmond e Moore (2001) apresentam um enfoque mais interessante, examinando as raízes sociais e culturais do biografado, porém mantendo o tom benevolente para com os tormentos pessoais e dilemas morais de Darwin. É bem conhecida sua viagem pelo mundo a bordo do Beagle, em que fez anotações sobre fauna, flora e geologia dos lugares visitados. Também se conhece sua amizade com Charles Lyell, um dos fundadores da moderna geologia e que tinha sido amigo já de seu avô Erasmus. Sua vida confortável proporcionada pelas rendas de uma boa herança lhe deram o tempo necessário para se tornar um aplicado naturalista, menos por formação do que por ser um amador dedicado. A relação a seguir de trabalhos publicados por Darwin dá uma idéia de seu empenho e interesses, enquanto estudioso da História Natural.

** Remarks upon the Habits of the Genera Geospiza, Camarhynchus, Cactornis and Certhidea of Gould (1837)

** On Certain Areas of Elevation and Subsidence in the Pacific and Indian Oceans, as Deduced from the Study of Coral Formations (1838)

** Narrative of the Surveying Voyages of His Majesty’s Ships Adventure and Beagle, between the years 1826 and 1836, describing Their Examination of the Southern Shores of South America, and the Beagle’s Circumnavigation of the Globe. Vol. III. Journal and Remarks, 1832-1836 (1839)

** Humble-Bees (1841)

** The Structure and Distribution of Coral Reefs (1842)

** Geological Observations on South America (1846)

** Does Salt-water Kill Seeds? (1855)

** Productiveness of Foreign Seed (1857)

** On the Tendency of Species to Form Varieties; and on the Perpetuation of Varieties and Species by Natural Means of Selection (1858)

** On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life (1859)

** Natural Selection (1860)

** Fertilisation of Orchids by Insect Agency (1860)

** On the Various Contrivances by Which British and Foreign Orchids are Fertilised by Insects, and on the Good Effects of Intercrossing (1862)

** Variations Effected by Cultivation (1862)

** Recollections of Professor Henslow (1862)

** The Variation of Animals and Plants under Domestication (1868)

** Origin of Species (1869)

** The Descent of Man and Selection in Relation to Sex (1871)

** Pangenesis (1871)

** The Expression of the Emotions in Man and Animals (1872)

** Perceptions in the Lower Animals

** Flowers of the Primrose Destroyed by Birds (1874)

** Insectivorous Plants (1875)

** The Effects of Cross and Self-Fertilisation in the Vegetable Kingdom (1876)

** Sexual Selection in Relation to Monkeys (1876)

** The Different Forms of Flowers on Plants of the Same Species (1877)

** A Biographical Sketch of an Infant (1877)

** Erasmus Darwin (1879)

** The Power of Movement in Plants (1880)

** The Formation of Vegetable Mould, through the Action of Worms, with Observations on Their Habits (1881)

Além desses trabalhos de zoologia, botânica, geologia e biografia, postumamente foram editadas sua autobiografia e numerosa correspondência, bem como parte dos seus diários –restando ainda por publicar sua íntegra.

Também é famoso o episódio da prioridade na publicação da sua teoria evolutiva. Em termos do que hoje é consagrado na prática científica, a prioridade seria de Alfred Wallace, mas Lyell orientou Darwin a publicar sua própria teoria juntamente com o manuscrito que este recebera de Wallace, apesar de as duas teorias conterem também pontos de diferença. Na verdade, a historiografia oficial desses eventos, escrita por adeptos do darwinismo, começa a sofrer contestações, pois há uma discrepância entre a versão preliminar de Darwin para o famoso capítulo IV de A Origem das Espécies e a versão final da publicação (1859), que estranhamente coincide muito bem com o manuscrito de Wallace. Desde a década de 1980 foi levantada a hipótese de que Darwin teria inserido o texto de Wallace no seu, naturalmente omitindo o nome de Wallace, podendo mesmo Lyell ter destruído as provas materiais desse plágio (Ferreira, 1990, pp. 59-63). Este teria sido um episódio digno da "sobrevivência do mais apto"!...

