30/09/2003

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MITOLOGIA DOS TRANSGÊNICOS
Agricultura, ciência e história

Ulisses Capozzoli

Há 12 mil anos, quando a agricultura foi fundada, junto a uma região que bordeja o Mediterrâneo Oriental conhecida como Crescente Fértil, que se estende da costa sudeste do Mediterrâneo até o Golfo Pérsico, é provável que grupos humanos tenham discutido se os alimentos mais apropriados ao consumo eram os oferecidos pelas plantas silvestres ou os semeados por mãos humanas.

No passado, na ausência de conhecimentos que agora integram o corpo da ciência, a mitologia organizava o mundo. Os relatos mitológicos ofereciam a inteligibilidade possível e ordenavam os acontecimentos tanto no céu quanto na Terra. Daí a chance de que, de muitas maneiras, esse debate tenha ocorrido.

A agricultura, numa iniciativa só comparável à domesticação do fogo, ofendia os deuses numa interpretação mágica.

Os calendários certamente foram, durante muito tempo, a maior conquista ligando o céu e a Terra – neste caso em torno das estações do ano. Esse foi um conhecimento estratégico para a prática agrícola.

O filósofo e historiador da ciência irlandês John D. Bernal, em Science in History, mostra como a Bíblia registra a passagem da fase de caça e coleta para a prática da agricultura em "A Expulsão do Paraíso".

Na linguagem alegórica típica dos relatos mitológicos, a Bíblia conta que Adão, por estímulo de Eva, provou do fruto da "Árvore do Conhecimento", e com isso foi castigado a sobreviver pelo suor do seu trabalho.

A prática agrícola iniciou-se num momento de transformação profunda do ambiente terrestre, intimamente associada a mudanças de natureza astronômica. Naquele momento, esgotava-se a última glaciação, abrindo espaço para o interglacial em que vivemos, com temperaturas amenas.

O impacto na agricultura

A retração e o descongelamento de geleiras que haviam coberto boa parte da superfície da Terra por milhares de anos produziram lagos que deram origem a fontes d’água escorrendo em burburinho das terras mais altas para as menos elevadas.

O final da última glaciação, no sentido da Idade do Gelo mais recente, deve-se a um conjunto de fenômenos astronômicos como a órbita da Terra, eventual densidade maior de poeira atravessada pelo sistema solar no braço da galáxia em que se localiza e até oscilações na radiação solar.

O fato notável, aqui, é que a criação da agricultura mudou radicalmente a sorte da espécie humana. Com maior oferta de alimentos se registrou avanço na longevidade e densidade demográfica.

De um ponto de vista mitológico, no entanto, houve uma espécie de ruptura com a Natureza. Frutos antes dispersos no espaço agora estavam confinados ao desejo do homem. Nasciam onde o homem desejasse que isto ocorresse, e não mais ao sabor das condições da Natureza.

Desde então, as mudanças não cessaram.

Já nos referimos anteriormente aos escritos do reverendo Thomas R. Malthus, especialmente On essay on the principle of population, onde ele expressou o temor de que a oferta de alimentos não acompanhasse o crescimento da população e, ao final, tudo se encaminhasse para a fome e a destruição.

Malthus foi combatido à época por um outro religioso, na verdade um pastor que havia se desencantado com a fé, William Godwin. Para Godwin, as projeções de Malthus não faziam sentido porque não levavam em conta a criatividade humana.

Quando Gregor Mendel, também um religioso, expôs seu trabalho envolvendo princípios de genética (hereditariedade) num obscuro jornal austríaco, em 1866, ninguém poderia imaginar o impacto que produziriam, especialmente na agricultura.

Com Darwin, consistência

Mendel foi ignorado em sua época. Estava demasiado distante no futuro. As aplicações de suas descobertas na agricultura só começaram a dar resultados por volta de 1920.

Mas Mendel não foi o único responsável por uma série de avanços que reprogramaram geneticamente plantas como a batata e o milho, alimentos básicos especialmente na alimentação das parcelas mais pobres da população.

Tanto a batata como o milho foram levados da América, onde já haviam passado por melhoramentos nas mãos das populações indígenas.

Em 1903, nos Estados Unidos e na Alemanha, investigações científicas revelaram que os genes se encontram no interior do cromossomo, estrutura visível ao microscópio. O gene é uma unidade física funcional da hereditariedade, representada por um segmento de DNA. O cromossomo é a fita dupla e contínua de DNA. A descoberta de que um certo arranjo dos genes são responsáveis pela hereditariedade data de 1911.

