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DEBATE OCULTO
Darwin, herói ou fraude?
Gildo Magalhães (*)
[Segunda e última parte do artigo. Clique em TEXTO ANTERIOR, no pé desta página, para ler o trecho inicial da matéria]
Variações pequenas e graduais
O darwinismo ortodoxo tem sido associado a variações contínuas e "lineares", de certa forma "unidimensionais" (que hoje diríamos se darem ao nível dos gens), mas nem Darwin nem os seus seguidores conseguiram realmente explicar a origem das espécies e alguns não aderiram à idéia de transições lentas e graduais, como por exemplo Thomas Huxley (Morris, 2000). Darwin, em A Origem das espécies (1859), nem sequer acreditava inteiramente no conceito de espécie, achando que o que havia eram conjuntos de mutações, as variedades definidas mais fortemente.
Faz parte da problemática da taxonomia e da evolução que variação e seleção sejam conceitos diferentes, mas que muitos biólogos costumam englobar num mesmo processo (Barbieri, 1987; Chauvin, 1999). As visões diferentes dos biólogos atuais sobre o conceito de espécie indicam que a questão permanece em aberto: a especiação ainda é um mistério, também do ponto de vista bioquímico (Barbieri, 1987).
Como toda espécie apresenta polimorfismo, sendo este uma manifestação da variação genotípica, conclui-se novamente que a variação não pode ter sido o motor da evolução mas apenas determinou sua ramificação (Chandebois, 1996). Pierre Grassé vai mais além, dizendo que o darwinismo se limita a variações dentro de uma mesma espécie, e que nada tem a dizer sobre as linhas evolutivas maiores, isto é, de gêneros, famílias etc. (in Noël, 1981).
Note-se também que a teoria darwinista de variações graduais dificilmente explicaria o surgimento de divisões bem acima da especiação, como a dos reinos vegetal e animal. Não explicando a origem das espécies, tem-se mais uma forte razão para que a seleção natural não possa ser o mecanismo geral da evolução, mas sim e quando muito, o mecanismo do equilíbrio das populações (Bourguigon, 1990).
O fato é que os registros fósseis não demonstram as alterações graduais previstas, o que levou Stephen Jay Gould e Niles Eldredge a propor na década de 1970 que as espécies estão normalmente em estase. Seria assim relativamente rara a evolução, que se caracterizaria pelo aparecimento abrupto de uma espécie, o "saltacionismo", ou "evolução pontuada", ou o aparecimento de grupos inteiros como no caso das aves, dos cordados, ou insetos. Gould chegou a ser chamado de marxista, por defender na biologia "revoluções" ao invés de transições graduais. Acusações semelhantes cercaram a comemoração do centésimo aniversário da sede do Museu Britânico em 1981, quando darwinistas ortodoxos acusaram a nova exposição de fósseis de ser uma apologia da revolução e estar de acordo com a Dialética da Natureza, de Engels, devido à apresentação de esquemas de classificação cladistas, que segundo os críticos apoiavam as transformações descontínuas das espécies (Thuillier, 1981). A transformação abrupta já havia sido defendida por Cuvier em 1830, juntamente com sua outra objeção ao evolucionismo, a saber a existência de filos, que não teriam ligação entre si – hoje vemos as arqueobactérias como elementos comuns a toda vida, mas naquele tempo as menores unidades de mesma base taxonômica que poderiam funcionar como um tipo de "máximo divisor comum" eram os filos.
Como referido atrás, a hipótese de seleção natural descreve um mecanismo que ajuda a conservar espécies (variações) existentes e não a criar novas espécies. A alegação de biólogos de que já se constatou em tempos relativamente muito curtos a criação in natura de espécies vegetais e animais é contestada por outros cientistas. Casos clássicos desta suposta evidência da seleção natural em ação direta (e há poucos), como o da mariposa da bétula têm sido contestados. As conhecidas experiências de Kettlewell a este respeito – com uma espécie de mariposa que se torna negra nas zonas industriais, confundindo-se com o tronco coberto de fuligem das bétulas, não seriam uma evidência da seleção natural em marcha, já que tal mariposa nunca pousa nos troncos das bétulas, mas sim sob as folhas dos ramos; tampouco as experiências com drosófilas aladas e ápteras de Teissier conseguiram "demonstrar" a evolução natural, pois parecem ter sido eivadas de equívocos (Chauvin, 1999).