Bases ideológicas do darwinismo

A própria disputa por uma prioridade na publicação pareceria algo forçada, uma vez que havia várias outras teorias evolutivas já propostas, além das de Darwin e Wallace, algumas com bastante superposição a estas. O que fez com que a de Darwin fosse tão amplamente divulgada? A resposta está na ideologia na qual se apoiava implicitamente Darwin: no laissez-faire do liberalismo econômico (que nada tem a ver com os princípios do liberalismo como doutrina da liberdade individual, consagrados como direitos universais) defendido por Adam Smith em A Riqueza das Nações (1776) – e que ainda é usado, até mesmo por darwinistas "revisionistas" como Stephen Jay Gould. Toda uma tradição da filosofia empiricista britânica que deságua em Adam Smith, ao prever a regulação do conjunto da economia pela "mão invisível" do mercado, se casava bem também com a teoria econômica de Thomas Malthus. Este, em seu ensaio sobre as populações (publicado em 1798 e confessamente livro de cabeceira de Darwin), propunha que a demografia humana cresceria geometricamente, enquanto que os recursos cresceriam menos, de forma aritmética.

São conhecidas as soluções de Malthus para a "superpopulação" resultante desse suposto desencontro: epidemias, guerras, a fome e outras catástrofes se incumbiriam de estabelecer um equilíbrio, o que se casava bem com os ensinamentos de Adam Smith sobre a auto-regulação do mercado. Certamente no auge do imperialismo e colonialismo britânico, uma teoria evolutiva que defendia aspectos como uma inevitável luta pela vida, espécies mais favorecidas e uma seleção natural regida pelo acaso, tinha condições de atrair a seu favor a opinião pública da sociedade vitoriana, que se enxergou justificada pela "ciência" e ajudou a promover ideologicamente a teoria de Darwin.

O darwinismo legitima assim a desigualdade das classes e das raças, bem como aceita a luta, e por extensão as guerras, como fator crucial para a civilização, pois determina quem é o mais apto (Ruffié, 1988). Esta é uma tendência peculiar e coerente com toda a corrente filosófica do empiricismo britânico, como por exemplo no conceito de sociedade apresentado por Thomas Hobbes, que concluiu pela afirmação de que "o homem é o lobo do homem". O neoliberalismo de hoje, especialmente depois da era Thatcher, e que chegou mais tarde ao poder no Brasil pelas mãos principalmente dos governos de Collor e Fernando Henrique Cardoso, admite os mesmos princípios que os similares do liberalismo da era vitoriana, apenas intensificados pela atuação global do capital.

A teoria malthusiana é igualmente a base ideológica de movimentos mais atuais, como o que propunha o "crescimento nulo" da população na década de 1970, embora tenha havido um abrandamento do radicalismo dessa proposta, que deu lugar àquela outra aparentemente mais suave, a do "crescimento sustentável". E na biologia, o espectro da ameaça do crescimento populacional tem sido a justificativa de ações ambientalistas de cunho ecológico conservador, que defendem o darwinismo ferozmente (como em Ehrlich, 1993). Essas propostas se baseiam em inferições estatísticas tão duvidosas que, não obstante sua aparente convicção, são passíveis de contestação também matematicamente, em "perigos" como o aumento populacional, o super-aquecimento do planeta, o fim da biodiversidade e a escassez de alimentos e de energia, como já o demonstrou recentemente um ecologista arrependido e ex-militante do movimento Greenpeace (Lomborg, 2001).

De fato, as análises estatísticas de Lomborg demonstram que, pelo contrário, a crescente urbanização tende a minorar os problemas econômicos da sociedade, e que a Terra ainda tem muito potencial para crescimento demográfico e possibilidades imensas de alimentar adequadamente essa população. Historicamente as pessoas da atualidade estão sendo melhor alimentadas do que antigamente, mas o espectro da fome existe devido a um problema distributivo, ou seja político, e não técnico ou de falta de alimentos. A saúde e a expectativa de vida só têm aumentado, até mesmo nos países subdesenvolvidos. Claro que é necessário cuidar nacional e internacionalmente do referido problema da distribuição de bens e riquezas, mas a decisão de fazer as economias crescerem e acelerarem cada vez mais também é vital para se resolver o problema. Aprofundar a industrialização é a melhor alternativa para todos e de todos os pontos de vista, apesar da ideologia anti-industrialista que se associou ao mito de sociedade "pós-industrial". A industrialização pode ajudar inclusive a diminuir a concentração de poluentes no ar; em particular, já foi demonstrado que a chuva ácida não está correlacionada com a emissão de NOx ou SO2 (Lomborg, 2001).

