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MÍDIA & CIÊNCIA
O jornalismo das boas notícias

Ulisses Capozoli (*)

Uma das características do jornalismo científico é a possibilidade de oferecer boas notícias aos leitores. É possível que, ao contrário das outras áreas de uma redação, repórteres científicos sejam incorrigíveis otimistas, embora certamente não haja estudo algum sobre suas personalidades. No jornalismo policial (cada vez mais político, econômico e militar) a notícia é a queda de um avião e não seu pouso suave, ao final da viagem. No jornalismo científico, a perspectiva de pousos cada vez mais seguros, com o desenvolvimento de métodos e processos, é o que interessa.

Uma evidência desta característica é a entrevista que o repórter José Galisi Filho fez com o cosmonauta russo Sergei Krikalev – publicada na edição 1.728 (28/11/01) da revista Veja. Krikalev, de 43 anos, é certamente é o mais experiente astronauta em atividade. Com a implosão da União Soviética, viveu duplamente a experiência de perder a terra sob os pés: decolou soviético e retornou russo, e este é exatamente um dos pontos interessantes de seu depoimento.

Em órbita da Terra, um astronauta tem olhos para cenas proibidas aos bilhões de seus habitantes. Mas a concentração para o trabalho isolado faz com que sobre pouco tempo para reflexões sobre o cotidiano do mundo abaixo. Ainda assim, sua resposta para o fato de astronautas norte-americanos terem se aproximado do misticismo é de um saboroso humor crítico: "A imensa maioria dos astronautas que conheço são pessoas normais e de bom humor".

O ponto mais interessante da entrevista é sobre a viabilidade de uma viagem tripulada a Marte. "Ainda não estamos preparados tanto de um ponto de vista tecnológico como social" avalia Krikalev. "É um empreendimento tão grandioso que implica um estágio civilizatório e de cooperação que não atingimos ainda. Mais cedo ou mais tarde nossa espécie terá de começar a pensar em abandonar este planeta..."

A idéia de que, como no século 15, estamos mais uma vez à beira dos oceanos, imaginando uma maneira de atravessá-los, desenvolvida por Krikalev, é ao mesmo tempo uma visão pragmática e otimista. Que vamos cruzar os mundos do Sistema Solar e, depois, os planetas de outras estrelas, não seria outra coisa senão a continuidade de uma caminhada que pode ter se iniciado na África há uns 100 mil anos. Tudo parece ser apenas uma questão de tempo.

Envolvido com a construção da Estação Espacial Internacional, Krikalev pensa que o espaço será nosso futuro lar, ainda que, ao menos por enquanto, não seja adequado a turistas. Em certo sentido, suas idéias estão na direção contrária do livro A Sociedade de Risco, escrito pelo sociólogo alemão Ulrich Bekc, da Universidade de Munique. A essência do trabalho, segundo matéria traduzida do Le Monde e publicada pela Folha de S. Paulo (20/11/01, pág. A12), é que ciência e tecnologia são as causas dos principais problemas da sociedade industrial.

Na cozinha do poder

Não é a primeira vez que a ciência e tecnologia têm uma avaliação negativa, independente da votação de fundamentalistas religiosos. Ao final da Segunda Guerra Mundial, com o lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki ficou claro que a engenhosidade humana havia, definitivamente, criado uma arma com poder de matar o planeta inteiro.

Com a descida de uma tripulação na Lua, em julho de 1969, apenas um quarto de século depois, a visão de ciência e tecnologia foi outra. Apesar da Guerra Fria, a ciência apontava o caminho para um futuro menos sombrio. Os atentados e a guerra em curso no Afeganistão de alguma forma fazem tudo ficar mais perto da bomba atômica que da conquista da Lua. Daí a conveniência do texto que o astrônomo e divulgador Ronaldo Mourão publicou na Folha (18/11/01, pág A3), com o título "A censura espacial na guerra do Afeganistão", abordando o fato de os Estados Unidos terem se apossado de todas as imagens sobre o território afegão.

Desenvolver uma idéia nova de ciência e especialmente demonstrar que a ciência não é uma criação supra-humana, no sentido de sua pretensa infalibilidade, deveria ser uma preocupação do jornalismo neste momento. Contribuir para o processo de alfabetização científica deve ser uma forma de prestação de serviços na consolidação de uma nova cidadania. Mas como isso ainda não ocorre de maneira significativa, tem alguma razão o vice-presidente Marco Maciel em "A questão étnica no Brasil" (Folha, 22/11/01, pág. A3). O problema é que, como critica Elio Gaspari em "Os ‘excluídos’ viraram bordão" (Folha, 25/11/01, pág. A18), mesmo citando Joaquim Nabuco o vice-presidente faz "empulhação na praça". Maciel é tido como pessoa de trato afável, habilidade que certamente garantiu-lhe a proximidade do poder ao longo de mais de três décadas.

Na mesma página, Gaspari entrevista Gilberto Velho sobre a greve dos professores das universidades federais. Velho repete o que outros cientistas têm dito: há uma determinação clara de se acabar com as universidades públicas no Brasil, ao contrário do que ocorre em países desenvolvidos. Dados divulgados pelo Ministério da Educação indicam que isso já estaria acontecendo em velocidade preocupante – de acordo com o Estado de S.Paulo (22/11/01, pág. A14). Ao menos em número de matrículas, informa o Estadão, "a rede privada cresceu quase o dobro da rede pública de ensino superior de 1999 para 2000".