Em termos de biologia molecular, o darwinismo se defronta com este problema: como passar da microevolução à macroevolução? Há neste campo dificuldades atuais em querer usar a seleção natural para explicar a vida que foram de certa forma antecipadas pelo próprio Darwin, quando se deparou com problemas em torno da evolução de um órgão complexo (cf. suas obras Origem das espécies, A Fecundação das Orquídeas). Já referimos atrás o exemplo clássico do olho, também levantado por Darwin e que vai passando pelas reflexões de vários filósofos como Bergson no início do século 20 até chegar nas objeções de bioquímicos atuais (Behe, 1997).
Voltamos por essa via ao ponto relevante já mencionado, de que o darwinismo moderno vê no gen uma espécie de comando reducionista, mas mesmo que um determinado gen traduza um único comando que seja para fabricar uma proteína específica, esta é uma concepção muito simplificadora da biologia pois não explica porque as coisas são assim (Schützenberger, 1996). Será que o material genético tem outros papéis além de simplesmente transmitir o código genético? E como poderia haver gens independentes, que decidissem o que fazer, sem uma participação interdependente dos outros gens?
A visão mecanicista do homem como máquina de transmissão de gens é um ponto fundamental para justificar as teorias da sociobiologia, denunciadas como novas formas da ideologia do eugenismo, movimento fundado pelo primo de Darwin, Francis Galton, e disseminado pelo filho de Darwin, Leonard (Blanc, 1994;Thuillier, 1994; Lewontin, 1993). A eugenia se propagou rapidamente, fazendo parte de várias ideologias médicas e de saúde pública da primeira metade do século 20 – além da sua conhecida influência em movimentos racistas e fascistas, como o nazismo. Associado a este lado existe também todo um terreno de pseudo-ciências, como a frenologia e as tipologias criminosas de Lombroso (que foi paradoxalmente uma pessoa filiada ao socialismo). O Brasil ainda tem sociedades eugênicas e a eugenia está presente até hoje em alguns pontos do sistema educacional brasileiro (Bizzo, 1998).
Nesta manifestação extremada do darwinismo (por alguns chamada de "ultradarwinismo") que é a eugenia, admite-se a existência de um tipo genético uniforme. Ocorre porém que as pesquisas mostraram que o que há é uma enorme diversidade genética entre as populações para uma dada espécie. Conclusões a respeito de tal diversidade levaram à proposição da teoria do neutralismo das variações, como no trabalho feito por Motoo Kimura: a grande maioria dos alelos seria neutra do ponto de vista da seleção natural. O polimorfismo, admitido quando pelo menos 2% dos indivíduos são heterozigotos em relação a um determinado caráter das populações, é enorme: pelo menos 15% dos caracteres de um indivíduo são heterozigotos (Jaquard, 1988). Assim, Kimura chegou à conclusão de que a maior parte dos gens é neutra do ponto de vista da seleção natural. Esta solução é contudo mais darwiniana do que parece, por apoiar ainda mais o acaso: a substituição de um alelo não funcional (que é a maioria, como visto) por outro é devida ao acaso. O darwinismo retorna por esta via do acaso e é reforçado também porque se preserva o recurso à seleção natural, desta vez para a parte funcional dos gens.
Observamos que isto converge coerentemente de novo com a sociobiologia, quando esta aplica a teoria da seleção natural aos comportamentos, de forma que exista uma "natureza" humana geneticamente programada. Desta vez, a já citada teoria da neutralidade reforça a base para biólogos como Ernst Mayr recusarem a igualdade entre os seres humanos, já que geneticamente sempre há variações produzidas continuamente, de forma aleatória e sem compromisso com a seleção. Concorrendo para uma visão sociobiológica encontra-se a chamada psicologia evolucionária, que também procura demonstrar que muitos dos comportamentos humanos têm fundamentação genética.
