26/08/2003

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DESASTRE DE ALCÂNTARA
Enredo mortal de uma longa novela

Ulisses Capozzoli

O incêndio que destruiu na rampa de lançamento o Veículo Lançador de Satélites (VLS) na sexta-feira (22/8), que matou 21 pessoas e teve destaque na mídia nacional e internacional, é apenas o mais dramático de todos os capítulos de uma novela que se arrasta há 42 anos, quando o então presidente da República Jânio Quadros iniciou o programa espacial brasileiro.

O presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), Luiz Bevilacqua, que ironizou a informação de jornalistas de que o foguete havia explodido, quando dava uma entrevista coletiva sobre o lançamento, está se queixando de falta de verbas – como se esta situação estivesse, de alguma maneira, relacionada ao acidente.

A verdade é que Bevilacqua não ignorava apenas o acidente, por falta de eficiência no sistema interno de comunicação da AEB. Ele também não sabe, porque ninguém sabe, quanto foi gasto até agora no programa espacial brasileiro.

Ao longo de todos esses anos, especialmente durante os anos 1980, quando as primeiras versões de foguetes nacionais foram exportadas como armamentos para o Iraque (o que acabou provocando retaliação dos países do clube espacial), recursos foram utilizados de forma não oficial no projeto espacial.

Qual a razão disso?

A principal delas é que o programa espacial brasileiro, e mais especificamente o foguete, estava intimamente relacionado a projetos militares para o desenvolvimento de um míssil capaz de transportar uma ogiva nuclear.

Quem disse isso?

Quem fez essa afirmação, diversas vezes, foi o brigadeiro Hugo Piva, o pai do foguete brasileiro. Piva, um homem carismático, inteligente e objetivo, ao contrário de seus colegas, nunca ocultou essa situação óbvia, de um ponto de vista técnico.

"Satélite burro"

O desejo de se produzir um míssil a partir do foguete é a principal razão para a versão atual do VLS utilizar combustível sólido e não líquido. Foguetes com combustível sólido, na versão míssil, podem ser armazenados em silos especiais e lançados a qualquer momento, ao contrário de lançadores com combustível líquido, que devem ser preparados por longos períodos para voar e, por isso, não interessam de um ponto de vista militar.

O programa espacial brasileiro, na versão Missão Espacial Completa Brasileira (MECB), foi concebido no espírito da guerra fria e os desencontros de que agora se ressente, particularmente envolvendo o destino da base de lançamento de Alcântara, no Maranhão, são evidência disso.

Nesse momento de comoção, quando a imprensa e outros segmentos buscam explicações algo sumárias para o acidente, talvez seja interessante fazer algumas considerações que se estendem no tempo e que, por isso mesmo, podem refletir com mais fidelidade os trajetos desse desencontrado programa espacial.

O primeiro deles certamente está relacionado a uma mentalidade. Filósofos da ciência, como o argentino Mario Bunge, sustentam que o subdesenvolvimento não é outra coisa senão uma questão de mentalidade.

Pois a mentalidade dominante no Brasil é a melhor explicação para os desencontros do programa espacial.

Em 1961, impressionado com as conquistas no espaço, Jânio Quadros deflagrou o programa espacial brasileiro como se fosse um ato burocrático, a assinatura de uma portaria qualquer. O Brasil não tinha estrutura para isso e tudo teve que ser lenta e penosamente preparado.

A primeira dificuldade envolveu uma divisão de poder, entre as áreas civil e militar. O atual Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), por exemplo, criado com o nome de Grupo Nacional de Atividades Espaciais (GNAE), tinha orientação civil. Mas sempre sofreu pressão militar.

A burocracia, os boicotes e a falta de continuidade que marcam, historicamente, o desenvolvimento da pesquisa científica no Brasil fizeram com que, na área civil, tudo ocorresse de forma penosa.

