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JORNALISMO CIENTÍFICO
Aos estudantes, focas e veteranos

Fabíola de Oliveira (*)

Texto da introdução de Jornalismo científico – parceiros desde Gutenberg, de Fabíola de Oliveira, 176 pp., Editora Contexto, São Paulo, 2002, R$ 23,90; tel. (11) 3832-5838, <www.editoracontexto.com.br>

Em 1998 quando comecei a ministrar a disciplina jornalismo científico em um curso de graduação, percebi a total inexistência de bibliografia brasileira na área com conteúdo didático voltado para estudantes de jornalismo. A bibliografia em língua estrangeira, principalmente em inglês, é vasta mas como aproveitá-la em sala de aula se a grande maioria dos alunos não tem familiaridade com outras línguas? O recurso comumente utilizado da produção de apostilas com trechos extraídos de obras aqui e acolá, não nos parece suficiente para uma prática adequada do ensino de nível superior. Trabalhos acadêmicos tem proliferado em algumas universidades na forma de teses de mestrado e doutorado ou publicações em revistas especializadas, abordando temas pontuais do jornalismo e da divulgação científica, mas em linguagem pouco acessível aos estudantes de graduação e sem apresentar uma visão mais universal do assunto.

Foi esta carência de bibliografia básica que me levou a pensar na produção deste livro, onde a idéia central é apresentar uma visão panorâmica do jornalismo científico no Brasil e no mundo. No início uma aluna do curso de jornalismo da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), Kelly Cristina de Oliveira, aceitou trabalhar no projeto como monitora. Como não tínhamos boas referências no País, a inspiração veio de um livro americano, o "Field Guide for Science Writers", publicado com o aval da Associação Americana de Escritores de Ciência. É uma coletânea de artigos de vários jornalistas americanos, que relatam suas experiências e agruras na cobertura de C&T.

A nossa proposta ia além disto. Não queríamos produzir um manual só do tipo "faça isto, não faça aquilo", mas fazer o leitor entender com certa profundidade que é importante a cobertura jornalística na área de ciência, tecnologia e seus derivados; que o jornalismo científico ainda está engatinhando no Brasil (e em outros países em desenvolvimento); que é necessário termos uma cultura científica no País, como temos a do futebol, e mostrar que a divulgação científica tem tudo a ver com cidadania. Muito do que consta no livro foi também fruto do trabalho que desenvolvi na tese de doutorado intitulada "Ciência e Tecnologia na Comunicação Social de Instituições Governamentais", na ECA-USP, em 1998.

O projeto do livro ficou em banho-maria até o ano 2000, quando dois alunos do 4º ano de Jornalismo da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), Rodrigo Correia e Roberta Baldo, receberam bolsas de iniciação científica da Fapesp para ajudar a fazer a pesquisa de campo. Durante alguns meses eles realizaram entrevistas com profissionais, professores e pesquisadores de jornalismo científico no Brasil, e parte deste material foi aproveitada no livro, no capítulo 3, onde tratamos do campo de trabalho e da formação profissional. Roberta teve que abandonar o projeto no meio do percurso, mas Rodrigo trabalhou até o final do ano 2000 e foi o principal responsável pela elaboração do guia de fontes que está no final do livro. Mais um aluno de jornalismo, Marcos de Oliveira, ajudou a coletar e organizar as informações para a produção do capítulo 2, sobre a história do jornalismo científico no Brasil.

Também não podemos esquecer a colaboração que recebemos de colegas jornalistas que se prontificaram a responder as perguntas elaboradas pelos bolsistas para dar subsídios ao conteúdo do livro. Foram eles: Fabiane Cavalcanti, Flávio Dieguez, Graça Caldas, Isaltina de Melo Gomes, Jorge Antonio Menna Duarte, José Roberto Ferreira, Lacy Barca, Mariluce Moura, Moacir Loth, Ricardo Bonalume Neto, Roberto Medeiros, Ulisses Capozzoli, e Wilson da Costa Bueno. A todos o nosso reconhecimento.

Divulgar ciência é questão de cidadania

Antes de qualquer coisa vamos procurar responder à uma questão simples, com resposta aparentemente óbvia: por que jornalismo científico e por que divulgar a ciência? Dizer que ciência e a tecnologia são imprescindíveis para o desenvolvimento de um país, parece hoje senso comum, e está presente até no discurso de grande parte dos políticos. É bonito e faz efeito, como dizer que a educação é essencial, que sem educação o país não evolui. Então não vamos perder mais tempo com a relevância da ciência. O que nos importa aqui é tratar da necessidade das pessoas, o maior número possível delas dentro de uma sociedade, terem acesso a informações científicas. Principalmente aquelas que afetam diretamente suas vidas, que têm efeitos políticos, econômicos e sociais imperceptíveis às pessoas não informadas.