A sociobiologia tem faces que parecem "boazinhas", como a da defesa darwinista do altruísmo animal, e a do aprovisionamento ("foraging") ótimo, que fazem generalizações de comportamentos animais para o humano. Na verdade, sem falar na questionabilidade dos dados quantitativos levantados por estes argumentos, esses comportamentos encontram outras explicações que não o darwinismo, e que são de ordem etológica e fisiológica,. Das teses sociobiológicas com tal fundamentação há algumas que caminham diretamente para conceitos de eugenia, como o "investimento parental", e outras que não caminham para lugar algum, como a coevolução, presumida como explicação do parasitismo e mimetismo (Chauvin, 1999).
Estudos de embriologia apresentam resultados embaraçosos para a diferenciação das espécies no darwinismo, desde a chamada "lei" de Haeckel (com a célebre afirmação de que a ontogênense recapitula a filogênese – algo nunca desmentido categoricamente, mas de que não se sabe o como e porquê), até os resultados surpreendentes da radiação mitogenética observada por Alexander Gurvitch, comprovando que há uma forma de a célula se "comunicar" com o meio (Voeikov, 1999).
Para explicar tais resultados, acreditamos ser possível usar a hipótese referida atrás, de que a receita do desenvolvimento embrionário não está escrita no ADN e sim no citoplasma da célula (Chandebois, 1996). Isto se daria de forma que o surgimento de tecidos e órgãos obedeça a um plano automático de complexidade, com funções desencadeadas internamente célula pela ação do seu entorno. É interessante que isto recolocando em discussão uma teoria epigenética da evolução, desta vez de forma mais moderna do que a epigenia em Maupertuis ou Needham. Nessa teoria da evolução, teríamos no citoplasma a memória da espécie; uma nova espécie surgiria então quando as modificações do fundo citoplasmático repercutissem no genoma após a fecundação do ovo, atingindo assim os cromossomas paterno e materno de um mesmo par (Chandebois, 1996, p. 216). Ora isto representa a possibilidade de "herança de caracteres adquiridos", agora traduzível em linguagem da biologia molecular, ponto a que voltaremos mais à frente.
De toda forma, o saltacionismo, ao menos aquele proposto por Gould e Eldredge, que na verdade retoma uma concepção mais antiga de Richard Goldschmidt (1940), é também uma forma de darwinismo, que se vê porém em dificuldades para explicar as macromutações a partir da biologia molecular. O resultado dessas inconsistências foi a fabricação de uma explicação estatística para a existência de tendências progressivas, como a complexificação crescente do sistema nervoso central (Schützenberger, 1996), ao invés de se admitir uma tendência natural para a complexificação, que por sua vez daria um fundamento para a concepção de progresso, assunto a que também retomaremos oportunamente mais adiante.
É claro que uma teoria evolucionista mas não darwinista poderia admitir a existência de saltos maiores, descontínuos. Exatamente devido à complexificação, e ao contrário das explicações darwinistas, diríamos que se trataria de saltos "não lineares", "geométricos", que se dariam talvez ao nível dos cromossomos.
Uma competição feroz
Desde os tempos de Darwin se apontou para a tautologia das descrições que concluíam pela "sobrevivência do mais apto" (expressão cunhada por Spencer) para sobreviver. No fundo, essa fraqueza decorre de ser pequeno o valor das explicações da seleção natural, sempre do tipo post hoc, ergo propter hoc. A justificativa maior para essa teoria enfatizar a luta pela sobrevivência, como apontado atrás, parece ter sido a da economia política do colonialismo britânico. A ideologia da competição autônoma entre os indivíduos e empresas era um baluarte do liberalismo teorizado por Adam Smith. Na situação idealizada por ele não há um fio condutor da economia, como seria o Estado dirigista. Pelo contrário, tudo é deixado à "mão invisível" do mercado, que é o homólogo à seleção natural de Darwin. Spencer, um dos darwinistas mais radicais do século 19, estendeu o conceito de sobrevivência do mais apto na natureza à esfera econômica e social (e ele mesmo chamou isto de darwinismo social).