A área militar, ligada ao Ministério da Aeronáutica, sempre teve maior poder de pressão. Na versão MECB, após a desistência de um acordo técnico-científico com a França, no início dos anos 1980, capaz de fazer o repasse de combustível líquido, o Inpe ficou encarregado do desenvolvimento de satélites e o segmento militar envolvido com a base de Alcântara e a produção de um foguete lançador.

Em fins dos anos 1980, o Inpe havia concluído o primeiro satélite – o Satélite de Coleta de Dados-1 (SCD-1). Houve muito entusiasmo, mas o satélite era muito simples – um "satélite burro", como se diz no jargão astronáutico. Ele era capaz de coletar dados enviados por plataformas automáticas no solo e despejá-los quando sobrevoava uma estação coletora, em Cuiabá, no Mato Grosso.

Nessa época, quem dirigia o Inpe era o matemático Marco Antonio Raupp, com apoio do então poderoso deputado Ulysses Guimarães. Raupp se deu conta de que os militares não aprontariam o foguete para lançar o satélite e então propôs que ele voasse com um foguete americano já consagrado, o Scout.

Aventureiros no comando

Foi o que bastou para enfurecer os militares. O então comandante do Estado Maior das Forças Armadas (Emfa), Paulo Roberto Camarinha, desembarcou em São José dos Campos berrando como se dirigisse a serviçais. Camarinha caiu um pouco depois, literalmente por falar demais, e desde então não se ouviu mais falar dele.

O próprio Raupp, minado pelos militares e setores internos do Inpe mais simpáticos à ala militar, foi desalojado de seu posto. Ele havia reestruturado do Inpe, inclusive do ponto de vista de salários mais condizentes com as especializações.

Márcio Barbosa, que o sucedeu, com apoio militar, não teve outra alternativa senão utilizar um lançador americano, o foguete experimental Pegasus, que decola das asas de um bombardeio B-52, o terror do Vietnã. Até hoje permanece uma discussão envolvendo o Scout preferido de Raupp e o Pegasus experimental de Barbosa.

Barbosa permaneceu no Inpe por mais de uma década, até ser transferido, no final da administração FHC, para a Unesco, em Paris. Durante sua administração, o Inpe deteriorou-se. Até o restaurante acabou fechado.

Barbosa tinha uma conexão íntima com a imprensa, especialmente com uma repórter de um jornal tradicional de São Paulo, para publicar as versões mais convenientes de tudo o que ocorria no Inpe, entre eles o lançamento do SCD-1.

À tradicional falta de continuidade da política científica, quando Renato Archer, criador do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) foi substituído por aventureiros impostos por políticos como Orestes Quércia, somou-se a implosão da União Soviética e o fim da guerra fria. Tudo isso afetou o programa espacial brasileiro.

A versão MECB admitia o uso da base de Alcântara para pouso dos ônibus espaciais dos Estados Unidos e a brusca alteração do poder político-militar internacional alterou essa configuração.

Fiasco de sempre

O que fazer com a base de Alcântara e por que ela foi montada nessa localidade?

A base de Alcântara, construída junto à linha do Equador, onde a força centrífuga produzida pelo movimento de rotação da Terra é máxima, pode orbitar um engenho com menor consumo de combustível. Isso significa foguetes menores e mais baratos.

A base, projetada para atividades mais amplas, como as concebidas durante a guerra fria, agora depende do programa espacial brasileiro que ainda não aprontou seu foguete lançador.

Manter equipamentos e quadros humanos atualizados com o eventual lançamento de foguetes exploradores da alta atmosfera – como os Sonda-4, um dos estágios do VLS – não preenche as necessidades de Alcântara, daí a decisão de alugá-la aos americanos.

O aluguel da base, capaz de aumentar suas atividades e gerar recursos para sua manutenção, dividiu os militares. Alguns defendem essa alternativa. Outros não a aceitam. Essa é a situação atual da base, evidência de que no Brasil não só a duplicação de estradas duram várias vezes o tempo inicialmente previsto e atingem custos a perder de vista.

Mais recentemente, fiel a seu estilo cabotino, o sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso decidiu que o Brasil deveria mandar um astronauta para o espaço. O escolhido foi Marcos Cesar Pontes, um piloto da Força Aérea Brasileira (FAB).