Recuperando uma agenda perdida na pregação romântica por um planeta mais "limpo", insistimos que a industrialização intensificada também é o único remédio adequado para problemas como a poluição das águas e o processamento do lixo. O uso de pesticidas (tanto industriais quanto naturais) não pode ser descartado para a produção de alimentos e eliminação da fome, tendo baixíssima correlação com doenças. Estudos mais desapaixonados também questionam que a variação do tamanho do buraco de ozônio seja função de efeitos de emissão causados pela industrialização (Maduro, 1990). Mesmo o aquecimento global tem sido contrariado por diversos especialistas em meteorologia, que em verdade apontam para a hipótese contrária, a de estarmos caminhando para uma nova era glacial (Hecht, 1994). O desflorestamento do planeta é certamente um problema, mas é localizado e a área cortada pode ser reflorestada, até mesmo se recuperando a diversidade vegetal e animal. Aliás, a propalada redução da biodiversidade em 40.000 espécies por ano (mesmo não havendo consenso entre os biólogos que permita saber exatamente o que é uma espécie) se revelou falsa, pois está mais perto de 200 espécies por ano – e a extinção pode ser desacelerada (Lomborg, 2001). Água e matérias-primas, inclusive os combustíveis não dão sinal de exaustão e novas tecnologias têm tornado possível tanto seu reaproveitamento quanto a descoberta de mais fontes energéticas. Em contrapartida, todas as propostas ambientalistas radicais têm um fundo na matriz malthusiano-darwinista.

Os antecedentes econômicos e ideológicos citados fizeram com que a obra de Darwin fosse muito bem divulgada pelos seus incentivadores, inclusive pela sempre citada contribuição do confronto público entre seu arquidefensor Thomas Huxley e o bispo criacionista Sam Wilberforce. Com o alarde e sensacionalismo criados em torno do episódio, logo a idéia de Darwin chegou a outros países. A propósito daquele debate, ele continha algumas sutilezas que a sua apresentação caricatural não deixa perceber, e algumas questões por ele levantadas continuaram sendo disputadas até hoje (Hellman, 1999). O grande impulso para a popularização das idéias darwinistas foi dado pela adesão de Herbert Spencer, na Inglaterra, e de Ernst Haeckel, na Alemanha, dois escritores muito populares e com afinidades ideológicas com a teoria de Darwin. No Brasil, o darwinismo teria chegado já na década de 1860, através de traduções francesas das obras de Darwin, Spencer, Haeckel e outros. Sua entrada nos meios acadêmicos brasileiros se deu com o médico Miranda de Azevedo em 1874, tendo-se divulgado pelo uso dos conceitos de evolução darwinista tão marcantes nas obras dos pensadores Sílvio Romero e Tobias Barreto (Collichio, 1988).

Por outro lado, houve sérias objeções a que nem Darwin nem seus patrocinadores souberam responder na época, tais como a idade da Terra e a diluição pouco a pouco das características dos progenitores, e portanto das variações, ao longo das gerações (o chamado "paradoxo de Jenkin"). Esta última dificuldade precisou esperar pela integração do mendelismo ao darwinismo, que se deu com a "teoria sintética", uma forma de neodarwinismo. Deve-se notar porém o ataque plenamente contemporâneo a Darwin, de origem mais filosófica e especulativa, feito pelo inglês Samuel Butler, que publicou já em 1863 seu artigo "Darwin entre as máquinas". A este se seguiu seu romance Erewhon, uma vigorosa sátira contra a hipocrisia moral vitoriana, na qual as máquinas seguem um esquema evolutivo darwiniano, para desnudar o que eram justificativas de domínio das classes abastadas sobre as mais pobres. O tema de Butler se presta admiravelmente à discussão da possibilidade de "inteligência artificial" – lembrando porém que a inteligência humana é um desafio não respondido pelo darwinismo (Blanc, 1994). As idéias de Butler foram modernamente retomadas em conexão sobre a discussão de máquinas que fazem outras máquinas, juntamente com uma hipótese de que o lamarckismo explicaria o mecanismo da evolução nos primórdios da vida (Dyson, 1998), sendo gradativamente substituído pelo mecanismo da seleção natural.