Mas não se esqueça que o próprio Darwin, especialmente em A descendência do homem fez apologia da eliminação dos mais fracos pela seleção natural (Blanc, 1994), ao invés de se alinhar com os que achavam que se devia contrariar o laissez-faire do liberalismo, por exemplo tendo médicos para a população mais desassistida, cuidados sociais etc. Os defensores de Darwin tentam esconder que ele mostrou inclinações racistas em sua obra e não resistiu a flertar com a eugenia (Blanc, 1994; Thullier,1994). A extensão da eugenia para "limpeza" pela eliminação dos que não conseguem competir foi reafirmada como tese de biólogos como Konrad Lorenz no tempo da Alemanha nazista, e não tem deixado de surgir em vários momentos, inclusive nas discussões atuais sobre a ética da clonagem.
A natureza é porém diferente da selvageria da luta pela sobrevivência – ela exibe um tipo de harmonia que se poderia considerar homóloga ao descrito pela "concordância católica" de Nicolau de Cusa no século 20, que pregava a convivência pacífica entre as diferentes religiões. Mais modernamente essa tese de harmonia entre contrários se expressou no ideal republicano de reconhecimento dos mesmos direitos, independentemente de diferenças sociais e econômicas, de opiniões e culturas. Isto não quer dizer que se defenda a utopia de um jardim edênico, onde o carneiro pastasse ao lado do lobo, mas quer dizer que há uma relação de regulação coletiva. O indivíduo e os processos individuais (inclusive episódios de luta pela sobrevivência) existem na história enquanto ao mesmo tempo se observarem regras dentro do todo, o que mais uma vez vai contra o puro acaso.
Apenas as espécies menos complexas parecem à primeira vista obedecer a teoria malthusiana que serviu de base a Darwin, em que há um número prodigioso de descendentes em cada geração, dos quais só poucos chegarão à fase adulta, e aonde a sobrevivência parece ser devida ao acaso e à maior aptidão. Peixes, répteis e insetos podem comer uns aos outros e até mesmo seus parceiros sexuais e seus próprios ovos. Mas animais como os mamíferos superiores parecem agir diferentemente, com estruturas sociais mais elaboradas e o cuidado coletivo da prole. Portanto, mesmo em níveis menos complexos do que o homem, a regra não é a competição e a seleção, mas sim a cooperação e a interdependência entre os organismos, e isto não decorre de razões egoístas, pois está em concordância com a tendência à complexificação por nós defendida, que leva ao surgimento de componentes de socialização.
O que resta da teoria darwiniana de evolução sem essa influência das idéias malthusianas? A noção de seleção natural considera como evidência de sucesso a descendência numerosa. Quando se tenta aplicar o esquema darwinista para explicar a cooperação e o altruísmo, estes na verdade ocorrem por uma questão de egoísmo "genético" para produzir descendência mais numerosa, como se a informação genética se materializasse na forma de um raciocínio mental instintivo. Negam-se assim a própria cooperação, o altruísmo e a socialização como fatores formadores de comportamento, pois para o darwinista a decisão de ajudar outro membro da espécie ou mesmo outra espécie se deve a tal iniciativa individualista e não social. A harmonia da natureza contraposta à competição feroz pela sobrevivência coloca portanto uma pergunta mais radical do que a proposta por aqueles que, como Gould, repetem a frase de Darwin, de que a seleção natural não deveria ser o único mecanismo da seleção: a resposta não pode ser um mecanismo fixo?
A propósito da competição entre indivíduos, observamos que o cruzamento intra-específico ("inbreeding") foi observado por Darwin entre criadores de cavalos, cães e pombos para a seleção artificial de características desejadas. É conhecido que esta seleção genética pode conduzir rapidamente a doenças, como se observa facilmente hoje nos cães pastores alemães. Animais domesticados podem ser mais vantajosamente selecionados por cruzamentos misturados, inter-específicos ("outbreeding"), para maior versatilidade e vigor. É o que acontece também com sementes híbridas, de interesse agronômico exatamente por terem aquelas qualidades.