Em fevereiro de 1998, a Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS) realizou em Filadélfia a sua 150o reunião anual, na mesma cidade em que há um século e meio (1848) nascia essa sociedade por iniciativa de uma dúzia de luminares da ciência americana do século passado (desde o início de sua história, a entidade já foi presidida por 10 recipientes de prêmios Nobel). Tivemos a oportunidade, juntamente com jornalistas de outros países, de participar do encontro e das reuniões promovidas pela Associação Nacional de Escritores de Ciência (NSWA). Em uma dessas sessões, o jornalista free-lancer Steve Mirsky declarou a certa altura: "Fazer jornalismo científico é o privilégio de ser porta-voz da fronteira do conhecimento humano". O impacto dessa afirmação, recebida com aplausos pela mais de centena de jornalistas presentes na platéia, levou-nos a refletir que o jornalismo científico pode, de fato, ter uma belíssima missão a cumprir. Mas, se isto é verdade para os Estados Unidos, donde não paira dúvida sobre a pesquisa científica e tecnológica fronteiriça, que dizer do Brasil? O jornalismo científico aqui pode e deve exercer a mesma função? Mais além ainda, questão que pode parecer óbvia, mas não é, para que pretender divulgar ciência massivamente para um povo massacrado por tantas desditas?

Uma das questões que surge com freqüência em discussões e debates sobre divulgação e jornalismo científico, é precisamente sobre a validade ou não de divulgar-se ciência e tecnologia. Este questionamento não parte apenas de leigos ou pouco iniciados no assunto, mas com freqüência de jornalistas defensores da não-especialização, e cientistas/ pesquisadores cépticos quanto à capacidade de jornalistas ou demais comunicólogos de traduzir a linguagem científica para o público. Aliada a esta primeira questão, surge uma segunda: para quem divulgar ciência e tecnologia? Uma dúvida pertinente, considerando a realidade socioeconômica e cultural do país.

Mesmo considerando a inegável fragilidade da condição socioeconômica de grande parte da população brasileira, nos vemos no papel de defender com veemência a necessidade de divulgar-se ciência e tecnologia, por acreditarmos que existe uma demanda reprimida de divulgação de C&T no Brasil. Esta demanda por maiores informações de C&T para o público foi amplamente comprovada, por exemplo, pelo trabalho publicado em 1987, intitulado "O quê o brasileiro pensa da Ciência e Tecnologia?", onde constatou-se que cerca de 70% da população urbana brasileira tem interesse em ciência e tecnologia.

A pesquisa do Gallup revelou que "(...) no caso de considerarmos a parcela da população que reclama por mais notícias sobre novas descobertas científicas e tecnológicas este percentual sobe para 70% da população adulta brasileira. Esses números revelam a existência de uma grande demanda potencial pelo jornalismo científico e por revistas de popularização das ciências, em geral, inclusive mostrando a necessidade de ser empreendido um grande trabalho de divulgação científica. Os avanços já conseguidos pela Ciência no Brasil ainda não são suficientemente conhecidos, a não ser em círculos restritos. Apesar de grande interesse manifestado por Ciência e Tecnologia os dados referentes à percepção da influência da Ciência nas condições de existência indicam que os resultados do avanço científico e tecnológico estão distantes da vida diária das pessoas".

Embora a pesquisa encomendada ao Instituto Gallup pelo CNPq tenha cerca de 15 anos, até o momento não foi feito nenhum outro estudo semelhante no Brasil. Devemos continuar considerando como válidos os resultados desse trabalho, porque não foram realizados esforços significativos no sentido de contribuir com uma melhoria na quantidade e qualidade da divulgação científica para o público, como foi sugerido pela pesquisa quando trata da "necessidade de ser empreendido um grande trabalho de divulgação científica". Além do mais, ousamos inferir que o resultado da pesquisa, se levada a cabo nos dias de hoje, poderia ser ainda mais contundente, isto é, apontaria para uma maior demanda de divulgação científica, já que os avanços da C&T são cada vez mais determinantes nos contextos social, econômico e político da vida humana.

Do ponto de vista da prática política e do exercício dos poderes e liberdades democráticas, o público em geral deve estar incluído na grande base da pirâmide social, porque todos os cidadãos estão (ou deveriam estar) envolvidos na eleição dos representantes governamentais, que são selecionados tendo como base a sua atuação ou as promessas de plataformas políticas. Ciência e tecnologia têm conseqüências comerciais, estratégicas, burocráticas, e na saúde pública, não nas margens mas no âmago destes componentes essenciais do processo político. Uma democracia participativa requer que o eleitorado tenha uma cultura científica para que seja capaz de apoiar, ou não, as propostas e decisões de seus representantes, e endossar ou não a eleição deles, com base em alguma compreensão sobre as implicações destas propostas ou decisões.

Temos nesta exposição a justificativa clara para afirmar que o acesso às informações de ciência e tecnologia é fundamental para o exercício pleno da cidadania e, portanto, para o estabelecimento de uma democracia participativa, onde grande parte da população tenha condições de influir com conhecimento em decisões e ações políticas ligadas à C&T. Entendemos que a formação de uma cultura científica, principalmente em sociedades emergentes como é o caso do Brasil, não é um processo simples ou que possa ser empreendido em pouco tempo. No entanto, o acesso às informações sobre C&T, como um dos mecanismos que pode contribuir de maneira efetiva com a formação de uma cultura científica, deve ser facilitado ao grande público carente destas informações.