Pontes é um sujeito simpático e merece todos os elogios por sua escolha. Mas o Brasil, a não ser para lustrar o ego de FHC, teria muito pouco a ganhar, em termos científicos, com um astronauta.

Teria sido bom para um trabalho de relações públicas internacional, vendendo a imagem de que o país decolava com a velocidade de um foguete. Na prática, foi e continua sendo, o fiasco de sempre.

Prova materializada

É possível que os críticos de Lula aproveitem a oportunidade para responsabilizar a atual administração pelo que considerariam um retrocesso no programa espacial brasileiro.

Nada mais desonesto e, ao mesmo tempo, usual em termos de uma elite política arcaica, oportunista e que, às vésperas da eleição presidencial, teve na construção de presídios os seu discurso mais freqüente, como fez o governador de São Paulo Geraldo Alckmin.

Prioridade para presídios, em vez de educação e ciência. Essa é uma das notáveis evidências de que o Brasil não se distanciou muito da mentalidade escravista, apesar de o 13 de maio de 1888 parecer distante no tempo.

A peça mais recente do programa espacial, para retornamos ao tema, é a própria Agência Espacial Brasileira. Ela resultou de uma pressão internacional e tem a ambigüidade típica desses efeitos.

Entre fins dos anos 1980 e início dos 1990, os países do clube espacial, liderados pelos Estados Unidos, recusaram-se a fazer transferência de tecnologia e vender implementos espaciais estratégicos ao Brasil, entre eles sistemas de guiagem de foguetes.

Por que fizeram isso?

A justificativa foi a venda de armamentos a Saddam Hussein, na guerra com o Iraque, negociação que envolveu diretamente Hugo Piva. Acenando com uma hipotética preocupação com a paz mundial, os Estados Unidos boicotaram o Brasil.

A saída encontrada para resolver o impasse foi criar uma agência espacial civil, nos moldes da Nasa ou da agência espacial européia, a Esa. Na prática, no entanto, os militares não perderam o controle do poder e, na AEB, só permanecem administrações que não percam de vista essa delimitação interna de território.

Por esse breve histórico pode-se ver que qualquer avaliação sumária dos acontecimentos em Alcântara é mais fruto do desconhecimento ou da má-fé que de fatos relevantes capazes de reverter essa novela sem fim.

Que atividades espaciais sempre envolvem riscos, e praticamente a certeza de acidentes demolidores, é uma prova materializada por inúmeros infortúnios envolvendo a astronáutica em todos os países que praticam essa atividade.

A sensação de que análises e verificação de dados/hipóteses podem explicar satisfatoriamente fatos do cotidiano, com alguma freqüência, desabam sob acontecimentos como o incêndio que afetou o VLS em Alcântara.

Dramas entrelaçados

Exatamente no mesmo momento do desastre, na base do Maranhão, a morte nos roubou Eduardo Dorneles Barcelos, em Brasília.

Eduardo também era funcionário da AEB, mas havia acabado de desembarcar de um vôo procedente do Rio Grande do Sul, para onde estava se mudando, envolvido com trabalhos acadêmicos numa universidade do sul.

Gaúcho de Porto Alegre, Eduardo Barcelos era um exemplo de raridade cada vez maior. Amigo generoso, de inteligência brilhante, profundamente ético e dedicado ao que se pode chamar de "amor humano", foi vítima de um mancha de óleo na pista, a caminho de casa, após três meses de ausência.

O carro que o transportava ficou desgovernado e capotou. Eduardo quebrou o pescoço de teve morte instantânea.

Quem deixou uma perigosa mancha de óleo na pista, sem preocupar-se com um possível acidente?

Ninguém sabe, ninguém viu, ninguém é responsável.

Como se vê, nesses dois dramas profundamente entrelaçados, sem que se possa ter uma explicação para a pontualidade dos acidentes, apenas um fato é inescapável: no Brasil, tudo é uma questão de mentalidade. De mentalidade detestável.


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