Por outro lado, a questão de sobrevivência tem uma relação mútua com o meio ambiente, que não é fixo, pois tem havido evoluções geológicas e climatológicas constantemente, às vezes em poucos milhares de anos, de forma que uma evolução por "seleção natural" não teria tempo para produzir adaptações perfeitas com ambientes instáveis. A própria evolução se dá de forma a que a vida seja cada vez mais homeostática (capaz de regular suas condições fisiológicas internas, a despeito de variações no meio), até chegar nos pássaros e mamíferos que são homeotérmicos.
E, finalmente, lembramos que o ser vivo está continuamente modificando seu ambiente. O aparecimento da fotossíntese é um grande exemplo disto, pois o enriquecimento da atmosfera com oxigênio levou à vida aeróbica, e posteriormente à máxima mobilidade graças ao desenvolvimento de um sistema nervoso, que por sua vez levou a um novo relacionamento com o meio (Bourguignon, 1990). O homem modifica ainda mais radicalmente seu meio, porque o faz em tempos recordes, podendo inclusive usar seu cérebro para refletir sobre esse fato e tomar decisões ambientais, quando assim o deseja. Desta forma, nem o meio ambiente nem tampouco a seleção natural, ou ainda a sua conjunção, podem ser os mecanismos da evolução. A existência de uma descendência mais numerosa é um resultado e não uma causa, enquanto que a miscigenação parece muito mais adequada para a dinâmica dum ambiente em evolução.
Igualdade natural entre as espécies, inclusive a humana
Do ponto de vista da seleção natural, o homem seria uma espécie pouco apta a sobreviver, sendo mais fraco e nu, mas na verdade é a espécie mais adaptada a condições ambientais instáveis, condição fundamental para a evolução e já referida no item precedente. Foi devido ao uso da razão pelo homem que sua presença se impôs às demais formas de vida, o que o levou a criar a linguagem articulada, a viver em sociedades complexas e enfim, ao contrário das demais espécies, a fabricar uma cultura altamente elaborada e transmissível sem ser de forma genética. É devido à infância prolongada que o homem desenvolve sua inteligência e criatividade, que o capacitam a assimilar e desenvolver tecnologias, desde o fogo até as espaçonaves. A Terra e sua biosfera são o oposto de um ambiente fixo (Vernadsky, 1997) e a evolução tem nela agido para gerar novas espécies que sucedem outras extintas sem tanta versatilidade para transformar a biosfera.
A visão darwinista do homem como mais um animal entre os demais também está por trás das propostas de prática eugênica. Mas antepondo-se a esta visão, observamos que a cultura fez com que a evolução fosse levada na direção desejada pelo homem, uma espécie de lamarckismo como reconhecido até por defensores do darwinismo (Gould, 1979).
O aparecimento e desenvolvimento da mente não podem ser devidamente explicados pela seleção natural, e isto em última análise é que diferencia o homem dos demais animais. Prova disso são as variáveis propostas para justificar a evolução humana, tais como capacidade craniana, bipedismo etc., que concorrem com o cérebro na mesma seqüência do famoso paradoxo do ovo e da galinha: quem nasceu primeiro? O homem, provavelmente já desde pelo menos 2 milhões de anos, tem a capacidade de falar ( pela anatomia da faringe) e desenvolveu a linguagem articulada que o caracteriza, de forma diferente da linguagem de qualquer animal.
Se por um lado o aparecimento do homem encontra dificuldades explicativas em termos de seleção natural, é certo que a evolução biológica do homem se encontra estacionada, pelo menos desde uns cem mil anos, fora talvez algumas variações de menor importância, como a cor da pele. O homem tornou-se agente cultural e econômico de seu contínuo desenvolvimento, enfim um homo sapiens, desde essa época recente, ou sua evolução cultural começa quando os restos fósseis nos põem em frente de alguém que já era humano devido a ser homo faber, um fabricante de ferramentas? Neste caso, teremos que recuar mesmo muito mais tempo e provavelmente qualquer antropóide teria, ainda que tosca e preliminarmente, o conjunto de todas as condições surgidas ex abrupto num salto evolutivo único.