O papel das fontes

O direito à informação – destacado na Declaração Universal dos Direitos Humanos divulgada pela ONU em 1948 – por si só justificaria a essência da necessidade de divulgar-se ciência e tecnologia para o grande público, como forma de socialização do conhecimento. Mas as justificativas vão mais além. O grau de desenvolvimento científico e tecnológico dos países pode estar diretamente associado à melhoria da qualidade de vida de suas populações. Além disto, a maior parte dos investimentos feitos em C&T é oriunda dos cofres públicos, ou seja da própria sociedade para quem devem ser retornados os benefícios conquistados com estes investimentos.

A divulgação da C&T, portanto, deve partir inicialmente de suas fontes primárias, que são os responsáveis pelo planejamento e distribuição dos recursos – os órgãos governamentais – e principalmente da comunidade científica concentrada nas universidades e instituições de pesquisa, responsáveis pela produção da C&T. Os governos em todos os níveis e os pesquisadores de um modo geral, têm o dever de prestar contas à sociedade sobre as realizações na área, contribuindo para a evolução educacional e cultural da população. A divulgação científica aproxima o cidadão comum dos benefícios que ele tem o direito de reivindicar para a melhoria do bem estar social. Ela também pode contribuir com uma visão mais clara da realidade, contrapondo-se a aspectos característicos de uma cultura pouco desenvolvida, ainda contaminada por superstições e crenças, que impedem as pessoas de localizar com clareza as verdadeiras causas e efeitos dos problemas que enfrentam na vida cotidiana.

Partimos do pressuposto que os meios de comunicação de massa são a principal fonte de informação sobre C&T disponível ao grande público e que, como descrito acima, os órgãos governamentais, institutos de pesquisa e universidades, e a comunidade científica são o ponto de partida para um processo contínuo de incentivo à divulgação de C&T no País, de maneira efetiva, contínua e eficaz. No processo básico da comunicação social, eles são os emissores das mensagens já que detentores das informações primárias.

Um novo jornalista

O novo profissional que incentivamos aqui deverá ter uma visão crítica e interpretativa da ciência, como já fazem bons jornalistas nas áreas de política, economia, cultura e esportes, só para citar as mais tradicionais. Deve romper com a cultura de "papagaios de cientistas" que só aos poucos começa a se diluir nos jornais e meios eletrônicos brasileiros, derrubar os estereótipos de cientistas do tipo professor Pardal, e desmitificar a imagem maniqueísta que o senso comum carrega da ciência. O jornalismo científico de qualidade deve demonstrar que fazer ciência e tecnologia é, acima de tudo, uma atividade estritamente humana, com implicações diretas nas atividades sócio-econômicas e políticas de um país. Portanto, do mais alto interesse para o jornalismo e para a sociedade.

A produção do conhecimento científico e o conseqüente desenvolvimento tecnológico, estão presentes nas mais corriqueiras ações de nosso dia-a-dia. Quando pegamos o telefone para uma ligação interurbana nossa voz viaja passando por um sofisticado satélite artificial, que está colocado no espaço a milhares de quilômetros da Terra. A televisão, o rádio, o transporte rápido que hoje pode nos levar em poucas horas a qualquer ponto do planeta, são produtos do engenho humano integrados ao nosso cotidiano.

No entanto, apesar dos avanços da ciência e da tecnologia, a grande maioria das pessoas ainda vive totalmente alheia às decisões dos centros do poder político sobre como e quanto investir em atividades de C&T. Essas atividades, no Brasil, são financiadas principalmente com dinheiro público. Mais ainda, em um país em desenvolvimento como o nosso, o acesso e o uso de modernas tecnologias que tanto podem facilitar a vida humana, estão disponíveis apenas para um número reduzido de pessoas.

A mais perversa conseqüência da falta de educação e informação, é a incapacidade de poder opinar ou decidir sobre coisas que podem afetar a vida individual, comunitária e até de toda uma nação. Por exemplo, quando o governo decide construir ou comprar um satélite artificial, está tratando de um investimento de milhões de dólares, que sairão dos bolsos dos contribuintes. E quantos se dão conta disso? Bem poucos.

Essas decisões políticas sobre grandes programas científicos e tecnológicos passam, em um país democrático, pelo crivo do Congresso Nacional, onde a população pode e deve interferir. Mas, novamente, para exercer esse direito de todo cidadão, é preciso estar bem informado. O jornalismo científico pode entrar em cena como um agente facilitador na construção da cidadania.

(*) Doutora em jornalismo científico pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, autora de várias obras e com experiência em associações de divulgação científica; recebeu, em 2002, o prêmio José Reis de Jornalismo Científico


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