A teoria darwinista da evolução é, para seus atuais adeptos extremados, tão poderosa que mesmo para eventuais formas de vida alienígena, eles acreditam que esta terá se desenvolvido forçosamente de acordo com os princípios desta teoria (Dawkins, 1998). Os argumentos contrários ao darwinismo, quando expostos por darwinistas ortodoxos como Ernest Mayr ou Richard Dawkins, são sofismas que admitem o darwinismo como ponto de partida – para chegarem ao mesmo ponto de onde partiram. Por outro lado, embora seja como se verá adiante uma aparente dissidência, o chamado "saltacionismo" procura no fundo defender a teoria darwinista e atualizá-la, ainda que às custas de seu axioma de transformações lentas e graduais. Os seguidores da linha saltacionista afirmam que a evolução é materialista, não é finalista e não admite uma noção de progresso (Gould, 1979). Mesmo havendo subscrito a hipótese contrária à da teoria sintética, de que a seleção natural não é o único mecanismo determinante da evolução, ao longo de seus livros Stephen Jay Gould lembra que o próprio Darwin também falava de outros mecanismos além da seleção natural e Gould acaba fazendo concessões para nada mudar de fundamental, pois discorda veementemente de que o darwinismo esteja em crise ou em vias de ser superado – seus esforços são, pelo contrário, para revigorá-lo.

Uma das aplicações mais esdrúxulas dos seguidores do darwinismo tem sido a da epistemologia científica. Segundo essa visão, filósofos das ciências bastante renomados, entre os quais Karl Popper e David Hull, de maneiras e com alcances diferentes, teriam proposto que o próprio conhecimento avança por hipóteses que são selecionadas por mecanismos análogos ao da seleção natural: as idéias evoluem, sendo selecionadas as mais aptas na luta por sua existência (Ruiz e Ayala, 1998). Pode-se contra-argumentar notando que a história das ciências mostra que, diferentemente da evolução biológica, há idéias que vão e vêm, dando-se o retorno e atualização de uma idéia muito tempo depois do seu abandono (como por exemplo o sistema heliocêntrico de Aristarco e outros gregos, que só retorna após o Renascimento). Julgamos que a epistemologia, enquanto estudo do processo geral do conhecimento depende de se exercer um dom, este sim resultado da evolução biológica e não da seleção natural, que é a criatividade humana.

O evolucionismo sem Darwin

Pode-se indagar: mas há hoje em dia alguma teoria da evolução sem Darwin? Comecemos lembrando que a idéia de luta pela vida, com a sobrevivência e sucessão dos mais aptos, é bastante antiga, pois já se encontra no filósofo Lucrécio (98 – 54 a.C.), no seu longo poema De rerum natura, de cunho epicurista. A possibilidade de transformação só é contudo veiculada com mais ênfase após a descoberta das células ao microscópio (Barbieri, 1987). A comprovação de que há microrganismos invisíveis a olho nu durante o século 17 possibilitou uma idéia de alteração histórica nas formas de vida, em que aumentavam sua complexidade e diversidade. No século 18 foi estreitada a relação de paralelismo entre evolução e desenvolvimento embrionário, pois o embrião realiza a alteração de algo pequeno em seres diversificados e complexos; de fato, em 1744 o cientista Albrecht von Haller introduziu a palavra "evolução" para descrever o desenvolvimento do embrião (Gould, 1979). Sucederam-se então várias teorias propostas para a evolução, antes da de Charles Darwin, inclusive a de seu avô Erasmus Darwin.

A primeira teoria da evolução que se pode considerar completa foi a de Jean-Baptiste Lamarck, publicada em 1809, na Filosofia Zoológica, baseada em três grandes princípios. Segundo Barbieri (1987), tais princípios formam uma teoria correta da evolução se destituídos das últimas partes (indicadas em itálico, a seguir):

**A vida surgiu na superfície da Terra sob a forma de microrganismos por geração espontânea;

**Os mecanismos alteraram-se e adaptaram-se ao ambiente, mediante a hereditariedade dos caracteres adquiridos;

**A complexidade dos organismos aumentou com o tempo, porque há neles uma tendência intrínseca que os impele para níveis de organização cada vez mais complexos.