Também no fenômeno humano podemos discutir a empregabilidade do conceito de acaso. O acaso revela-se como um contingenciamento das suas ações, mas isto é devido ao enorme número de variáveis em jogo, de difícil análise. De certa forma, a cultura humana anula um componente poderoso da imprevisibilidade: sabemos que, garantidas certas premissas (evitar uma guerra nuclear de holocausto total, evitar colisões catastróficas com asteróides etc.), é uma certeza e não por acaso que vamos descobrir cura para Aids e câncer, é certo que vamos saber mais física e química daqui a um século, sem dúvida que saberemos como buscar novas fontes de energia e poderemos com segurança prever que erradicaremos a fome se os homens e seus governos assim o quiserem, e assim por diante. Por outro lado, as demais espécies se sujeitam mais fortemente ao contingenciamento.
Em síntese, o homem consegue desvendar na natureza os princípios de ordenação do universo, como se evidencia por exemplo pelos estudos de forma e crescimento de D’Arcy Thompson, em que o esquema da chamada seção áurea (ou "divina", como diziam os antigos) permite compreender fatos básicos de reprodução e desenvolvimento mantendo-se a forma original. Usando sua razão ele descobriu assim algo que na verdade existiria com ou sem o surgimento do homem. Só que o homem penetra nessa explicação, que é a sua própria explicação existencial. Ser é crescer, no sentido evolutivo e no sentido de uma direcionalidade do processo vital.
Contrariando-se a premissa darwinista de igualdade entre as espécies, e passando a considerar o homem como ponto mais elevado da evolução, podemos empreender agora a análise de um dos pontos mais polêmicos que se instauraram no debate cultural, o do progresso. A aceitação do darwinismo pela ciência foi o fulcro sobre o qual se levantou a alavanca do relativismo cultural, que impregnou as ciências humanas e que ainda impera como seu paradigma, negando a noção de progresso, relegado a uma posição de ideologia enganosa.
A idéia de progresso
A maioria dos intérpretes atuais da obra de Darwin opina que para ele a evolução não tem o sentido de progresso ou de complexificação. Igualmente, a maioria dos biólogos rejeita a idéia de progresso aplicada à evolução. Stephen Jay Gould, por exemplo, acredita na contingência absoluta, em que a aparência de ordem é apenas porque se observariam extremos ("caudas") de distribuições estatísticas e não as suas regiões centrais (Gould, 2001).
O progresso medido como maior eficiência, maior complexidade, etc. (cf. Barahona, 1998), obviamente não deixa de conter juízos de valor antropométricos, mas é justo que assim o seja, pois a mente humana é o ponto alto que se verificou na evolução biológica – só a mente altamente desenvolvida do homem poderia julgar o processo do qual ela faz parte! Por outro lado, estou convicto de que a evolução biológica pode ser equacionada com o progresso devido ao comportamento "social" elementar até no nível das células, em que a informação é potencializada não pelo código genético de cada uma, mas pela interação das diferentes partes do citoplasma para uma dada célula e resultante da interação de diferentes células entre si (Chandebois, 1996).
Para fazer frente às objeções matemáticas de Gould, o biofísico Jorge Wagensberg (2002) propôs uma definição quantitativa de progresso aplicável aos seres vivos. Com uma formulação que parte da definição de entropia em acordo com a teoria da informação, ele demonstra uma identidade matemática, que se pode assim exprimir em linguagem simplificada:
(complexidade de um sistema) + (capacidade de antecipação do sistema quanto a mudanças no ambiente) º(incerteza do ambiente) + (ação do sistema sobre o ambiente).
