JORNALISMO CIENTÍFICO
Apuração no olho do ciclone
Julio Ottoboni (*)
"Não se faz jornalismo sem se fazer vítimas". Li esta frase em um dos livros do jornalista Heródoto Barbeiro. Desconheço de quem seja a autoria. Mas, nesse mesmo sentido, já li e ouvi várias outras semelhantes nestes quase 20 anos de profissão. E por isso ocorreu-me comparar a atuação dos jornalistas com a ação dos tornados.
Cada vez estamos mais semelhantes aos cones arrasadores oriundos das nuvens de tempestade. Essa anomalia no comportamento dos cúmulos nimbos é marcada pela imprevisibilidade de seu momento. Sabe-se que o tornado surgirá. Mas o quando, o onde e sua escala de violência ainda é uma incógnita para qualquer cientista.
Tenho observado que em geral os jornalistas se assemelham cada vez mais a um tornado. Chegam em uma nuvem de tempestade, aparecem de repente com enorme violência, cumprem um trajeto relativamente curto e aspiram tudo o que podem. O impossível de ser levado é destruído ou ignorado.
Outra particularidade entre o jornalista e o tornado: ambos só atingem a superfície e o tempo de atuação é sempre ínfimo diante da dimensão da tempestade. Já a fúria destes ventos é classificada em cinco categorias dentro da escala Fujita. Grosseiramente poderíamos constituir para o jornalismo nosso modelo quantitativo, levando em consideração a abrangência. Seria então escalonado como local, regional, estadual, nacional e internacional.
Quanto ao fenômeno natural, vale explicar que depois de sua passagem o que fica é um rastro caótico. Entretanto, o tornado é concebido por geometria fractal, o que garante que mesmo na desordem aparente também exista uma correlação entre todos elementos. Pelo visto, esse raciocínio e equação são usados em nossas apurações.
Em linha reta
Depois de 17 anos como repórter ( a maior parte deles na grande imprensa e trabalhando com jornalismo científico), dois outros como professor universitário e alguns poucos meses na função de assessor de imprensa, vejo que "fazer vítimas" tornou-se nossa força motriz, numa torrente insana e insensível. Mas é aí que surge o principal ponto deste paralelismo – o tempo entre a tensa mansidão e a ação destruidora.
Dentro do jornalismo científico essa situação vem se agravando. Poucos são os jornalistas que se sensibilizaram o suficiente para a crescente necessidade de superar o "analfabetismo científico". Cada vez mais os assuntos de cunho científico e tecnológico estão presentes nas pautas das redações, nas grandes discussões mundiais e na orientação e retórica dos grandes sistemas sociais, principalmente o econômico.
Hoje, toma-se como pauta um assunto altamente técnico e se promove uma cobertura como algo do cotidiano, vulgar. Essa maneira de abordar e reportar o fato – que por natureza é de uma complexidade mais elevada e multifacetária – é típica da legião de jornalistas analfabetos em ciência e da tecnologia de ponta. Com isso, ao contrário de se democratizar o conhecimento produzido e retido dentro de centros de pesquisas, universidades e instituições criam-se distorções imensas na divulgação e difusão da informação técnico-científica. Perdemos oportunidades raras de auxiliar na construção de segmentos sociais mais preparados para avaliar assuntos prementes e emergentes no mundo atual.
O jornalismo praticado hoje é intimamente ligado ao denuncismo ou disposto a dar coloridos fantásticos à reportagem, beirando o espetáculo e o entretenimento. Em geral o que é salientado é apenas informação complementar.
Apesar de toda força existente na imprensa, da energia concentrada na apuração de um assunto por dezenas de repórteres "domesticados", a falta de compreensão dos mecanismos que atuam no cenário da notícia leva o jornalista a comportar-se semelhante ao tornado. Pois atacamos somente a superfície dos fatos, caminhamos alguns passos na trajetória da notícia, promovemos um grande estrago com a fúria da nossa ignorância e, depois, somos chamados de volta à grande nuvem de tempestade que denominamos redação. Nos saciamos com a sensação do dever cumprido, de quem atravessou o caos em linha reta sem desviar o olhar ou contestar nada além da nossa pequena consciência social.
(*) Professor universitário, pós-graduado em jornalismo científico