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HOMEOPATIA NA MÍDIA
Questão de efetividade
Graciela Pagliaro (*)
Vivemos tempos de epidemia. A dengue, descuidada na sua prevenção pelas autoridades sanitárias, embora o tempo todo exista a tentativa de culpabilizar as vítimas, eclode de forma incontrolável no estado do Rio de Janeiro, e hoje [23/2] são calculados cerca de 40 mil infectados.
Na semana passada vimos duas situações, às quais não estamos acostumados e que de certa forma servem de base para esta reflexão. Inicialmente, uma notícia no jornal O Globo, no dia 18/2, faz menção aos benefícios para os pacientes com dengue submetidos ao tratamento homeopático, assim como divulga o local aonde podem se dirigir para obter tal tratamento. No dia seguinte (19/2), assistimos a uma edição do RJ TV (TV Globo) em que o diretor da Associação Médica Homeopática do Rio de Janeiro (AMHERJ) apresenta o mesmo conteúdo da matéria do jornal.
A homeopatia, contra-hegemônica à ideologia da saúde, encontra vários entraves ao ser apresentada à população. É muito comum assistirmos na mídia a depoimentos de pessoas que nada ou pouco conhecem desta especialidade médica, e que mesmo assim se acham no direito de fazer críticas ou questionar sua efetividade com o intuito de chamar a atenção ou criar polêmicas que nada constroem.
Por outro lado, os homeopatas, numa vivência histórica de marginalidade, tenderam a um fechamento corporativo, o que na realidade só contribuiu para a ausência de visibilidade de suas práticas e seus resultados. Mais recentemente, espaços institucionais na área da saúde vêm sendo conquistados, acompanhando uma tradução científica dos resultados encontrados nos vários ramos da prática homeopática. Com isso temos assistido à apresentação de dissertações de mestrado e teses de doutorado que analisam a homeopatia em suas diferentes áreas (saúde pública, ensino, farmácia, clínica, odontologia, veterinária, pesquisa em geral). Várias instituições vêm se dedicando à formação de novos homeopatas e à difusão da homeopatia.
O espaço científico, entretanto, é diferente do da mídia em geral. Mudam totalmente as leis que os regem. A verdade na mídia não é absoluta, e sim contextualizada. Há um contrato de leitura, do editor/jornalista e seu leitor, inserido no mercado, que deve espelhar a venda das notícias. Este sentido de consumo, que vem sendo governado por uma ideologia neoliberal, cuja regência é dada pelo mercado, nos conduz à idéia e à vivência de que o melhor é o lugar onde se consegue mais. Os resultados que a homeopatia possa ter como alternativa ou complementaridade terapêutica são fatores de pouca significância na determinação ou não de uma notícia médica.
Resultados clínicos
A homeopatia representa uma opção terapêutica barata, poucos exames são solicitados, pouco se encaminha o paciente a especialistas, e o custo do medicamento é acessível. Além disso, é efetiva e, principalmente, é uma medicina humanizada, que valoriza e acolhe o discurso do paciente na sua integralidade. Vários trabalhos da Comissão de Saúde Pública da Associação Médica Homeopática Brasileira (AMHB) são reveladores destes atributos. Mas a quem interessa baratear a saúde? Grandes negócios são realizados com indústrias farmacêuticas e fabricantes de tecnologias caríssimas. Infelizmente, os interesses econômicos são altíssimos.
É de muito tempo conhecida a atuação da homeopatia em epidemias. No momento, com a dengue, vários pacientes têm melhorado dos sintomas e mesmo tido recuperação total em tempo surpreendente, com a medicina homeopática. Porém, não podemos ser ingênuos e acreditar que o espaço cedido no jornal e na TV Globo se deva apenas às vantagens citadas. A epidemia é notícia obrigatória em todos os meios de comunicação no momento, principalmente em ano eleitoral, quando um ministro da Saúde e o governador do estado acometido com a epidemia são candidatos. Existe uma grande ansiedade na população em geral, que não se vê prevenida e nem encontra formas de tratar ou aliviar seus sintomas.
Os homeopatas deveriam estar certos de que não são a efetividade dos seus resultados clínicos, nem muito menos a competência do seu trabalho, os únicos determinantes do acolhimento ou não por parte da mídia. Porém, podem e devem fazer seus trabalhos visíveis cada vez mais.
(*) Médica homeopata, integrante das comissão de Pesquisa e Científica da AMHB, coordenadora do núcleo de Educação e Saúde da ONG Homeopatia Ação pelo Semelhante, mestranda de Saúde Pública da ENSP/Fiocruz
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