Desta identidade é possível a definição de uma variável, a que se pode dar o nome de progresso (para ficar de acordo com o sentido mais intuitivo que a palavra adquiriu na época contemporânea), e que está ligada à independência do sistema com relação ao seu ambiente. Desta forma, quanto menores as variações de um sistema com relação às variações do meio ambiente, maior será sua independência e maior o grau de progresso alcançado. Com isto se consegue um paralelo entre complexidade, evolução e progresso: todos parecem seguir a "flecha do tempo", pois embora localmente e por algum tempo possa haver retrocesso nessas categorias, no geral uma vez instauradas não há volta para trás.
Pode-se opor alguma restrição nesta formulação à pretensão de abrangência do conceito informacional de entropia para se medir o conhecimento, pois este não se reduz à simples informação, e isto representa a diferença entre o que um computador "sabe" (mesmo ampliado através de recursos como a internet) e o que um ser humano faz quando cria algo novo. No entanto, não há dúvida de que a definição acima, mesmo contendo algum elemento reducionista, apresenta um argumento na mesma linguagem matemática a que devem ser sensíveis os defensores da eliminação do conceito de progresso, capaz portanto de demolir o relativismo cultural embutido na ojeriza de biólogos e cientistas sociais pelo progresso. A posição destes contra a ideologia do progresso se insere na esteira da idéia de decadência na história ocidental. Não pretendemos aqui desenvolver mais este argumento, limitando-nos no momento a afirmar que é preciso reverter essa tendência, livrando a cultura do clima de pessimismo que foi assim instalado.
Opondo-nos ao darwinismo, insistimos que podemos considerar que as variações das espécies não surgem ao acaso, mas como um fenômeno natural da criação de ordem de um nível superior, com um dispêndio mínimo de energia, otimizado de acordo com os princípios de Fermat e Leibniz a esse respeito. A ideologia do liberalismo é que promove a noção de acaso como fonte da evolução, e isto traz conseqüências importantes para a noção de liberdade humana.
A liberdade humana não pode ser circunscrita a um conjunto de informações codificadas, por maior que seja sua capacidade de armazenamento. A criatividade da mente diferencia um robô programado de qualquer ser humano. O cérebro humano e sua propriedade de criar cultura parecem desafiar qualquer explicação darwinista (Blanc, 1994), de nada valendo o recurso às adaptações sem finalidade momentânea, ou "exaptações" de Stephen Jay Gould, que poderiam ser vistas como tentativas frustradas (cf. Chauvin, 1999) de escapar à tautologia fundamental do darwinismo, a citada aptidão de sobreviverem os mais aptos. Mesmo sem entrar na criação científica e artística, o mero funcionamento normal da mente manifesto pelo pensamento consciente é um sério problema para os darwinistas.
O problema geral do darwinismo, visto por este ângulo, é novamente que adota uma forma de mecanicismo, ou reducionismo. Nenhuma forma de algoritmo pode descrever o funcionamento da mente humana, como demonstra Roger Penrose em seu argumento matemático de funções não-recursivas para provar a impossibilidade da inteligência artificial (Penrose, 1990). Ora, julgamos que o cérebro humano é um exemplo mais complexo de um processo não-linear que é a própria evolução do universo, portanto explicar a seleção em termos algorítmicos como a descrição até hoje sugerida pela biologia molecular, certamente é uma ultra-simplificação que pode ter até um certo valor descritivo, mas não apreende a essência do fenômeno. A extensão dessa idéia reducionista através da psicologia evolutiva considera que a mente humana é composta de "módulos" mentais, como se houvesse um grande número de processadores paralelos no cérebro, com funções específicas. Entretanto, embora haja algumas áreas cerebrais efetivamente mais especializadas em determinadas atividades, as pesquisas indicam que o cérebro tem grande capacidade de remanejamentos e funciona com uma coordenação ampla – mesmo pessoas com problemas mentais sérios têm ainda a capacidade decisiva de criar, que é a atividade humana por excelência.