Restrição "civilizatória"

A imprensa, quase sempre, especialmente no caso de jornais que não criticam o governo federal, como o Estadão, dispõe de dados mas não os utiliza para formar uma quadro capaz de dar inteligibilidade a certos acontecimentos. O crescimento das universidades particulares preocupa especialmente porque essas escolas não fazem pesquisa e, neste sentido, não são capazes de ampliar o conhecimento nem formar novos pesquisadores.

A pós-graduação, introduzida no Brasil em meados dos ano 60, formou recursos para fazer com que hoje a ciência brasileira esteja entre as 15 maiores do planeta. Mas essa posição não é confortável especialmente levando-se em conta que o Brasil é dono da décima maior economia mundial.

O Brasil paga mal seus professores, dos cursos básicos ao superior. Ainda assim, a greve das universidades federais que está chegando aos 100 dias demorou para atrair a atenção da imprensa. E o interesse só cresceu por conta da resistência do governo em depositar os salários, contrariando decisão da Justiça.

Sem uma base educacional sólida, o que inclui uma infra-estrutura de saúde, um país como o Brasil não pode pensar um futuro mais promissor – e o levantamento desta impossibilidade também não aparece na imprensa. A dificuldade, talvez, seja de que a velocidade de mudanças tecnológicas não pode ser acompanhada pela mentalidade em vigor, ao menos em boa parte dos casos. Casos assim certamente cabem na restrição "civilizatória" a que o cosmonauta russo se refere quanto às viagens espaciais.

Coerência no caos

O vice-presidente da República, com sua lábia política, cita Nabuco mas não segue seu exemplo e, neste sentido, é parte do que o abolicionista chamou de "entulho escravista". O professor Miguel Reale, jurista, ex-reitor e filósofo da ciência, indica uma das raízes do Brasil e ajuda a compreender esta situação em "O positivismo na cultura brasileira" (O Estado de S.Paulo, 24/11/01, pág. A2).

Na avaliação mais generosa, Reale escreve que "num país como o nosso, que não passara pela dúvida metódica de Descartes, pelo ceticismo de Voltaire e muito menos pelo criticismo de Emmanuel Kant, a teoria positiva teve o mérito de substituir o ralo ecletismo inspirado pela filosofia de Victor Cousin, que se opunha à tradição escolástica sem revisar as idéias dominantes em nosso cenário espiritual". Para Reale, o positivismo foi "o criticismo que começou a situar a inteligência brasileira no âmbito da modernidade, tornando-a partícipe das idéias universais que tinham a Europa como principal foco irradiador".

Os pecados do positivismo comtiano são bem maiores que seus defensores estão dispostos a aceitar ainda hoje. Reale cita um exemplo disso ao reproduzir palavras do maior representante desta filosofia em São Paulo, o médico Luiz Pereira Barreto, "que entendendo serem as leis exclusivas do mundo físico" considerava "a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco o templo remanescente dos ‘leguleios’, perdidos em falsas abstrações metafísicas, à espera da redenção que só poderia resultar do triunfo da sociologia positiva".

Comte interpretou a visão de organismo baseada em células como uma abordagem que levaria à ciência à "anarquia". O positivismo aqui, implantado especialmente em escolas militares, contribuiu para a visão elitizada do mundo e, num ambiente escravista, como indicou Nabuco, prosperou com o vigor que apontou Sérgio Buarque de Hollanda. Assim, se uma das funções da ciência, ao menos com base em Bacon, for a de diminuir o sofrimento humano, no Brasil ela ainda falta para a garantia das necessidades básicas.

Atividades ilícitas como o tráfico de animais rendem, no Brasil, algo em torno de 2,5 bilhões de reais ao ano, de acordo o Primeiro Relatório Nacional sobre o Tráfico de Fauna Silvestre pela Rede Nacional de Combate ao Tráfego de Animais. As estimativas são da existência de 350 a 400 quadrilhas envolvidas com a atividade, das quais 40% ligadas ao narcotráfico (O Estado de S.Paulo, 13/11/01, pág.A12). São dados oficiais que a imprensa só publica quando anunciados, nunca em investigações de casos.

Do tráfico de animais à destruição crescente do Rio São Francisco (Folha, 25/11/01, pág. C8) à "Difícil tarefa de ensinar e aprender ciências" (Estado, 25/11/01, pág. A12) há certa coerência no caos. Um dos desafios a superar no Brasil é que os professores que deveriam ensinar, em boa parte dos casos também não sabem.

Na falta de debates mais produtivos sobre problemas estruturais fica o conjuntural, fica a discussão dispensável envolvendo opiniões sobre maconha da apresentadora Soninha, segundo matéria da capa da revista Época. A velha cannabis ainda se presta a um sensacionalismo mal-disfarçado e, por isso mesmo, freqüentemente volta à capa das edições.

Discutir o papel de drogas capazes de alterar a consciência, inclusive o papel destruidor que podem ter dentro de um contexto sócio-cultural específico, deveria ser parte do trabalho da imprensa na alfabetização científica para um nova cidadania. O problema é que, como acontece com muitos professores de ciência, os responsáveis pelas redações também não sabem disso.

(*) Jornalista especializado em divulgação científica, mestre e doutorando em ciências pela USP e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo científico (ABJC). E-mail: ucapo@terra.com.br