Segundo Bourguignon (1990), Lamarck apresentou quatro leis da vida de forma algo diferente em 1815, mas que se podem equiparar aos três princípios acima, acrescidos de sua teoria da progressão biológica.

Minha hipótese é de que não é preciso retirar nada das proposições lamarckianas, embora seus pormenores possam conter inúmeros erros. Na primeira proposição, entenda-se por geração espontânea não aquela destruída pelo argumento dos experimentos de Redi, Spallanzani e Pasteur, mas a formação primitiva de organismos replicantes como as bactérias, a partir por exemplo de cadeias de RNA. Neste caso, as origens da vida foram a partir da não-vida, ou seja uma geração, sob determinadas condições, "espontânea".

Para manter a segunda proposição de Lamarck, é necessário contrariar o "dogma central" da biologia molecular pós-Crick/Watson e admitir como que uma extensão do que ocorre na transcriptase reversa e que obrigasse a proteína a agir sobre o RNA, que por sua vez agiria sobre o DNA como codificante, uma realimentação teoricamente possível e que não vai contra nenhuma lei físico-química conhecida. Vários autores (como Blanc, 1994; Bourguigon, 1990; Barbieri, 1987; Thullier, 1994) já apontaram que o próprio Darwin era um neolamarckiano, pois subscrevia inteiramente a tese de Lamarck de que o uso e desuso de órgãos, enfim de que alguns novos hábitos ensejados por mudanças no meio, produzem efeitos hereditários ao longo de numerosas gerações. Para Darwin, são apenas aqueles caracteres que não são herdados os que estão sujeitos à seleção natural (Bourguigon, 1990). As teses lamarckistas a esse respeito foram conservadas até por renomados biólogos mais contemporâneos, como Pierre Grassé. Hoje esta hipótese volta a ser examinada, como por exemplo nos casos da resistência adquirida pelos mosquitos aos pesticidas organofosforados (Bourguigon, 1990, p 140), em mutações bacterianas ou ainda em anticorpos de coelhos, como nas experiências de Steele e Cairns (Chauvin, 1999).

Na terceira proposição lamarckiana, encontramos um ponto de vista defendido até por numerosos darwinistas ortodoxos, como Thomas e Julian Huxley, Mayr e Dawkins, embora rejeitada por darwinistas não-ortodoxos, como Stephen Jay Gould.. Esse aspecto do lamarckismo, que carrega em seu bojo a noção de progresso como paralela à evolução biológica, e pelo qual o estágio mais perfeito conhecido seria o homem, talvez seja mais polêmico ainda do que os anteriores. Na física, algo equivalente é admitido pelas teorias antrópicas, em maior ou menor grau, conforme se aceite o chamado princípio antrópico forte ou fraco, respectivamente.

Muitas pessoas pensam erroneamente que criticar a teoria darwiniana da evolução significa defender o criacionismo religioso na sua forma fundamentalista, isto é, a que toma literalmente a interpretação das escrituras sagradas (no caso majoritário a Bíblia, especialmente no livro de Gênesis). É verdade que esta oposição se torna forte quando conceitos teológicos simplistas são assumidos, mas ela se esvai na medida em que se examinam conceitos mais sofisticados da Divindade, como os do paleontólogo e filósofo Teilhard de Chardin. Isto de qualquer maneira é um falso debate, pois seus termos se situam em esferas diferentes, só que muitas vezes essa polêmica tem sido habilmente utilizada para opor um dogmatismo a outro. É possível propor uma teoria da evolução sem a seleção natural como mecanismo principal, acreditando ao mesmo tempo que a idade do Universo seja de muitos bilhões de anos e que todos organismos que conhecemos na Terra tenham um ou mais ancestrais comuns. Ou seja, há teorias evolutivas contrárias ao darwinismo que não são místicas – assim como há darwinistas que também têm convicções religiosas, o que mostra que artigos de fé podem ser relativamente independentes de posições científicas.

Geralmente os meios de comunicação, e mesmo os círculos científicos, insistem porém em alimentar essa oposição, que não chega a penetrar no âmago das questões realmente interessantes e relevantes.