Antes da aplicação da genética na agricultura, transformações de plantas foram feitas por métodos exclusivamente empíricos, realizados por agricultores sem conhecimento científico. Foi o que aconteceu com Luther Burbank, em 1873, nos Estados Unidos. Ele desenvolveu a batata Burbank por volta de 1873 e, além dela, trabalhou com resultados positivos numa série de outras frutas. Um pouco antes, em 1812, John Lorain, de Philipsburg, também nos Estados Unidos, havia cruzado duas variedades de milho e com isto obteve uma produtividade muito mais elevada que a convencional.

Os trabalhos de Charles Darwin ampliaram e deram consistência a esses avanços.

Atropelo da legislação

A chamada "revolução verde", que reformulou a produção agrícola já no pós-Segunda Guerra Mundial, foi uma combinação do conhecimento genético embutido em sementes melhoradas, máquinas e agrotóxicos.

A "revolução verde" assegurou safras em níveis até então inéditos na historia da civilização. Mas houve um custo para isso. Ecossistemas inteiros foram afetados e novas terras foram incorporadas à produção, empobrecendo a diversidade da vida antes que novos alarmes soassem para a necessidade de diminuir a pressão sobre os recursos naturais.

Os organismos geneticamente modificados (OGMs), os transgênicos, são uma extensão dessas transformações produzidas pelo homem ao longo desses milhares de anos, e não uma aberração moderna, ainda que a técnica do DNA recombinante, na base desse processo, seja uma conquista de apenas 30 anos.

É confortável, neste momento, fazer todo tipo de restrição aos transgênicos.

Uma série de situações antipáticas contribuem para isso. Uma delas é a chamada "soja da Monsanto", variedade consorciada a pesticidas produzidos pela empresa e que ameaça a liberdade dos produtores em todo o mundo.

No Brasil, desencontros oficiais e o atropelo da legislação, que exige a realização de testes antes de se permitir o plantio, são algumas delas. Essas notícias foram as manchetes das últimas semanas.

Apetite insaciável de lucro

É claro que as pessoas têm o direito elementar de decidir se querem ou não consumir alimentos produzidos com OGMs. Da mesma forma que têm direito de comprar combustível não alterado, medicamentos eficientes e até dinheiro não falsificado.

A gritaria toda, concentrada em torno da soja da Monsanto, no entanto, dissimula um conjunto de situações que não pode ser ignorado. Um deles é a sede de lucro das empresas – multinacionais ou nacionais, pouca diferença faz. E o exemplo do sistema bancário, no Brasil – bancos nacionais ou internacionais – parece uma demonstração razoável desse argumento.

Outro é a atitude das multinacionais da indústria farmacêutica, que não tiveram pudor, neste início de século, em ameaçar juridicamente a África do Sul quando este país decidiu fazer a quebra de patentes para a produção de medicamentos contra a Aids. A África tem metade dos doentes de Aids de todo o mundo. E os países subdesenvolvidos, neste momento, reúnem 95% deste total.

Assim, vociferar contra a Monsanto é arrombar porta aberta.

A atitude mais responsável, no Brasil, neste momento, é permitir que a Embrapa se envolva profundamente com a pesquisa de transgênicos. Essa é a forma de nos livrarmos, ou ao menos amenizar, as pressões inevitáveis dos conglomerados econômicos que, internacionais ou nacionais, têm o mesmo apetite insaciável de lucro.

Todos desonestos?

Algumas cartas e artigos neste Observatório criticaram meu último texto sobre transgênicos [veja remissão abaixo]. Um deles, assinado por dois pesquisadores, tem o mérito da crítica bem posta, bem-vinda e sempre necessária. Como escreveu Loren Eiseley, "nenhum homem pode contar toda a história", o que se pode entender como "ninguém é o dono absoluto da verdade".

Mas, corroborando o conteúdo de meu escrito anterior, nada menos que 700 pesquisadores científicos reunidos em Recife, no III Congresso Brasileiro de Biossegurança e III Simpósio Latino-Americano de Transgênicos, em carta ao presidente da República, ao presidente do Senado e ao presidente da Câmara dos Deputados, argumentam em benefício dos transgênicos. Entre outros pontos que não vale a pena reproduzir aqui, a carta recomenda, sobre transgênicos, que:

"Os impasses jurídicos suscitados levaram a um debate emocional, ideológico e desprovido de fundamentação científica validada, o que vem, desde 1998, paralisando o desenvolvimento científico e tecnológico da biotecnologia moderna no Brasil, levando à retração e redirecionamento, sobretudo, de pesquisas no campo da agrobiotecnologia.