Observações finais
A história não se baseia unilateralmente em heróis ou vilões, embora não negue o papel do indivíduo. Se é o todo das relações sociais que determina as tendências de mudanças nessas relações, é certo que as características individuais mudam o rosto da história (como já dizia Plekhanov a propósito do papel do indivíduo). A história da ciência, desde que se tornou campo também de historiadores profissionais, filósofos, sociólogos e outros, tem desmistificado tantos "heróis da ciência" exatamente porque vê o cientista inserido numa sociedade, imerso portanto nas idéias e práticas nela correntes.
A ciência não é obra de gênios isolados, mas resulta duma sucessão de pessoas trabalhando e se influenciando mutuamente. As teorias científicas se constroem baseadas em idéias, em interpretações de fatos que também são idéias, e em sua capacidade para explicar o Universo em que vivemos. É verdade que há um fator determinante na história da ciência, que é a criatividade humana, encontrada nos cientistas, mas também nos artistas e mesmo na gente comum em graus diversos, e essa criatividade se manifesta basicamente em indivíduos.
Darwin foi um indivíduo que empreendeu diversas pesquisas de história natural e chegou a conclusões, muitas delas equivocadas. Herói ou fraude? Esta não é uma questão diretamente respondível. O comportamento de Darwin como pessoa humana parece ter deixado muito a desejar em diversas ocasiões, ele pode até ter cometido uma ou outra fraude, como na alteração de seu manuscrito de A origem das espécies, mas fatos semelhantes aconteceram também com outras pessoas. Ele é, não obstante, responsável pela sua teoria, cuja ideologia tem buscado se sustentar com apoio mútuo na ideologia geral do capitalismo como sistema, e suas idéias traem essas inspirações. Isto tem lhe valido muitos ataques, alguns até respondidos, mas de maneira não definitiva. A maioria das respostas que ele e seus seguidores deram não foram suficientes para contentar diversos cientistas e não-cientistas descomprometidos com sua ideologia inspiradora. Pelo contrário, muitas respostas foram de molde a apenas tentar evitar os problemas, mas só ampliaram as dúvidas.
O que se necessita é de humildade para reavaliar as bases da vida e dar conta de fenômenos já conhecidos há tempos, como a assimetria observada por Pasteur na passagem da luz polarizada, e tantas assimetrias de campos no Universo. Assim se pode começar a explicar as descobertas na embriologia por von Baer e Hans Driesch, ou da radiação mitogenética por Gurvitch, ou ainda a evolução do conjunto total da biosfera proposta por Vernadsky (1997). Para este cientista fundador da biogeoquímica, é a própria biosfera (que inclui desde camadas geológicas das rochas, até as camadas da estratosfera) que está continuamente em evolução, e não somente as espécies. O pensamento humano criativo, ou "científico", é assim por ele visto como uma nova "força geológica" na biosfera, qualitativamente diferente das forças físico-químicas e biológicas anteriores, o que passou a dar à biosfera o caráter distinto de "noosfera", através do fenômeno do conhecimento.
A organização interna é que dita a evolução – e aqui se aplica apenas em sentido de metáfora a imagem do automóvel que alguns críticos do darwinismo têm usado: o "motor" da evolução seria a direcionalidade ("progresso") e a variação genotípica sua "direção" (onde intervém o acaso na forma de buracos na estrada etc., o que faz variar a condução). O darwinismo como teoria evolutiva é tão falso quanto tomar o motor pela direção. O homem porém chegou num ponto em que intervém em ambos elementos da "dirigibilidade". Sua liberdade é a expressão de uma qualidade tendencial presente também na primeira forma de vida celular, e se passaram muitas épocas até que pudesse refletir sobre isso...
Para acabar com a fraude, é preciso que aqueles evolucionistas que não aceitam o darwinismo em nenhuma de suas formas deixem de ser comparados a defensores da terra plana ou coisa pior! A fraude real é perpetuar o ensino dessa teoria como um dogma sobre o qual se constrói a biologia, antropologia, psicologia, economia e muitas outras áreas do conhecimento, e não como uma hipótese de trabalho.
(*) Professor da História da Ciência da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo; texto apresentado na 5ª Semana Temática da Biologia da USP, em 24/9/2002
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