Lembramos ainda que há diversas outras teorias evolutivas propostas posteriormente à de Darwin, que não examinaremos aqui. Dentre estas, podem–se citar (de acordo com Bourguigon, 1990) a visão de hologênese do século 20 (D. Rosa), a da pedomorfose e neotenia (Garstang, Vandel) e a da fenocópia (Piaget). Há ainda uma série de proposições relativas à coerência interna do ser vivo (Pichot), flutuações (I. Prigogine), catástrofes (René Thom), auto-organização (H. Atlan e Winiwarter), reações autocatalíticas que levam o sistema a sair "da borda do caos" (Stuart Kauffman) e outras que lançaram hipóteses ainda não transformadas em teorias da evolução, mas que parecem convergir para tal num futuro próximo.

Seguindo uma indicação de Carol Hugunin (1995) destacaremos a seguir algumas fundamentações apresentadas por Darwin na Origem das Espécies por meio de Seleção Natural, ou a Preservação das Raças Favorecidas na Luta pela Vida, e as contrastaremos com idéias evolucionistas alternativas.

Variações ao acaso

O acaso darwinista age como um pseudo igualador das oportunidades das diversas espécies ou variações terem maior descendência. Uma variável, o tempo, se encarrega então de fazer sobressair os indivíduos mais adaptados a outra variável, o ambiente, num processo que, como proposto, se dá totalmente ao acaso. A isto se chama de processo "natural" de seleção, para fazer analogia com a seleção "artificial" feita de maneira determinista por criadores de pombos (e também praticada por Darwin), de gado ou milho.

A seleção de mutações produzidas ao acaso pode trazer uma certa facilidade de descrever determinadas evoluções, especialmente uma vez que elas já se considerem ocorridas, mas de forma alguma consegue de per si explicar o fenômeno evolucionista. A probabilidade de uma única molécula, como por exemplo a do albúmen do ovo, ser produzida por acaso e pela ação térmica usual, supondo um meio constituído por substâncias convenientes e com 500 trilhões de vibrações por segundo (aproximadamente correspondendo à velocidade da luz) é de 2 x 10-321, ou de 10243 anos (Hugunin, 1995) – e se estima que o Universo teria pouco mais de 1010 anos. Resulta que seria preciso que o gen já tivesse a idéia do conjunto a fabricar, antes de fabricá-lo. É este também o argumento contra o desenvolvimento do olho por acaso, a partir das reações bioquímicas necessárias (Behe, 1997).

Acontece que muitos evolucionistas desde os darwinianos de primeira hora, como Thomas Huxley, não aceitaram a seleção natural como sendo o único fator importante na evolução (Morris, 2000). De toda maneira, um mecanismo (força da seleção natural) cuja ação é imprevisível (já que intervém sempre o acaso) é muito pouco útil na ciência. Daí se sugerir que a seleção feita em indivíduos por contingências externas não teria o poder de criar, mas só o de organizar as espécies (Chauvin, 1999).

Indo mais além no questionamento, pode-se indagar: o universo como um todo é regido pelo acaso e entrópico (como nos modelos de Newton para a física, de Adam Smith para a economia política, ou de Darwin para a evolução)? Ou é neguentrópico e dependente duma geometria não-linear de espaço-tempo que direciona os fenômenos dentro de si, num sentido de otimização, verificado com um mínimo dispêndio de energia? Neste caso, variações ao acaso não resultarão em caminhos de mínima energia, caso se apliquem à evolução teoremas do cálculo variacional e da estabilidade de sistemas.

Acreditamos que foi por intuir essa dificuldade, e não por motivações puramente de ordem ética ou filosófica que outros evolucionistas, como Lamarck, Haeckel, Dwight Dana etc., apontavam para a direcionalidade da evolução. Se a finalidade de um órgão está dada para resolver um problema num dado ambiente, então o ambiente pode ter influenciado direta ou indiretamente seu desenvolvimento; caso se queira tratar isto pelo acaso, no mínimo se deveria usar uma estatística do tipo de probabilidades condicionadas, que pode alterar em muito o cálculo em relação ao puro acaso.

