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JORNALISMO CIENTÍFICO
Cultura científica e cidadania
Ulisses Capozzoli (*)
Prefácio de Jornalismo científico – parceiros desde Gutenberg, de Fabíola de Oliveira, 176 pp., Editora Contexto, São Paulo, 2002, R$ 23,90; tel. (11) 3832-5838, <www.editoracontexto.com.br>
Nos últimos vinte anos, resultado de toda uma conjuntura, o jornalismo científico teve significativo avanço no Brasil. Uma das razões desse desenvolvimento foi a consolidação da própria pesquisa científica nacional que, se ainda não atingiu estágio desejável em comparação ao porte da economia, progrediu com relação ao passado recente.
O jornalismo científico refletiu e, sem dúvida, ajudou nesse desenvolvimento, ainda que os próprios jornalistas não costumem levar em conta tal colaboração intelectual. A desmistificação do estereótipo do pesquisador científico e o impulso ao início do que se pode considerar um processo de alfabetização científica estão entre as contribuições do jornalismo científico.
Há quem defenda a idéia de que a revista Ciência Hoje introduziu o moderno jornalismo científico no Brasil. Certamente é visão parcial dos fatos. Jornalistas, individualmente, refletindo formação e interesses pessoais, começaram, particularmente no início dos anos 80, a escrever sobre ciência. Assim, ajudaram a abrir espaço novo, quase um contraponto ao esgotamento do modelo de jornalismo econômico tal como praticado na década anterior, subproduto do "milagre brasileiro". E aqui não se pode esquecer o pioneirismo de J. Reis. Curiosamente, durante todo esse período, poucos trabalhos acadêmicos trataram o jornalismo científico metodicamente, como "guias de campo", apesar da expressiva quantidade de experiências acadêmicas voltadas para o jornalismo comparado, para as estatísticas de temas etc. Talvez porque, em muitas escolas, boa parte dos professores não tenha desfrutado da experiência de campo.
Por tudo isso, este trabalho de Fabíola de Oliveira tem seu valor e mérito. Organiza, localiza e dá certo norte, para retomar uma referência que nos foi legada pela colonização, às questões envolvendo jornalismo científico. Não é definitivo, na acepção de esgotar o assunto, como a autora mesmo adverte. E nem seria o caso. Ante a escassez editorial nesta área, seria de estranhar que um único trabalho arcasse com tal responsabilidade.
A contribuição de Fabíola de Oliveira é exatamente a de organizar os primeiros passos, estabelecer conceitos e tratar preconceitos – como o pretenso desencontro entre jornalistas e pesquisadores científicos. Não que este descompasso não exista ou não tenha existido. Mas enquanto obstáculo, deve ser superado em benefício das duas partes e, especialmente, da sociedade brasileira.
Os métodos da pesquisa científica e do jornalismo científico são distintos. O que não significa oposição entre as duas áreas pela simples razão de que distinto não é, necessariamente, oposto. Ao contrário do que uma interpretação equivocada ainda pode defender.
A nova cidadania não pode prescindir da cultura científica, ou seja, da busca de inteligibilidade para a natureza do mundo e do desfrute lúdico da investigação. O céu não é azul por acaso e nem a noite é escura pelo simples efeito de rotação da Terra. As coisas do mundo são mais complexas do que parecem à primeira vista. Mas são inteligíveis, para retomar a idéia de Albert Einstein de que o mais surpreendente do Universo é que ele é inteligível.
Para ajudar a promover a cultura científica, o jornalismo científico é indispensável. E para consolidar o jornalismo científico, trabalhos como este são inestimável contribuição.
(*) Jornalista, mestre em Ciências pela USP, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) e editor de Scientific American Brasil
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