"O atraso tecnológico no campo da agrobiotecnologia poderá não só representar perda de competitividade do agronegócio brasileiro, bem como a não-disponibilidade no país de alternativas agrícolas ambientalmente menos agressivas, com menor uso de defensivos agrícolas, menor erosão do solo, economia de água e de insumos.

"O debate ideológico e desprovido de fundamentação científica representará um caminho sem volta e irrecuperável para o Brasil, mais grave do que o foi a reserva de mercado para a informática.

"As decisões tomadas com relação à segurança de produtos transgênicos devem considerar, sobretudo, as questões científicas e o parecer técnico conclusivo da CTNBio, que não devem ser sobrepostos pelo debate ideológico.

"A CTNBio deve ser considerada como a instância multidisciplinar decisória sobre a segurança dos produtos transgênicos, e os produtos por ela considerados seguros devem ter a credibilidade do consumidor brasileiro.

"O atual impasse no país quanto à legitimidade da CTNBio para decidir sobre a segurança dos produtos transgênicos deve ser resolvido o mais rápido possível pelo atual governo e pelo Congresso Nacional, sob pena de comprometer o desenvolvimento econômico, científico, tecnológico e sobretudo o cumprimento das metas sociais do governo federal."

Assim, a menos que estejamos dispostos a acreditar que os participantes desse encontro sejam todos cientistas desonestos (o que deve incluir outros 1.500 pesquisadores que expuseram preocupações semelhantes na Europa há duas semanas), há razões para se pensar que os transgênicos contribuirão para uma nova época para a agropecuária em escala mundial, com perspectivas de se amenizar a fome, a recuperação ambiental e o reflorestamento.

Bola de bilhar

Há, sem dúvida, uma certa nostalgia em cada um desses acontecimentos. Com os transgênicos nos afastamos mais um pouco de uma visão idealizada da Natureza e não erradicamos (isso não seria possível com uma única ação) o fantasma da fome.

O desafio, neste momento, é o de debater a questão sem a superficialidade das palavras de ordem, atreladas a uma limitação ideológica e a conteúdos religiosos sublimados.

Exemplos históricos refutam os posicionamentos ortodoxos de outros tempos.

Ao saber das observações de Galileu, em 1609, anunciando as irregularidades na superfície da Lua, que deveria ser tão homogênea como uma enorme bola de bilhar, na visão aristotélica, o matemático Christopher Klau, mais conhecido como Clavius, emendou que a superfície lunar estava coberta por um material translúcido que, na prática, faria com que ela tivesse a perfeição prevista por Aristóteles. Aqui, é preciso dizer que Clavius não era nenhum ignorante. Entre outros desafios, fora encarregado pelo papa Gregório XIII da reforma do calendário.

Coisa do passado?

Ainda na história da astronomia, com impacto em todo o corpo da ciência, é interessante retomar que as órbitas planetárias só foram resolvidas quando Kepler deformou o círculo, fazendo dele uma elipse. Hoje, perdemos a dimensão dessa ousadia.

Como se não bastasse, em relação à história do Brasil certamente é razoável lembrar que estamos às vésperas de completar o centenário da Revolta da Vacina, ou Quebra-Lampião. E, com uma reação irracional aos transgênicos, corremos o risco de reeditar esse disparate.

Para quem não se lembra, em 1902 uma epidemia de febre amarela irrompeu no Rio de Janeiro, a então capital da República, e Oswaldo Cruz, o mais famoso sanitarista brasileiro de todos os tempos, deflagrou uma campanha dura contra a doença: combate ao focos, isolamento dos doentes e vacinação em massa da população.

Foi o bastante para colocar em pé de guerra a Escola Militar, espaço do positivismo, seguido de rebelião popular. De 12 a 15 de novembro de 1904 o Rio de Janeiro foi agitado por protestos contra a vacinação obrigatória, dando vazão a interesses políticos não envolvidos com saúde pública.

Interessante rever o que saiu na imprensa, especialmente as charges. Houve barricada nas ruas, incêndio de bondes e destruição da iluminação pública – daí o nome de Quebra-Lampião, pelo qual também essa reação ficou conhecida. Os alunos da Escola Militar, simpáticos aos movimento, se amotinaram, exigindo do governo de Rodrigues Alves o recurso da força.

E há quem diga que, no Brasil, positivismo é coisa do passado.

Leia também

Não à farra dos transgênicos – Jean Marc von der Weid e Flávia Londres

Transgênicos e responsabilidade social – Ulisses Capozzoli


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