Por outro lado, a crença de que tudo se trata de um cálculo de probabilidades, em última instância é um apelo para o reducionismo biológico. A vida não se reduz a fenômenos físico-químicos e as tentativas de diversos biólogos como Jacques Monod e François Jacob de tratar essa questão revelam um viés ideológico para o mecanicismo. Isto se evidencia com a tentativa de decifrar o enigma contentando-se com um dado "positivo", hoje tido como o programa contido no genoma da espécie, e não buscando as causas do desenvolvimento desse tipo de dado, que é antes um resultado do que uma causa (Atlan, 1992). Seria tão ambicioso como querer que um computador se construísse a si mesmo, a partir de impulsos ao acaso que favorecessem uma construção mais eficaz e o computador fosse assim gerando seus próprios programas de construção.

A falácia do genoma como plano do organismo é portanto conceitual, o que se verifica até mesmo quantitativamente: sua memória não conteria sequer o plano detalhado das sinapses cerebrais, com as suas 1014 conexões. O que o genoma contém são as instruções para se construir determinadas proteínas, os dois tipos de RNA e o próprio DNA, além de uma organização hierárquica. Essa limitação justifica uma hipótese recente que busca complementar a explicação causal do genoma com a do seu meio, que é uma célula (e mais corretamente um grupo de células), que possa "dialogar" com o DNA (Chauvin, 1999). Penso que possíveis interações do genoma e do citoplasma não são explicadas pela seleção natural, e este é um campo propício para a pesquisa biomolecular que deveria ser incentivado.

Em vista das dificuldades inerentes apontadas nos modelos darwinistas, uma solução alternativa é a de considerar que há na natureza um processo de auto-organização, próprio da termodinâmica de sistemas abertos, e que propicie localmente uma diminuição da entropia. Uma versão aproximada disso é aquela a que chegaram os teóricos da termodinâmica dos sistemas não-lineares, como I. Prigogone, considerando sistemas materiais complexos que se estruturam espontaneamente, de forma a minimizar a produção coletiva de entropia (Jacquard, 1988). A auto-organização como mecanismo é uma alternativa à seleção natural. Naturalmente, pode-se questionar: como esse princípio aparece?

A resposta deveria ser procurada na própria estrutura do Universo, dentro do qual a vida é um aspecto importante, mas não o único. A origem e evolução da vida podem então ser consideradas em analogia com a origem e evolução dos elementos químicos na forma da tabela periódica, a partir de entidades como as chamadas "partículas" atômicas. Certamente a questão pode ser ainda refinada para a própria física, em que a energia tende a se auto-organizar em "pacotes" que são as ditas "partículas". A complexidade decorre da capacidade natural que tem a matéria de se auto-organizar, capacidade esta entendida não como um mecanismo (pois senão poderia sofrer dos mesmos entraves que o mecanicismo darwinista), mas sim como um processo permanente, uma propriedade do Universo que provavelmente sempre fez parte de tudo que existe.

Faria então parte da complexidade natural que moléculas com certo peso molecular, como certos tipos de RNA e mesmo peptídeos que estavam presentes quando a Terra era um planeta jovem, consigam se replicar (Morris, 2000). É interessante assinalar aqui que todas as transformações evolutivas são marcadas por quebras de simetria, observação para a qual Pasteur foi o primeiro a contribuir com descobertas fundamentais no seu trabalho sobre isomeria óptica no ácido racêmico, quando estudou o problema das doenças das uvas viníferas; a assimetria é que engendra a complexidade, que por sua vez acarreta a tendência à evolução.

O Universo portanto, desde seus constituintes fundamentais até os fenômenos vitais poderia ser compreendido como resultante da aplicação de um princípio único, que é a auto-organização, que leva inevitavelmente à complexidade, por aplicação reiterada do princípio, como aconteceu com a criação da vida. Isso repõe a questão da direcionalidade ao longo do tempo, que passa a existir de fato e não como uma abstração fabricada a posteriori.

Pelo contrário, a falta de um princípio ordenador tem levado os darwinistas a esposarem noções de "adaptacionismo" em que se faz amplo uso de sofismas, pelos quais eles justificam as adaptações pelas próprias necessidades de adaptação, conduzindo isto sim a um finalismo ingênuo (Chauvin, 1999). Esta deficiência do darwinismo só pode ser superada admitindo-se que as variações sejam dirigidas a uma finalidade (teleologia), que não é determinista, ou fixista, mas que deriva da mencionada tendência universal à complexificação.

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(*) Professor da História da Ciência da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo; texto apresentado na 5ª Semana Temática da Biologia da USP, em 24/9/2002


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