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IN VITRO
Clonagem humana

Ulisses Capozoli

Não é todo dia que notícias científicas ocupam as manchetes dos jornais. Quando isso acontece, parte do que se chama de realidade muda radicalmente. As manchetes dos jornais da segunda-feira, 26 de novembro, falam da clonagem de um embrião humano para fins terapêuticos. De um ponto de vista técnico, trata-se da manipulação das chamadas células-tronco, células indiferenciadas que podem ser cultivadas em laboratório para dar origem aos diversos tipos de células: musculares, epiteliais ou nervosas, entre outras.

Os desdobramentos dessas inovações vão nas direções mais diferentes e, de certa forma, imprevisíveis. Claudio Angelo, editor-assistente de ciência da Folha de S.Paulo (26/11/01, pág. A13) destaca convenientemente que a publicação do trabalho "esconde a corrida pela patente da clonagem terapêutica". Notícias deste tipo perturbam a opinião pública e produzem a reação quase imediata de setores mais conservadores. Que os seres humanos serão clonados é tão certo como o Sol nascerá amanhã. É apenas uma questão de tempo.

A ficção científica (Blade Runner, de Philip Dick) já antecipou os problemas da clonagem. O que incomoda as pessoas parece ser a insegurança quanto a um ser clonado não ser tão humano quanto, digamos, um humano convencional. O que deveria incomodar, na verdade, é o fato de tudo ter se transformado em dinheiro.

Os jornais costumam advertir, como faz a Folha, que o desenvolvimento de seres humanos ainda enfrenta limitações técnicas – o que é verdade. Animais clonados têm demonstrado perturbadores defeitos genéticos. Mas a diferença, neste caso, está apenas no advérbio de tempo. Ao longo da Idade Média, a igreja cristã condenou os estudos de anatomia sob a alegação de que a ciência profana não deveria penetrar o território do sagrado. Numa época em que os transplantes se tornaram rotina, preocupações desse tipo parecem coisa de outro mundo. Na verdade, as questões não eram nem são tão simples assim e, por trás da rotina, manifesta-se um processo de "dessacralização" do mundo com as conseqüências mais dramáticas, entre elas a monetização de tudo.

As células-troncos, no entanto, embora pavimentem o caminho para a clonagem – e, nesse sentido, sejam motivo de preocupação –, vão permitir, num espaço de tempo que pode ser curto, que órgãos inteiros (corações, pulmões e rins, sem falar de células nervosas, que não se recompõem naturalmente) sejam produzidos em laboratório. Será uma solução mais humana e promissora para a técnica dos transplantes na qual, para salvar a vida de uns, outros devem morrer.

O presidente norte-americano George W. Bush, como o papa, já disse ser contra a clonagem humana. Mas este é um caso onde a palavra de Bush e a do papa não fazem a menor diferença. A ciência não é neutra. Pode ser usada para o bem ou para o mal. Depende da decisão que for tomada e, neste caso, como cautela para evitar maiores abusos, a opinião pública deve ser bem informada.

Quem leu as cartas de Darwin a sua prima e mulher, no entanto, sabe dos desafios de um empreendimento desse tipo. Gente desinformada, mas que se acha no direito de dizer o que pensa (caso de pastores mais preocupados com a lã do que a alma de seus rebanhos) é um obstáculo na compreensão que as pessoas podem ter de um acontecimento que manipula, mas não cria a vida.

Quem tiver dúvida sobre a humanidade dos replicantes que veja novamente o belíssimo Blade Runner. Philip Dick, a atormentado escritor que naufragou no mundo das drogas, retirou das profundezas de seu sofrimento cenas de humanidade para mostrar que, sob todos os aspectos, o homem é um desconhecido.