MÍDIA E TRANSGÊNICOS
Mais informação, mais antipatia
Ao procurar saber até onde poderia chegar a hostilidade ao plantio de organismos geneticamente modificados, o governo britânico se deparou com uma surpresa. Os resultados do debate público realizado no Reino Unido sobre o tema, divulgados na semana passada, mostraram que não há limites para a antipatia da população aos transgênicos. Ao contrário do que se poderia imaginar, quanto mais as pessoas se informam sobre o assunto, mais endurecem suas opiniões sobre alimentos e plantas geneticamente modificados e, conseqüentemente, mais os rejeitam. As informações são da edição de 24/9 do diário britânico The Guardian.
O debate público em questão, intitulado "GM Nation?" (Nação geneticamente modificada?), foi organizado por um comitê nomeado pelo governo britânico. Realizado entre junho e julho deste ano, produziu centenas de reuniões e conferências públicas em todo o país e colocou na internet um website (www.gmpublicdebate.org.uk), no qual cerca de 37 mil britânicos responderam a um questionário e deram seu veredicto: 54% dos pesquisados são contrários ao plantio de transgênicos no país.
Segundo o Guardian, ao contrário do que parece, esta não é uma discussão sobre o triunfo da opinião sobre o conhecimento, mas o reconhecimento de que a ciência e o governo não têm todas as respostas sobre o que é melhor para a vida das pessoas. O jornal afirma também que o resultado da pesquisa, exposto em um relatório entregue ao governo, causará "desânimo nos que apóiam os transgênicos, incluindo muitos no governo, que sempre pensaram que a opinião da população mudaria se ela tivesse acesso a informações decentes" [The Guardian, 24/9/03]
De fato, o raciocínio de que informação significa aprovação está perdendo força. Assim como enfraquece o apoio aos transgênicos. Em relatório publicado em julho, os membros da Comissão de Biotecnologia do governo apontaram questões – até então ignoradas – sobre o impacto que as plantações transgênicas causariam no meio ambiente, e admitiram que existem lacunas no conhecimento científico sobre o assunto. Semanas antes, especialistas do governo haviam concluído que os produtos geneticamente modificados teriam pouco potencial comercial no Reino Unido.
O resultado do debate, somado a esses relatórios, serve de alerta para que o governo seja cauteloso ao tomar decisões sobre inovações científicas. Principalmente quando elas envolvem temas delicados como a segurança alimentar.
Pressão a favor
A pesquisa revelou ainda que a população dá pouco apoio à autorização para a comercialização de transgênicos e desconfia do desempenho do governo no assunto. Um dos itens do relatório "GM Nation?" identifica "um enfraquecimento da fé na habilidade ou mesmo na disposição de qualquer governo em defender os interesses do público em geral". A esses aspectos junta-se a crença popular de que as multinacionais de biotecnologia teriam poder demais – e, obviamente, não pensariam no bem estar da população.
Por conta disso, os ministros britânicos enfrentarão uma difícil tarefa daqui a algumas semanas, quando serão anunciadas as avaliações das plantações experimentais de transgênicos, cultivadas no país há aproximadamente três anos. Só então se saberá se o relatório do debate público conseguiu de fato mobilizar o governo.
Pode-se dizer que o plantio de organismos geneticamente modificados representa uma das decisões mais críticas que o governo de Tony Blair deverá tomar daqui para frente. Além de causar grande comoção popular, a opção pelo plantio de transgênicos significa uma mudança irreversível para a produção agrícola no país.
Mas se esses são problemas considerados locais, há ainda os que ultrapassam as fronteiras do Reino Unido. Em algumas partes da Europa, os consumidores estão céticos quanto à tecnologia dos transgênicos, e optam por uma aproximação lenta e cuidadosa com relação a esses produtos. O resultado disso tudo foi uma moratória de cinco anos em plantações na Europa – uma postura que reflete que há uma apreensão continental sobre o assunto.
Por outro lado, a grande pressão feita pelos EUA a favor dos transgênicos e o lobby das companhias multinacionais indicam que esta situação provavelmente irá mudar. Se a coação continuar nessas proporções, e se não for contida, poderá se confirmar o medo de que o governo britânico se curve diante dos interesses corporativos.