KARL POPPER
Quem está perdido?
Felipe A. P. L. Costa (*)
Em sua coluna "Rato de livraria", publicada na edição do dia 16/1/2004 do prestigioso sítio eletrônico brasileiro NoMínimo, Flávio Pinheiro apresentou três comentários, sobre três livros recém-publicados. O segundo comentário – "Lenha na fogueira das vaidades" – terminava com o seguinte parágrafo:
"Popper conquistou sua reputação com o livro A sociedade aberta e seus inimigos, visto como profecia confirmada do fim do comunismo. Foi guru de conservadores e da democracia-cristã. Não tinha brilho especial mas, insuflado pelo pendor por polêmicas, crescia. Ficou datado, perdido no tempo. Wittgenstein sobreviveu a ele. O duelo entre os dois no fundo é um antiduelo, em torno de uma causa menor que ambos."
Há mais de um problema nessa curta passagem ("fim do comunismo", "guru", "não tinha brilho especial"; além do que, não foi exatamente "A sociedade aberta..." que deu fama e prestígio acadêmico a Popper), mas fiquei particularmente impressionado com a frase "Ficou datado, perdido no tempo" – usada, se entendi bem, para descrever a influência da pessoa e/ou do trabalho de Karl Raymond Popper (1902-1994) [Para uma entrevista com Popper, ver Horgan, J. 1998. O fim da ciência. SP, Companhia das Letras.].
Se foi mesmo essa a intenção, temo que o articulista tenha cometido um erro. E, para que o leitor dessas mal-traçadas dimensione o tamanho desse erro, sugiro uma pesquisa simples (e potencialmente falsificável): em sua próxima visita a uma livraria, procure por obras de epistemologia ou de filosofia da ciência publicadas ao longo dos últimos 50 anos – em particular, aquelas escritas nos últimos 10-20 anos.
Aposto então que não será difícil constatar que o conteúdo de tudo aquilo que hoje lemos ou falamos sobre filosofia e teoria do conhecimento continua em boa medida balizado pelos trabalhos de Popper – mesmo em português, a lista das obras (livros, artigos, transcrições de entrevistas ou palestras etc.) de Popper é expressiva, incluindo A lógica da pesquisa científica (SP, Cultrix); Conhecimento objetivo (BH, Itatiaia); Conjecturas e refutações (Brasília, Editora da UnB); A pobreza do historicismo (SP, Cultrix); O eu e seu cérebro, em co-autoria com John Eccles (Campinas, Papirus); Sociedade aberta, universo aberto (Lisboa, Dom Quixote); os três volumes do Pós-escrito à lógica da descoberta científica (Lisboa, Dom Quixote); Em busca de um mundo melhor (Lisboa, Fragmentos); e Um mundo de propensões (Lisboa, Fragmentos) – ainda que seja para discordar do seu enfoque ou de suas teorias (e.g., a noção de que hipóteses científicas, ao contrário de hipóteses não-científicas, podem ser falsificadas e refutadas) [Para uma abordagem crítica do falsificacionismo, ver Chalmers, A. F. 1993: O que é ciência, afinal?, SP, Brasiliense; ver ainda Chalmers, A. F. 1994: A fabricação da ciência, SP, Editora da Unesp.].
Por que então Karl Popper ou o seu trabalho estariam "perdidos no tempo"? Não vejo como sustentar essa afirmação – na verdade, penso que o articulista teria feito melhor se encerrasse os seus comentários no penúltimo parágrafo. (Não é nada, não é nada, são deslizes aparentemente pequenos como esse que perpetuam e geram mal-entendidos crescentes em nossa imprensa; e, por tabela, em nossa literatura popular – como a generalizada e recorrente confusão que se faz entre ciência e tecnologia ou, mais grosseiramente, entre ciência, tecnologia e o mundo dos negócios.)
(*) Biólogo, autor do livro Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2003)