AVANÇOS DA CIÊNCIA
O admirável mundo virtual
Stella Pessoa (*)
É tempo da série Matrix. Confesso que ainda estou meio zureta tentando explorar, a partir dos filmes e do nosso mundo do dia-a-dia, as fronteiras entre o que é e o que parece ser, entre o real e o virtual. Aproveito a atmosfera para pôr em xeque algumas máximas: "Tudo o que vemos ou parecemos não passa de um sonho dentro de um sonho" (Poe); "Os sonhos são realizações de desejos" (Freud); "A imaginação governa o mundo" (Napoleão I); "A raça humana não consegue suportar muita realidade" (Eliot).
Nesse clima de profunda prospecção e alguma perplexidade, passo os olhos em notícias da Folha de S. Paulo e da Tribuna da Imprensa. Referem-se às pesquisas – desenvolvidas tanto em Bufallo, nos Estados Unidos, como em Bochum, na Alemanha – que dizem respeito ao tato.
Por um lado, em Bufallo, a sensação de tato passa a ser transmitida por computadores, pois os pesquisadores americanos criam uma nova técnica pela qual é possível captar, pela internet, o que uma pessoa sente quando toca um objeto. Por outro lado, as pesquisas alemãs investem no desenvolvimento de novos meios para ampliar a sensação do toque. Aguçam o sentido do tato.
Aí, como sou internauta inveterada, fico imaginando coisas: as relações que ocorrem hoje pela internet – dos simples namoros e bate-papos às operações comerciais – breve terão incorporado o sentido do tato aos seus recursos atuais, que incluem textos, imagens e sons. Então eu pergunto: serão virtuais os encontros amorosos pela internet que possam usar até mesmo transmissão e recepção do tato carinhoso entre os namorados a distância? Reais ou virtuais?
Não sei responder de pronto, mas acrescento duas questões à discussão.
Primeiro, lembro-me do português Mário de Sá-Carneiro, que viveu de 1890 a 1916, quando nem se imaginava a internet. Escreveu O homem dos sonhos. Trata da beleza da vida quando fugimos do real e embarcamos na imaginação. O personagem da história era um "homem feliz" porque conseguia deixar a vida monótona real e navegar em manifestações oníricas excitantes e variadas. Em um de seus muitos sonhos, a humanidade tinha corpos e almas como a gente da Terra, mas, ao contrário de nós, eram almas visíveis e corpos invisíveis. "Os corpos eram invisíveis, desconhecidos e misteriosos, como invisíveis, misteriosas e desconhecidas são as nossas almas. Talvez nem sequer existissem, da mesma forma que as nossas almas talvez não existam também...". Nas relações humanas do sonho, os encontros ocorriam entre as almas. E os corpos eram somente imaginados! O que há de comum entre alguns idílios amorosos pela internet e o sonho de almas visíveis e corpos invisíveis do Sá-Carneiro?
Rastros para o bem e para o mal
A minha segunda observação diz respeito a outro escritor português: o nosso contemporâneo José Saramago. Na parábola A caverna, sobre a destruição do trabalho artesanal pela tecnologia, o autor compara – na voz do artesão e ceramista Cipriano Algor – tato e visão: "Há relação entre a vista e o tato que li já não sei onde. A vista é capaz de ver pelos dedos que estão a tocar o barro. Os dedos, sem lhe tocarem, conseguem sentir o que os olhos estão a ver." Portanto, o tato – como "o sentido através do qual se percebem as sensações mecânicas, dolorosas, térmicas, de contato" (Aurélio) – não precisa obrigatoriamente do ato de apalpar ou tatear. Pode ser sentido pela visão, na ficção alegórica do premiado Saramago.
Seja lá como for, parece não haver tanta distância entre ciência e literatura, entre real e virtual. Mas é certo, como Cantardo Calligaris escrevia outro dia na Folha, que "a vida só se justifica pelos sonhos que ainda não se cumpriram".
Entre os meus sonhos, persistem ansiosamente aqueles de Einstein, nos quais os avanços da ciência deveriam ter sempre em vista os lenitivos às dores humanas. Sem dispensar requisitos morais e éticos. No mais, é preciso que alguém se habilite a reescrever Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, porque a Matrix já está aí. E o tato "eletrônico", também. Os avanços científicos e tecnológicos seguem bem acelerados. Seus rastros para o bem e para o mal não são invisíveis. No entanto, ainda nem chegamos a 2500, ano da sociedade hipócrita, infeliz e atormentada, conforme desenhada pelo romancista inglês falecido em 1963.
(*) Engenheira civil e analista de sistemas de informação